Cinefilia Crônica | Disney, capiroto, Galinha Pintadinha e Lua de Cristal


Esses dias, pensei no meu amigo “D”. Não nos vemos há algum tempo, desde antes da pandemia. “D” se diz cristão e odeia o que chama de “religiões do diabo”. Acredita piamente na Bíblia, mesmo sem ter lido mais que três páginas desse livrão. Mero detalhe. Quando o novo coronavírus se alastrou pelo mundo, foi taxativo nas redes sociais: “tudo isso já tava escrito”.

Meu amigo “D” me veio à mente quando li sobre a chegada do streaming da Disney em novembro nessa terrinha estranha. Uma vez, num boteco de sexta-feira, fizeram uma piada com O Rei Leão. Ele não entendeu e tentamos explicar com uma referência. Nem todo mundo lembra os nomes de personagens clássicos, por mais que isso seja um pecado venial na religião dos cinéfilos.

“D” nos explicou que não entendia a piada porque nunca viu filmes da Disney. Ele contou a um público de amigos e copos assustados: sua mãe, muito religiosa, proibia que ele e seu irmão mais novo assistissem aos desenhos cheios de mensagens subliminares. “D” nunca viu, mas sabia da existência de pirocas e capetas escondidos em A Pequena Sereia, Dumbo, Branca de Neve e os Sete Anões e nas outras produções do “Valdisnêi”.

Não dá para negar que as teorias da conspiração são sempre mais divertidas que a realidade enfadonha, chata e cheios de dias mais ou menos. E a criatividade é dom divino. Fiquei com dó de “D”, porque ele deve ter se divertido menos que nós, os pagãos, com essas animações criadas para hipnotizar crianças e dar paz a pais e mães.

O “D” ainda não tem filhos, mas deixou claro que quando eles povoarem esse mundão de pouca fé, não deixará que assistam Galinha Pintadinha, Bob Esponja e outras “obras do cão”, como costuma dizer. Naquele dia do boteco de sexta-feira, quis ter a certeza de que “D” era abilolado. Perguntei sobre a Xuxa e ele deixou claro que jamais ouviria um disco de quem só conseguiu sucesso estrondoso por um pacto com o capeta.

Pobre “D”, não teve a alegria de ver Sérgio Mallandro entrando no túnel numa motoca velha e saindo de lá num cavalo branco. Não era pegadinha! Muitos problemas de imaginação seriam resolvidos só de assistir Lua de Cristal. Ainda no boteco de sexta-feira, “D” cuspiu abelhas africanas contra Ivete Sangalo, Vanderlei Luxemburgo, TV Globo, boneco Fofão e outras figuras públicas mancomunadas com o coisa ruim, segundo suas crenças infantis.

Senti vontade de perguntar se ele havia lido Fausto e Grande Sertão: veredas, mas seria perda de tempo e saliva. Quando pedimos a saideira, “D” deixou claro que não existe proibição às cervejas no livro sagrado. E insistiu não ver nada de errado nas contas bilionárias e isentas de impostos dos pastores midiáticos, divertindo seu público com dancinhas, músicas no estilo Galinha Pintadinha e provocações propositais aos que não se reprimem sexualmente.

Enquanto pensava no “D”, fazia minhas contas para saber o streaming da Disney caberá no meu orçamento. Na dúvida se boletos são coisas de Deus, senti vontade de ouvir “D” cravando: “tá na Bíblia uma profecia sobre o monte de streamings pecando contra o bolso do irmão”. Eu não duvidaria.

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