Pássaros de Verão | Não sobra nada, nem cinema


Pássaros de Verão em nenhum momento convence como Cinema. Sua narrativa é dividida em capítulos, os “cantos”, que não possuem a independência para serem chamados assim. Sua passagem do tempo não é mais do que o descer e subir das cortinas de um teatro. O que resta é sua historinha e uma certa “consciência histórica” que pode ter dado origem a este projeto.

O que veremos, somos avisados, é inspirado em acontecimentos reais na Colômbia entre as décadas de 70 e 80. É a primeira geração de tráfico ilegal de drogas no país: a maconha. Uma família de nativos começa a prosperar ao exportar a erva e nessa mudança os valores de toda uma sociedade se altera radicalmente. É a voz do dinheiro falando mais alto.

Os diretores Cristina Gallego e Ciro Guerra estão filmando um épico, mas a pobreza de espírito de seus personagens acaba sabotando a aventura. No começo temos cenas magnetizantes do ritual de uma menina se tornando mulher depois de um período de reclusão. Há uma dança em que ela se veste com um manto vermelho e ao elevar suas mãos emula um pássaro grandioso e assustador. Esta é a última cena marcante do longa, e estamos apenas no começo. E mesmo essa cena, que se trata de um momento mágico, ritualístico, é captado pelos olhares dos cineastas de maneira mecânica.

Seus personagens são meras sombras do passado. Não há nenhuma atuação marcante, mas o problema não é o elenco, e sim o roteiro, que limita seus personagens a versões “canônicas” de um passado imaculado. A posição da matriarca, interpretada por Carmiña Martínez com uma dignidade que falta ao seu personagem, é controversa, pois seu status não parece fugir muito da “mãe da noiva” ocidental. Os valores da sociedade Wayuu são tão vulneráveis que a única possibilidade deles terem existido por tanto tempo foi seu isolamento geográfico de outros povos.

Pássaros de Verão bebe de várias fontes que vão desde o contemporâneo Cidade de Deus em uma inevitável comparação de uma amizade que se fragiliza no mundo do crime até a reverência de um Dez Mandamentos (Cecil B. DeMille), pessimista, trágico e com uma transformação no estilo de vida deste povo. É sobre choque de culturas, corrompimento pelo poder, honra e dinheiro duelando em um palco rachado pelo calor. E poderia ir muito além do que uma descrição burocrática de eventos históricos.


“Pájaros de Verano” (Col, 2018), escrito por Maria Camila Arias, Jacques Toulemonde Vidal e Cristina Gallego, dirigido por Cristina Gallego e Ciro Guerra, com Carmiña Martínez, José Acosta e Natalia Reyes.


 

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