É cada vez mais intenso o debate sobre a presença da mulher no cinema, tanto na frente quanto atrás das câmeras — mesmo assim, o fato é que a indústria ainda dá um espaço muito maior para homens brancos, cis e heterossexuais. E mesmo quando falamos do gênero feminino, mulheres brancas, cis e heterossexuais também encontram uma representatividade consideravelmente mais forte nas telonas. O resultado é que, quando nos deparamos com um filme da excelência de Uma Mulher Fantástica, este torna-se ainda mais significativo e importante quando nos apresenta a um ponto de vista diferente daquele com o qual estamos acostumados.

Uma Mulher Fantástica acompanha Marina (Daniela Vega), que divide seus dias entre o trabalho como garçonete e como cantora. Ela acabou de se mudar para o apartamento do namorado, Orlando (Francisco Reyes). Até que, após uma noite romântica e apaixonada em comemoração ao aniversário dela, Orlando morre subitamente. Desnorteada, Marina tem que lidar com a perda do amor de sua vida enquanto sofre ameaças e ataques por parte da ex-esposa e da família dele, que querem impedi-la de continuar no apartamento de Orlando e até mesmo de comparecer a seu velório e enterro. O motivo de tanto ódio vai muito além da suposição de que Marina é a responsável pelo rompimento daquela família — o verdadeiro problema, na visão deles, é sua condição de mulher transexual.

Condição essa que jamais se estabelece como característica principal de Marina, que é uma protagonista mais do que à altura do título do filme. Corajosa, determinada, otimista e constantemente impulsiva, Marina enfrenta com garra cada problema que a família de Orlando lhe apresenta, com a força — e a exaustão — de alguém que, vivendo na sociedade em que vivemos, encara desafios dos mais diversos todos os dias. Assim, é fascinante perceber a maneira com que Daniela Vega, dona de uma expressividade fascinante, é capaz de demonstrar tudo o que Marina está sentindo apenas com um olhar ou gesto. Dessa forma, percebemos a maneira com que ela se controla para manter-se calada diante das ofensas cada vez mais fortes de Sonia (Aline Küppenheim), ex-esposa de Orlando, ou como observa a conversa entre a detetive e o médico. Sua imediata hesitação diante da presença de médicos ou policiais não tem nada a ver com culpa, e sim com a clara compreensão de que autoridades não a enxergam como ela é. Marina está sempre em guarda diante de desconhecidos e, ao ouvir longos discursos advindos dos familiares de Orlando sobre como estes “não sabem o que veem” ao olhar para ela, Marina permanece calada ou dá respostas curtas e grossas, sutilmente demonstrando a nós o quanto ela já sofreu com esse tipo de agressão, mas também que sabe seu valor enquanto ser humano — afinal, fugir do status quo só é um problema pela maneira com que nossa sociedade preconceituosa reage a qualquer um que não se encaixe em suas definições retrógrafas de como devemos agir e o que devemos ser.

Nesse sentido, o diretor Sebastián Lelio, que assina o roteiro ao lado de Gonzalo Maza, acerta ao cercar Marina de pessoas que a amam e respeitam, desde sua chefe até a irmã e o cunhado — o que realça ainda mais a ignorância da reação dos outros personagens. Pessoas como Sonia e seus filhos veem pessoas como Marina como seres subumanos, como criaturas fadadas a viverem na “pura perversão” e que são sinônimo de dramas e escandâlos, uma “quimera” cuja presença é algo maligno para as crianças e “pessoas de bem”. Em determinado momento, Sonia literalmente chega a pedir para Marina sair da frente de seu carro como se estivesse mandando um animal correr, algo que tem como consequência um dos momentos mais divertidamente catárticos da obra.

