Quando Alien se estabeleceu como a obra-prima do gênero “alienígena hostil aterroriza tripulação em espaço confinado”, Ridley Scott deu origem a diversas produções de temáticas similares ao longo das próximas décadas. Entretanto, nos últimos anos, Hollywood voltou-se para questões mais pessoais no espaço — vide Gravidade, Interestelar e Perdido em Marte. Agora, Vida retoma a fórmula clássica bem em tempo de aquecer a plateia para Alien: Covenant, mas se sustenta como um filme próprio, tenso e envolvente.

A tripulação a bordo da Estação Espacial Internacional acaba de receber uma amostra recolhida em Marte. Ali, encontra-se um organismo microscópico que é a primeira evidência já encontrada de vida fora da Terra. O biólogo Hugh Derry (Ariyon Bakare) consegue estimular a criatura, que passa a se desenvolver rapidamente. As células de Calvin, como é batizado, são simultaneamente musculares, nervosas e ópticas, fazendo dele algo que é puro “músculo, cérebro e olho”. Porém, o crescimento descontrolado e a crescente agressividade de Calvin deixam a tripulação em estado de alerta.

O resto, é claro, não é difícil de adivinhar. Mas o diretor Daniel Espinosa e seus roteiristas Rhett Rheese e Paul Wernick (responsáveis por Zumbilândia e Deadpool) não constroem Vida como um filme baseado em reviravoltas. Em vez disso, eles investem em construir o tom da narrativa, estabelecendo um clima de tensão e suspense que se mantém até o plano final (agora sim encerrando o longa de maneira um tanto inesperada, e muito eficiente).

Assim, por mais que seja possível saber perfeitamente o que vai acontecer a seguir, esse exercício não atrai a atenção, mais interessada em acompanhar a maneira com que Espinosa move a câmera com fluidez pela Estação, como se ela mesma estivesse sob o efeito da gravidade zero. Assim, os planos raramente encontram-se perfeitamente alinhados, chegando a surgir até mesmo de cabeça para baixo. Com isso, o diretor leva o espectador diretamente para dentro daquele ambiente, além de garantir certo desconforto devido aos planos inesperados e a oportunidade de explorar ao máximo o ambiente em que seus personagens se encontram.

Estes, aliás, são mais estereótipos do gênero do que personagens complexos, mas o elenco carismático consegue elevá-los e torná-los figuras interessantes. Assim, Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya) é a comandante justa e dedicada a sua tripulação; o piloto Sho Murakami (Hiroyuki Sanada) é o astronauta ansioso para rever a esposa e conhecer a filha recém-nascida; e o engenheiro Rory Adams (Ryan Reynolds) é  o alívio cômico/cara que não entende da ciência, dependendo totalmente da persona do ator para funcionar.  A outra metade da equipe, porém, se sai melhor: Derry é o cientista determinado a ir o mais longe possível em nome do conhecimento, mas Bakare o constrói de maneira sincera e ainda faz bom uso do fato de o personagem ser paraplégico e, assim, ter encontrado liberdade na Estação; Rebecca Ferguson revela mais facetas de Miranda North, a oficial de Quarentena, conforme a situação se torna mais crítica; e, fechando o elenco, Jake Gyllenhaal vive David Jordan, médico da tripulação e recordista de mais dias consecutivos passados no espaço — Jordan é um misantropo, usando a Síria como exemplo de todas as barbáries que podemos cometer uns contra os outros “aqui embaixo”.

Vida Crítica

Mas, ao falarmos dos personagens de Vida, Calvin também merece seu espaço. Espinosa toma praticamente o caminho contrário do design de H.R. Giger, fazendo de seu alien uma criatura cujo corpo (inicialmente) sem forma pode mover-se de maneiras perturbadoras. Adiar a revelação do monstro? Espinosa mostra Calvin a todo o momento desde sua chegada à nave, mas a criatura que vemos nem sempre é a mesma de uma cena para a outra, devido a seu desenvolvimento acelerado. Assim, a presença de Calvin mantém um estado constante de suspense. É interessante perceber que Espinosa emprega uma câmera subjetiva do ponto de vista do alien duas vezes, e que a diferença entre a qualidade da imagem de uma seja tão diferente quanto da outra.

Espinosa também se saí bem na missão de implementar pistas e utilizar elementos do cenário ou da história como justificativa para certas escolhas, como a luz vermelha indicando um alarme e que é a desculpa perfeita para mergulhar todos em um inferno que parece inescapável, enquanto a falta de sensibilidade de Derry nas pernas rende uma surpresa eficiente e que não merece ser estragada aqui para quem ainda não assistiu ao filme. Além disso, de maneira geral, os personagens se comportam de maneira racional e de acordo com suas respectivas missões — ainda que, é claro, tomem uma parcela considerável de decisões não tão bem pensadas (ou pensadas tarde demais).

Mantendo o fôlego até o último segundo de projeção, Espinosa comanda com segurança e talento esta produção ideal para os fãs da ficção científica de horror. Vida emprega elementos clássicos de seus antecessores (tripulação guiando-se “sob as sombras” enquanto a criatura não é encontrada; uma visita ao exterior da nave para consertar alguma coisa; discussões sobre os protocolos; provocações carinhosas entre a equipe; etc.), mas sempre de maneira honesta e focada em sua própria proposta. E esta é, de maneira geral, alcançada com eficiência, garantindo uma experiência divertida, tensa e envolvente.


“Life” (EUA, 2017), escrito por Rhett Rheese e Paul Wernick, dirigido por Daniel Espinosa, com Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ariyon Bakare, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada e Olga Dihovichnaya.


Trailer – Vida

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