Vinte anos depois de Sua Majestade, Mrs. Brown, Judi Dench volta a interpretar a Rainha Vitória em Victoria e Abdul — O Confidente da Rainha, uma comédia histórica com toques dramáticos, ou vice-versa. Comandado pela performance envolvente da dama, o novo filme de Stephen Frears conta de maneira carismática e esperta uma história que, ao longo dos anos, perdeu-se pelo tempo.

O indiano Abdul Karim (Ali Fazal) levava uma vida tranquila em Agra, onde trabalhava registrando os criminosos que chegavam na prisão da cidade. Em certa ocasião, alguns deles foram até a Inglaterra para demonstrar a arte da tapeçaria indiana — Karim ajudou na organização da viagem e na seleção dos tapetes e artesãos que participariam. A Rainha Vitória, que também era Imperatriz da Índia colonizada por seu país, encantou-se com o evento e solicitou a seus oficiais que convidassem dois serventes indianos para participar do Jubileu de Ouro de seu reinado. Karim e Mohammed (Adeel Akhtar) são os escolhidos.

Depois de uma longa jornada de navio, eles chegam à Inglaterra, onde participam da anticlimática entrega de uma moeda cerimonial à Rainha. A ideia era que, logo em seguida, eles retornassem à Índia. Mas Vitória encanta-se com Karim e decide empregá-lo como seu servente pessoal e, mais tarde, como professor — ou munchi. Nasce uma amizade improvável que muda a vida de ambos, mas cujas diferenças culturais, políticas, religiosas e de status abalarão a família e os oficiais da Rainha.

Logo no início de Victoria e Abdul, o diretor Stephen Frears já mostra que, se utilizará um visitante estrangeiro para satirizar os costumes de um país e seu povo, fará isso por meio da chegada de Karim e Mohammed à Inglaterra — algo que foge do que costumamos ver no cinema, normalmente mais interessado em levar alguém caucasiano para “descobrir-se” em um país oriental ou de terceiro mundo, por exemplo. Assim, é divertido ver os dois indianos apontando a falta de educação dos ingleses — que, é claro, acreditam que eles estão apenas agora descobrindo a civilização.

Outra observação sagaz que o longa faz sobre a ideia de superioridade dos ingleses é quando os oficiais da Rainha apresentam a Karim e Mohammed os trajes que estes vestirão na cerimônia de entrega da moeda, que foram criados a partir de alguns desenhos indianos presentes no palácio. Quando os serventes dizem que aquelas vestes não representam a cultura indiana, Sir Henry Ponsonby (Tim Pigott-Smith) apenas declara que “os desenhos da Índia não pareciam muito indianos” — os europeus, civilizados e modernos, moldam a cultura de outro país de acordo com seus próprios gostos e interesses, ignorando o que os próprios nativos têm a dizer.

Victoria e Abdul Crítica

Assim, o roteiro escrito por Lee Hall a partir do livro homônimo de Shrabani Basu é particularmente enquanto comédia de costumes. Entretanto, há momentos do filme, especialmente quando começamos a falar de religião ou até mesmo da família de Karim, que parecem iniciar conversas maiores apenas para afastar-se delas. Além disso, é claro, o próprio interesse de Vitória pela Índia — ela declara querer aprender a língua e a cultura por ser a Imperatriz do país — cresce pelo fato de que a Inglaterrou colonizou a Índia, algo que acaba sendo suavizado no decorrer de Vitória e Abdul.

Conduzido de maneira competente e leve por Frears, o diretor também se sai bem ao demonstrar o leve desprezo e condescendência com que a realeza trata Karim por ele ser “completamente comum”, já que a falta de status ou poder do indiano certamente contribui para a visão que os ingleses constroem dele e de sua realização com a Rainha.

Mas o coração do longa é, obviamente, a amizade entre Vitória e Karim. Aproximando-se muito frequentemente do amor romântico, a relação é construída em respeito, admiração e curiosidade. Em suas conversas com Abdul, Vitória pode finalmente deixar de lado a pose que precisa assumir diante de seus súditos e familiares para falar sobre seus medos, arrependimentos e a saudade que sente das pessoas amadas que ela perdeu em sua longa vida; enquanto isso, Karim tem a oportunidade de ensinar e de deixar seu lado artístico e criativo aflorar. Dench traz sua excelência de sempre para construir Vitória com força, vulnerabilidade e senso de humor, enquanto Ali Fazal mostra-se carismático e capaz de dar conta de dividir a maioria de suas cenas com uma das maiores damas do cinema.

Vitória e Abdul é, portanto, um retrato de uma amizade sincera entre duas pessoas que encontram semelhanças e uma conexão profunda onde todos os outros enxergavam apenas diferenças e impossibilidades. Ao contar essa história de maneira despretensiosa e levemente crítica, Frears e Hall criam um longa envolvente e que faz jus aos personagens fascinantes que o protagonizam.


Victoria and Abdul” (Reino Unido/EUA, 2017), escrito por Lee Hall a partir do livro de Shrabani Basu, dirigido por Stephen Frears, com Ali Fazal, Judi Dench, Tim Pigott-Smith, Adeel Akhtar, Eddie Izzard, Michael Gambon, Olivia Williams, Fenella Woolgar e Paul Higgins.


Trailer – Vitória e Abdul — O Confidente da Rainha

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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