Ainda que seja divertido e visualmente excitante, Velozes e Furiosos 8 demonstra que a franquia terminou em termos de sentido, ou pelo menos no pequeno esforço para que isso exista. Ainda que toda essa loucura tenha começado três ou quatro filmes atrás, mais do que nunca agora isso se torna algo além da conta.

Não existe mais desculpa narrativa, nem vontade de ligar tudo em uma linha que conduza minimamente a trama para algum lugar. Como se tudo nascesse de um daqueles estalos de genialidade que não se encaixam, “mas enfim, ninguém está ligando para isso… joguem lá!”.

Se esse oitavo filme começa quase como um vídeo turístico de Cuba, em pouco segundo você tem a nítida certeza de que tudo aquilo ali, essa Lua de Mel de Toretto e Letty (Vin Diesel e Michelle Rodriguez), não terá a menor importância para o resto do filme. E quando, com intuito de reaver o carro do primo, Toretto antes de qualquer coisa arranca bancos e metade do motor (antes de explodi-lo), a vontade que dá é de jogar o pacote de pipoca para o alto e ir embora.

Mas tudo bem, esse exagero, esse clima de galhofa é a ideia central (é menos do que deveria, mas tem gente que vai usar isso de desculpa para encobrir essas bobagens), e em pouco tempo o espectador é obrigado a encarar uma espécie de “reviravolta” onde Diesel é agora o vilão junto de uma languida e sem graça Charlize Theron, que leva o papel a sério demais e tem momentos vexatórios, como quando tenta criar um “ar de psicopata olhando para o nada”.

No resto do tempo, Velozes e Furiosos 8 é tão preguiçoso que até cansa. “Precisamos criar uma chuva de carros e uma perseguição onde todos eles corram juntos como zumbis”, “E que tal um submarino?!”, como se as ideias surgissem e mais nada fosse feito para que elas entrem no filme acompanhadas de qualquer coerência. Toda e qualquer cena surge precedida de um briefing de missão com todos “mocinhos” ou com Toretto travando um combate verbal com Theron, no resto do tempo, cabeças falantes dentro de carros turbinados (e até um mini tanque). E quando você percebe que cada carro combina única e exclusivamente como seu motorista e quase nunca com a missão… bom… você já ter largado de mão qualquer sentido muito antes disso.

Velozes e Furiosos 8 Crítica

Mas é lógico que diante de tudo isso Velozes e Furiosos 8 funciona em um monte de coisas. Dwayne “The Rock” Johnson, como sempre, é um show cínico de simpatia, o primeiro momento com o time de futebol da filha é impagável. A presença de Scott Eastwood (filho do Clint) como ajudante do “Sr. Ninguém”, Kurt Russel, rende uma série de boas piadas. E até o comportamento do Roman de Tyrese Gibson tem lá seu charme (esqueça aquela babaquice dele com o personagem de Ludacris para ver quem “pega” a personagem de Nathalie Emmanuel). Isso sem contar a ação.

F. Gary Gray estreia na franquia depois de bons trabalhos em Straight Outta Compton e Código de Conduta e faz o “arroz com feijão”. E levando em conta que em termos do gênero, não são todos que consegue “deixar a ação rolar”, Gray faz um ótimo trabalho. Você vê tudo que está acontecendo e cada sequência parecia não ter fim em termos de cara de pau. O que é bom quando o assunto é diversão. Curiosamente, pelo seu currículo recente, muito provavelmente ele “tiraria de letra” o que viesse além da ação, mas infelizmente o que cai em seu colo é algo que esbarra na picaretagem narrativa.

Velozes e Furiosos 8 não sai de lugar nenhum e nem chega em lugar algum, não termina a trama, não finaliza a ação e parece só preocupado em deixar espaço para mais um filme da “Saga”, quase como uma série de TV com pouca criatividade (só falta o vilão gritar “eu voltarei!” enquanto se safa). Por outro lado, é óbvio que diverte com “The Rock” arrancando um banquinho de concreto do chão para fazer exercícios para o bíceps ou dando um chute em um torpedo, mas tudo isso fica pequeno quando o roteiro tenta ser sério (“ela é um ato digital de Deus” afirma a personagem para apresentar a vilã”).

Menos do que todos antecessores, o filme então se perde ao não perceber que os carros são importantes, mas os velozes e furiosos não são eles, mas sim os personagens, e tratar eles com carinho e dar cérebros para eles usarem seria algo que os ajudaria a não saírem por ai destruindo os carros que querem proteger só porque Cuba é um país lindo.


“The Fate of the Furious” (EUA, 2017), escrito por Chris Morgan, dirigido por F. Gary Gray, com Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, Ludacris, Charlize Theron, Kurt Russel, Nathalie Emmanuel, Luke Evans, scott Eastwood e Kristopher Hivju


Trailer – Velozes e Furiosos 8

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