Tomb Raider: A Origem | Lara Croft salva o filme de um desastre maior

Tomb Raider: A Origem Filme

A versão de Angelina Jolie para a protagonista mais icônica dos videogames pode ter conquistado o público, mas é difícil negar que os dois filmes comandados por ela ficaram longe de fazer jus a Lara Croft. Agora, Tomb Raider: A Origem pretende reiniciar a franquia da personagem nos cinemas, baseada principalmente nas novas versões dos jogos. O esforço tem problemas e, em muitos pontos, apresenta mais potencial do que qualidade. Mesmo assim, o longa funciona por acertar no quesito mais importante: sua protagonista.

Aqui, Lara Croft (Alicia Vikander) é uma jovem de vinte e poucos anos que se recusa a aceitar que o pai, Richard (Dominic West), desaparecido há sete anos, está morto. Além da bagagem emocional que isso trás, o fato de Lara não assinar os documentos que oficializam a morte de Richard a deixa sem acesso à ampla fortuna da família. Assim, Lara trabalha como entregadora e, frequentemente, investe em bicos arriscados para conseguir se manter em Londres.

Isso, até que, depois de uma conversa com Ana Miller (Kristin Scott Thomas) “sua guardiã e diretora da Companhia Croft”, Lara decide assinar a declaração de que seu pai está morto. Antes de fazer isso, porém, ela descobre o segredo que Richard, aparentemente, levou para o túmulo: ele dedicou anos de sua vida à busca de uma antiga rainha chinesa que, segundo a lenda, queria espalhar a morte pelo mundo e, por isso, foi enterrada em uma remota ilha na costa da China. Lara, então, parte para lá com o objetivo de descobrir o que realmente aconteceu com seu pai. Lá, ela contará com a ajuda de Lu Ren (Daniel Wu), cujo pai também desapareceu na ilha, e enfrentará a misteriosa organização Trindade, que surge na forma de Mathias Vogel (Walton Goggins) e seus capangas.

Nas mãos de Alicia Vikander, Lara Croft é uma jovem carismática com um senso de humor leve e autodepreciativo; determinada, mas, ao mesmo tempo, sem saber a que dedicar sua garra e sua coragem. O longa acompanha sua primeira “missão”, e conseguimos acreditar que a protagonista que vemos aqui se tornará “a” Lara Croft que conhecemos. Além disso, a atriz se sai muito bem nas cenas de ação, para as quais obviamente treinou por meses. Entretanto, de pouco adiantaria ter em mãos uma protagonista carismática se o filme não soubesse utilizá-la, o que, felizmente, não acontece aqui.

O diretor Roar Uthaug e os roteitistas Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons entendem que é fundamental manter Lara no comando da história e, assim, jamais vemos a personagem à mercê de alguém ou afastada da ação. As resoluções e decisões da trama cabem a ela e, da mesma forma, os cineastas acertam ao manterem o foco emocional da personagem em seu relacionamento com o pai, sem a necessidade de forçarem uma subtrama romântica com outro personagem masculino, por exemplo. Aliás, considerando a diferença de idade entre West e Vikander, que é de 19 anos, é praticamente um milagre que Hollywood tenha colocado-os como pai e filha, e não como um casal.

Dominic West funciona bem nos momentos que divide com Lara (em diferentes fases de sua vida), enquanto Daniel Wu constrói um personagem multifacetado mesmo com pouco tempo de tela. Entretanto, os três são as únicas figuras que envolvem o espectador, já que o vilão de Walton Goggins surge estereotipado, não conseguindo ganhar nenhum peso nem mesmo com as fracas menções a sua família e, enquanto isso, seus capangas resumem-se a piadinhas óbvias e a ações genéricas. Nem mesmo Kristin Scott Thomas tem muito o que fazer como guardiã de Lara.

Com isso, Tomb Raider: A Origem torna-se indubitavelmente mais raso, já que não temos envolvimento algum com as pessoas que cercam e ameaçam Lara, mesmo que, como já dito, o mais importante seja que ela funcione como protagonista.

Tomb Raider: A Origem Crítica

Mesmo assim, é uma pena vê-la enfrentar antagonistas clichês e que jamais representam uma real ameaça, já que o longa demonstra a inteligência dela para enfrentá-los. Inteligência essa, aliás, que é frequentemente posta à prova pelos diversos quebra-cabeças que ela precisa decifrar, algo que claramente remete às origens da personagem nos videogames.

Uthaug e seus três (!!!) montadores, Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick, (surpreendentemente) conseguem criar um ritmo coeso para o longa, livrando-o do tom episódico que assola tantas adaptações de videogames, que se prendem à narrativa dividida em fases. Entretanto, tomar parte no tipo de desafio com que Lara se depara é muito mais divertido quando estamos com um joystick (ou mouse) nas mãos, e não quando estamos assistindo personagens em um filme. Pelo menos, as sequências de ação são eficientes, causando tensão e adrenalina enquanto conseguem, também, manter o espectador ciente do que está acontecendo.

Mais problemática é a falta de explicação para o aparecimento repentino de um dos capangas da Trindade depois que Lara escapa pela primeira vez (como ele conseguiu encontrá-la?) ou para o surgimento repentino da caixa de documentos que Lara abre em sua última cena, parece absurdo e estúpido que Richard não tivesse falado nada sobre aquela pesquisa. O roteiro ainda tende a diálogos que obviamente antecipam a trama, como o treinador de Lara declarando que ela “precisa tomar decisões” logo na primeira cena ou a protagonista anunciando, diante de uma armadilha, que ela está ali “não para afastar as pessoas, mas para prendê-las”, algo que ela apenas sabe porque o filme precisa plantar aquela pista, e não por algo que ela realmente viu.

Encerrando com abertura para uma sequência, Tomb Raider: A Origem apresenta potencial. Afinal, mesmo em meio a diversos problemas (alguns pontuais, outros mais intrínsecos), o longa é centrado em uma personagem fascinante e que, aqui, é tratada e caracterizada da maneira que ela merece, ainda que outros elementos da produção fiquem para trás.


“Tomb Raider” (EUA/RU, 2018), escrito por Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons, dirigido por Roar Uthaug, com Alicia Vikander, Dominic West, Daniel Wu, Walton Coggins, Kristin Scott Thomas, Derek Jacobi, Alexandre Willaume, Maisy De Freitas e Emily Carey.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.