Amizade Colorida

por Vinicius Carlos Vieira em 04 de Setembro de 2011
Dentro de um gênero tão engessado e previsível, sempre que uma comédia romântica tenta fazer algo minimamente diferente, imediatamente ela acaba se tornando um destaque e Amizade Colorida faz isso, principalmente por não ter a mínima vergonha de ser, exatamente, uma comédia romântica.

Diante desse orgulho quase cínico de ser o que realmente é, o diretor Will Glunk repete o que fez em seu filme anterior, A Mentira, achando graça em uma simplicidade esquemática, temperando tudo com personagens interessantes e uma qualidade de diálogos ágeis e divertidos que dão o tom do filme.

Na trama, que sem compromisso algum em nenhum momento tenta vender algo surpreendente, Mila Kunis e Justin Timberlake são uma caça-talentos e um diretor de arte de uma revista de NY (descoberto por ela) que acabam se tornando melhores amigos e decidem “colorir” essa amizade, até que a falta de compromisso começa a dar lugar a um amor que os dois não parecem prontos para encararem.

Mas Amizade Colorida antes de ser sobre esse amor, prefere ser sobre esses dois personagens e Glunk não economiza na hora de desenvolver essa dupla e isso é meio caminho andado, já que ambos são pintados com uma simpatia que conquista seu público desde a primeira sequência, uma montagem paralela tremendamente preocupada em apresentar sua dupla de protagonistas de modo novo, diferente e, ao mesmo tempo, colocando-os exatamente na mesma situação. O que vem depois acaba então sendo uma comédia romântica cínica e que se esbalda nessa obrigatoriedade de, justamente, ser uma comédia romântica.

O filme de Glunk então se torna um exercício pessimista de como as comédias românticas e todos seus clichês bregas podem ter estragado os romances na vida real, com seus amores incorrigíveis, seus “príncipes encantados” e suas declarações de amor em público. Melhor ainda, Amizade Colorida, com charme e modernidade anda por essa corda-bamba rindo de si mesmo ao mesmo tempo em que passa por todos esses lugares comuns com propriedade e sem nunca perder esse humor de si próprio. Se no final das contas o espectador se sente confortável com um grande “eu te amo” em uma estação lotada e não acha aquilo brega, é justamente por todo esse trabalho de se esconder por trás do comum tentando fazer algo diferente.

Ao mesmo tempo, Glunk, assim como em A Mentira, tem uma enorme ajuda de um elenco que funciona de modo simpático e marca presença, principalmente, na hora de tratar desse humor que prefere ser sutil e liberal (com muitas piadas adultas sobre relacionamentos e sexo) ao invés de visual. Timberlake, que a cada filme vem sempre surpreendendo, não faz nada de diferente, mas, pelo menos, se esforça para não ser aquele mesmo cara de suas outras produções, o que acaba contando cada vez mais para que sua carreira se estabilize, ainda que tenha um problema imenso na hora de imprimir qualquer tipo de drama em seu personagem, mas com tal falha sendo compensada pela naturalidade de Kunis, que vai do despojo ao “romantismo brega” com uma propriedade que lhe permite uma enorme simpatia até nas piadas mais ácidas. O elenco ainda ganha a presença sempre interessante, e impagável, de Woody Harrelson como um editor de esportes gay que sempre que surge em cena a rouba do protagonista.

E essa necessidade de ser uma comédia romântica, ao mesmo tempo em que dá risada do próprio gênero, só não consegue fazer que Amizade Colorida consiga fugir daquele marasmo que precede o terceiro ato, tendo que conviver com um desentendimento sem muita força entre os dois protagonistas, mas isso são ossos do ofício e fica bem longe de prejudicar o resultado final: um filme sem peso nenhum, divertido, simpático, “boa praça” e que não tem a mínima vergonha de ser feliz acreditando, justamente, que o amor, mesmo desgraçado pelas comédias românticas enlatadas, acontece igualzinho a elas.


Frieds with Benefits (EUA, 2011), escrito por Keith Merryman, David A. Newman, Will Gluck e Harley Peyton dirigido por Will Gluck, com Justin Timberlake, Mila Kunis, Patricia Clarkson, Woody Harrelson, Jenna Elfman e Richard Jenkins


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