Abutres

por Vinicius Carlos Vieira em 10 de Abril de 2011

Em outras situações Abutres (que na tradução literal ganharia o título de Carcará, o que, no final das contas, seria muito mais preciso) talvez se deixasse ser um simples filme policial dramático, sua grande diferença aqui é que, nas mãos do sensível Pablo Trapero, se transforma em um estudo do ser humano.

Não que isso seja novidade na carreira do diretor, bem verdade seja até comum (como em Do Outro Lado da Lei), mas é sempre interessante ver isso sendo exposto diante dos olhos de seus espectadores. Não mostrados, exposto mesmo, como uma ferida aberta que não se deixa desviar a atenção, talvez até como um acidente de carro em que você tem que deixar seus olhos irem na direção desse desastre. Mas isso seria uma referência obvia demais, e uma coisa que “Abutres” não quer ser, é óbvio.

Trapero parece olhar para seu filme com a curiosidade de quem quer chegar mais e mais perto desse desastre, ou dessa ferida, não para cutucá-la, mas sim para observá-la nos mínimos detalhes. Sua câmera se movimenta sempre de modo firme, mas ao mesmo tempo lento, nessa mesma direção, com a certeza de que, por mais que o resultado seja o mais importante, são seus personagens que precisam lidar com tudo aquilo, e não, melodramaticamente, serem levados por essa maré.

De um lado, o sempre impressionante e marcante Ricardo Darín (de O Filho da Noiva e O Segredo dos Seus Olhos) é Sosa um advogado de uma empresa que se presta a trabalhar com vítimas de acidentes de automóveis em um esquema pouco honesto, do outro, Luján (Martina Gusman, que trabalhou com Trapero no seu último filme Leonera) é uma médica que, entre um plantão e outro, trabalha no serviço de ambulâncias. Duas pessoas, duas histórias e duas visões que acabam se esbarrado em uma situação com motivações totalmente distintas, mas que acabam se apaixonando.

Enquanto ela salva essas vidas, ele está lá para se alimentar dessa carniça, se aproveitar do resto desses desastres (daí o carcará), convencendo a vítima, ou a família da vítima (seja ainda dentro do hospital ou até em velórios) que o melhor a se fazer é deixar as indenizações em sua mão, enquanto, na verdade, o que eles fazem é criar uma situação onde o cliente fique com a enorme menor parte do dinheiro.

Sosa é apresentado assim, apanhando na porta de um velório e é de Darín a enorme responsabilidade de carregar o peso desse personagem nas costas, alguém tão cheio de falhas e culpas que, mesmo tomado por um certo ressentimento, acaba descobrindo o quanto fazer o certo ainda pode carregá-lo para uma tragédia.

E é nessa tragédia iminente que Trapero parece mais interessado, nesse quase suspense que suas composições plásticas, seus planos longos e seu ritmo lento não tem vergonha de explorar. Preferindo ficar preso, junto com seus personagens, em uma sala de emergência prestes a ser invadida, convidando seu espectador a sentir o que eles estão sentido (e até passando pelo mesmo alívio deles com o estampido dos tiros) do que mostrar realmente o que está acontecendo. Afinal, Abutres é sobre pessoas, não sobre situações.

Diante disso, Trapero então prefere eliminar o mundo ao redor desse casal aos poucos a colocá-los em contato com essa dor, com essa verdade, até por que, os dois já precisam ultrapassar barreiras demais para conseguirem fazer o que é certo. E mesmo que o foco seja esse personagem que acabam se mostrando cansado daquilo tudo, Trapero não esconde de ninguém que são seus próprios erros (de Sosa) que não o deixarão viver em paz, que afasta-o totalmente de ser confundido com uma vítima daquela sociedade. Muito pelo contrario.

E se Trapero fecha todas as saídas é por que, assim como nos créditos iniciais, não parece preocupado em olhar a imagem completa logo de cara, mas sim deixar que seu espectador a crie como um mosaico trágico e se prepare para o que vem em seguida, e que vai sendo preparado haja o que houver. É diante disso que Abutres se rende não só a um final explosivo, mas, simplesmente ao único final que poderia ter, já que tem na manga um ás verdadeiro e cru demais para ser ignorado.

Para o diretor, só lhe resta fazer jus a esse filme entrecortado por planos longos, com um plano-sequência aterrador, que, por fim, fará seu espectador sofrer e, quase parar de respirar, enquanto ele não se esvai com um corte da montagem. Tudo isso, para afogar em tensão e suor seu público uma última vez, em mais um plano semelhante onde sua câmera acompanha, e participa daquele momento, convidando quem está do lado de cá a se colocar dentro daquilo tudo de modo tão real que é fácil sentir um alívio quando tudo está acabando, ou melhor, prepara o terreno para um último soco no estômago.

Abutres, no final das contas, não só joga seu espectador nesse drama, como mostra o quanto, muitas vezes, os créditos finais também servem para se ficar calado, olhando aqueles nomes subirem à frente de seus olhos e dando para você um pouco de tempo para se recuperar de toda essa experiência à flor da pele que você foi jogado, sacudido, atropelado e deixado estatelado no meio da rua.

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Carancho (Arg, 2010), escrito por Pablo Trapero, Santiago Mitre, Martín Mauregui e Alejandro Fadel, dirigido por Pablo Trapero, com Ricardo Darín e Martina Gusman.

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