Uma Mulher Fantástica também mostra que mesmo as pessoas mais bem-intencionadas podem entregar-se a microagressões ainda mais sutis, já que a detetive, por exemplo, parece estar sempre medindo as palavras ao conversar com Marina — além de, em seu desejo de protegê-la, praticamente insistir que seu relacionamento com Orlando, na verdade, era abusivo. A realidade, como acompanhamos no começo do longa, é bem diferente, e é admirável como Lelio consegue estabelecer o amor entre Marina e Orlando de maneira tão forte em tão pouco tempo. Nas poucas cenas em que acompanhamos o casal, fica claro que os dois sentem um amor e um carinho profundo um pelo outro, e que tem um relacionamento saudável, feliz e apaixonado. Estabelecer essa fundação é imprescindível para que o restante do filme funcione, já que, em seu cerne, Uma Mulher Fantástica conta a história de Marina enquanto ela se reencontra e aprende a lidar com a perda do amado. Seu processo de luto, entretanto, é prejudicado pela família dele, o que nos leva aos momentos em que a protagonista enxerga a figura de Orlando, e a uma belíssima cena em que Marina visita a sauna que ele frequentava em busca de algo que ele talvez tenha deixado para trás.

Uma Mulher Fantástica Crítica

Outro ponto fundamental para que a obra funcione é o fato de que Lelio e Maza mostram ter pela protagonista o respeito que ela merece. Assim, o nome que ela recebeu no nascimento, por exemplo, aparece somente uma vez, e é usado justamente com a intenção de ofender — e se ouvimos algum personagem referindo-se a Marina no gênero masculino, é sempre um gesto de desrespeito. Quando o filho de Orlando pergunta a Marina se ela “já fez a cirurgia”, ela responde que isso não é algo que se pergunte, o que o filme respeita ao não mostrar seus órgãos genitais. Lelio chega, inclusive, a propositalmente escondê-los em dois momentos distintos: durante um exame médico e, mais tarde, naquele que se estabelece como um dos mais belos e marcantes planos do ano — deitada, nua, Marina observa-se por meio de um espelho colocado entre suas pernas, cobrindo sua intimidade e refletindo seu rosto, simbolizando aquilo que realmente a define.

E Uma Mulher Fantástica é repleto de momentos poéticos como esse, que surgem em meio ao cotidiano de Marina e refletem o turbilhão emocional da protagonista. Durante uma caminhada, ela depara-se com um grupo de trabalhadores carregando um enorme espelho que, ao balançar, desestabiliza seu próprio reflexo; em outro momento, o vento torna-se tão forte a ponto de quase derrubá-la. Pois Lelio demonstra aqui uma sensibilidade imensa, totalmente focada em compreender e enaltecer sua memorável protagonista. Elevando ainda mais os cuidadosos planos pensados pelo diretor, a fotografia de Benjamín Echazarreta sabe quando investir em uma iluminação mais natural ou quando banhar o quadro de cores intensas, como nas cenas ambientadas na sauna — inclusive na ótima abertura do filme, que corta de imponentes quedas d’água para um plano de Orlando mergulhado em uma forte luz vermelha. Finalmente, os belos acordes da trilha sonora conduzida por Matthew Herbert sabem quando deve, ficar apenas no plano de fundo, desaparecer para realçar o silêncio ou elevar-se, surgindo sempre de maneira relevante e à favor da história.

Em diversos sentidos, Marina é uma protagonista como poucas. Por ser um retrato complexo, empático e multifacetado de uma mulher pertencente a um grupo que segue lutando firmemente por seus direitos, e que ainda é tão marginalizado em nossa sociedade, o magistral Uma Mulher Fantástica representa um passo na direção certa, pois ao mesmo tempo em que entende as particularidades e dificuldades que Marina enfrenta por ser transexual, também compreende que essa é apenas uma das características que formam essa fascinante e admirável personagem.


“Una Mujer Fantástica” (Chi/Esp/Ale/EUA), 2017), escrito por Sebastián Lelio e Gonzalo Maza, dirigido por Sebastián Lelio, com Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco, Aline Küppenheim, Nicolás Saavedra, Amparo Noguera, Trinidad González, Néstor Cantillana, Alejandro Goic, Antonia Zegers e Sergio Hernandez.


Trailer – Uma Mulher Fantástica

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