Cinefilia Crônica | Em cada esquina, uma locadora


Eu tinha um Nintendo 64 e um videocassete. Na verdade, meu pai ganhou os dois de aniversário, mas os filhos se acham os verdadeiros donos da casa. E do mundo. Não faz sentido ter um videocassete em tempos de streamings e não ligo para videogames porque tenho quase 30 anos.

Eu também tinha uma bicicleta para percorrer o circuito de locadoras do bairro. Elas não existem mais, nem a primeira casa onde morei. Os filmes ainda estão por aí e sempre estarão. Os joguinhos para distrair também, ouvi falar tem gente que até ganha para isso ou fica na frente de uma tela vendo os joguinhos dos outros, mas não sei se é verdade.

O circuito de locadoras do bairro exigia planejamento. O aluguel regular de fitas VHS só acontecia aos finais de semana. De cartuchos para o Nintendo 64 era mais raro, não valia muito a pena, o dinheiro era curto e as regras rígidas sobre o horário permitido em frente à tevê. Esses cartuchos eram muito caros. Num aniversário, meu padrinho me levou ao camelódromo no centro da cidade, pagou 70 reais (uma fortuna!) e viciei em Mario Kart.

A locadora favorita para pegar filmes era a Cinema 1. O dono, um senhor, tinha um fila brasileiro bem manso, que fazia as vezes de recepcionista depois que passávamos pelo portão. Eu deixava minha bicicleta encostada no muro, perto dos cartazes, antes de ficar encantado com a variedade de fitas à disposição. O dono me avisava sobre a previsão de chegada dos lançamentos. Eu nunca reservei um filme porque só gente metida reservava filmes. Dava gosto ficar olhando tudo aquilo sem me decidir. O catálogo da Netflix é modorrento demais quando penso naquele tempo.

A Lodger era outra locadora que eu frequentava. Lá, buscava cartuchos para o Nintendo 64 quando algum amigo aparecia em casa com moedas nas mãos e a ideia de jogar videogame à tarde na cabeça. Ficava uma quadra depois da Cinema 1, na esquina de uma avenida que corta a cidade. Tinha um muro baixo e um portãozinho sempre aberto, depois uma porta estreita e logo à esquerda umas cadeiras com tevês e videogames instalados para os mais viciados. Ao lado direito, uma variedade absurda de cartuchos para o Nintendo 64, que aos poucos deram espaço aos CDs de PlayStation. Isso bem antes das lan houses, pelo menos na minha memória, e só ela importa.

O tempo passou e o mundo mudou. Eu, por exemplo, descobri aos vinte e poucos que o esporte que mais gosto de praticar é a corrida. Moro na esquina da falecida Lodger e a duas quadras da santa Cinema 1. Quando perambulo pelas ruas do bairro, olho as novas construções e fujo de cachorros bravos com dublês de maratonistas.

Demorei algum tempo para quebrar uma resistência e passar em frente à Cinema 1. Pensei que não teria saúde para isso. Ela deu lugar a um desses condomínios com casas geminadas, placas de imobiliárias vendendo sonhos e financiamentos a perder de vista. Já a Lodger era um terreno abandonado até esses dias. Mas ontem, quando voltava da sofrida corrida usando máscara, percebi que o muro azul com desenhos de personagens como Mario e Donkey Kong mudou de cor. Está mais chamativo. Daqui até o fim do ano, será o escritório da campanha eleitoral de uma candidata.

Não sei seu nome, nem quero saber. Acho um crime a Lodger não ter sido tombada como patrimônio histórico e cultural da cidade. Já não há mesinhas para os mais viciados, nem espaço para fitas e CDs. Sobraram camisas, bandeirolas e santinhos pedindo votos.

Amanhã, quando voltar do trabalho, vou correr novamente. Dessa vez, vou rumo à direção contrária, para não bater uma melancolia ao olhar para a Lodger desfigurada pelas eleições, para não me dar vontade de chorar ao passar em frente à Cinema 1 esmagada pela especulação imobiliária.

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