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Obsessão

Lee Daniels apareceu para os olhos do grande público com o dramalhão independente Preciosa, uma experiência que, mesmo recheada de ótimas atuações não fugia de soar superestimada, estando bem longe de não ser tremendamente carregado e lento. ObsessãoObsessão, seu novo filme, acaba tomando o mesmo caminho. Exatamente o mesmo caminho.

Baseado no livro Paperboy, de Pete Dexter (que também assina o roteiro com Daniels), o filme conta a história desse jornalista de Miami, Ward Jansen (Matthew McConaughey), que volta para sua minúscula cidade natal perto de algum pântano da Flórida para investigar o caso de um redneck qualquer (John Cusack) que foi incriminado pela morte de um xerife e espera seu destino no corredor da morte. Ward, e seu parceiro (e redator negro), Yardley Acheman (David Oyelowo), têm então que partir em busca de uma verdade que parece se esconder por trás de uma série de obstáculos.

O que não deixa então que Obsessão seja apenas um filme clássico de investigação sulista é a presença de Charlotte Bless (Nicole Kidman), uma espécie de “white trash” que tem um caso à distância com o condenado e surge para ajudar Ward a tirar seu amor da cadeia. O problema é que o irmão mais novo do jornalista, Jack (Zac Efron), acaba se apaixonando por ela e criando o cenário perfeito para uma história que não tem como ter um final feliz.

E ai está o ponto que mais atrapalha, não o final infeliz, mas sim a história, já que Daniels parece tão preocupado em criar esse visual setentista, estourado, quente e granulado que não para e tenta entender que história está contando. Na verdade, a história está lá, só que acaba sendo estranhamento muito mais simples do que poderia. Como se convidasse o seu espectador para acompanhar uma investigação cheia de meandros e “forças ocultas” por trás da trama toda e, de uma hora para outra, acabar descobrindo ele mesmo que não tinha surpresa nenhuma para servir aquele pessoal todo no escuro do cinema.

Uma opção de caminho desiquilibrada, já que do outro lado, Daniels e Dexter se esforçam até a última gota de suor para compor uma série de personagens cheios de camadas passando por situações que, a cada passo, definem mais e mais esse clima violento e baixo que dita grande das motivações dos personagens. Mas tudo isso os movendo a lugar nenhum em uma trama que, quando se descobre que foi solucionada, não surpreende nem quem possa ter dormido durante metade do filme.

E talvez isso seja até proposital de Daniels e seu estilo (haja vista Preciosa) na hora de ir em busca de personagens e situações ao invés de apenas uma história, mas aqui (diferente do outro filme) isso acaba tornando a situação irritante e anticlimática (ainda que seu final provoque uma reação inesperada e tão violenta e crua com seu visual). Ainda mais se tratando de uma trama linear e que parece pedir por um pouco mais de clichês para mover seus personagens.

Obsessão Filme

É lógico também que isso abre espaço para discutir assuntos como racismo, a própria obsessão, da discussão de até onde se pode ir para matar seus próprios demônios e se redimir de um erro e até da relação entre o jornalismo, a notícia e a história na frente das vidas de inocentes, mas tampouco nada disso é discutido à fundo. Um resultado superficial demais diante do esforço visual de criar um filme chocante, sujo, quente e cru, e que, nesse caso, consegue bem.

Em contrapartida, (assim como em Preciosa) o diretor parece esbanjar sensibilidade na hora de deixar a vontade seus atores. Começando então mais um dos recentes momentos sensacionais de McConaughey, preciso e seguro em seu personagem, sem perder uma só linha de diálogo e compondo um personagem silencioso e carregado que evolui para uma culpa e uma dor que parecem movê-lo até seus derradeiros momentos.

Do outro lado, Kidman, que não se envergonha de em muitas oportunidades fazer seu trabalho no piloto automático, dessa vez tem a oportunidade (e o visual, situação e sotaque) para compor essa mulher de fala mansa e sexy que não deixa ninguém no cinema desviar o olhar dela. Isso enquanto convive com a sujeira de uma personagem capas de soluções animalescas e que chocarão muita gente.

E talvez seja por apostar demais neles dois que Obsessão derrape, já que com isso em mente, e com o ótimo trabalho deles, se sente confortável para demorar demais na hora de chegar a lugar algum, sem se preocupar em seguir um fio condutor mais linear. Talvez apostando demais também no final incrível que, certamente, ganha muita gente que estava cansada do filme até aquele momento. Mas o final passa muito rápido, e o que sobre é só a impressão de ter chegado até lá sem empolgação e sem uma trama mais interessante para seguir.


Papperboy (EUA, 2012), escrito por Lee Daniels e Pete Dexter (também livro), dirigido por Lee Daniels, com Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn e Macy Gray


Trailer do filme Obsessão

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