A comédia dramática mexicana Não Aceitamos Devoluções não chamou muita atenção quando foi lançada em 2013, mas conquistou uma parcela do público com a história nada original de um playboy que teve uma filha com uma turista e, então, tem que cuidar da bebê depois que a mãe abandona a pequena. Agora, França e Reino Unido se uniram para refilmá-lo na Europa, e Uma Família de Dois é um resultado não muito diferente: o roteiro é batido, mas funciona ocasionalmente, principalmente devido à ótima dinâmica entre a dupla central.

Samuel (Omar Sy) trabalha no litoral francês, onde aproveita para relacionar-se com quantas turistas for possível e festejar madrugada adentro. Até que Kristin (Clémence Poésy) aparece com a bebê Gloria, resultado de uma noite com Samuel no último verão. Kristin deixa a pequena com ele e desaparece. Desesperado, Samuel vai atrás dela em Londres, mas sem sucesso. Sem dinheiro e sem falar o idioma, ele acaba conhecendo o produtor Bernie (Antoine Bertrand), que lhe oferece um emprego como dublê. Os anos se passam, Samuel e Gloria (Gloria Colston) se adoram e tudo vai bem… Até que outra reviravolta acontece quando Kristin retorna com pretensões de retomar a guarda da menina.

Inicialmente, Samuel é um personagem irritantemente imaturo, chegando ao ponto de declarar que não pode cuidar de Gloria porque “não se dá uma criança a outra criança”. Mas o carisma de Omar Sy e o desenvolvimento do protagonista conforme ele aprende a ser um homem responsável para ser capaz de cuidar da filha acabam o redimindo, pelo menos até certo ponto — tudo parece acontecer com muita facilidade para ele. Mesmo assim, o roteiro assinado por Eugenio Derbez, Leticia López Margalli e Guillermo Ríos acerta ao não transformá-lo completamente; ele continua tomando decisões questionáveis em nome da felicidade imediata da menina, como deixa-la faltar à escola para passear com ela.

A dinâmica entre Samuel e a pequena Gloria é fundamental para que o filme envolva o espectador. Nesse sentido, Gloria Colston se sai muito bem, demonstrando segurança na familiaridade que demonstra pelo pai, como na brincadeira dos dois em que Samuel finge estar morto para que ela possa lembrá-lo de que ele é imortal. Ou nos momentos em que Gloria (que fala inglês com um sotaque norte-americano apesar de ter crescido em Londres e frequentar uma escola francesa) serve como intérprete do pai, já que ele continua não tendo conhecimento algum do idioma. Nesse sentido, a designer de produção Emmanuelle Duplay faz um belo trabalho no que diz respeito ao apartamento dos dois, que é um verdadeiro parque de diversões montado exclusivamente para a felicidade de Gloria.

Uma Família de Dois Crítica

Durante seus anos em Londres, Bernie se torna um grande amigo para Samuel e Gloria. Antonie Bertrand tem a chance de tornar o personagem mais interessante e complexo nos momentos em que demonstra sua preocupação pela garota, mas vê-lo dar em cima de todos os homens que cruzam seu caminho é um tipo de humor que destoa do restante da trama e que parece estar ali apenas porque os roteiristas não sabiam como estabelecê-lo como gay de outra forma. Fechando o elenco principal, Clémence Poesy quase consegue fazer de Kristin mais do que apenas uma antagonista estereotípica, mas a personagem é rasa e ressurge apenas para trazer conflito à trama — não há explicação, por exemplo, pelo repentino interesse romântico de Samuel por ela.

A reviravolta que encerra o filme funciona por trazer novas dimensões ao relacionamento que havíamos acompanhado até então entre Samuel e Gloria, mesmo caindo no velho clichê cinematográfico de retratar doenças que não apresentam sintoma algum até o momento em que isso possa ser usado como recurso dramático. Além disso, a jornada de Samuel é fortemente facilitada pela pura sorte que cai sobre ele: um emprego assim que chega à cidade, a amizade de um produtor rico que lhe dá um lugar para morar… Afinal, a história de um homem imaturo que aprende a ser um pai excepcional quando descobre que teve um bebê não é nada nova e, nesse sentido, Uma Família de Dois não traz nenhuma inovação.

Apesar de o diretor Hugo Gélin e os montadores Valentin Feron e Grégoire Sivan imprimirem um ritmo fluido à trama, o tom da narrativa não consegue flutuar entre comédia e drama. Com isso, momentos como Kristin dando as costas para Samuel e entrando em um táxi não trazem peso algum e, consequentemente, o filme não consegue investir mais fortemente em seu lado dramático quando Kristin retorna e quando descobrimos o segredo escondido por Samuel.

Sustentado principalmente pelo carisma de Omar Sy e da pequena Gloria Colston, que estabelecem uma ótima química entre seus personagens, Uma Família de Dois consegue envolver moderadamente e pode até ser capaz de arrancar boas risadas e lágrimas daqueles mais facilmente manipuláveis, mas dificilmente permanecerá na mente do espectador.


“Demain Tout Commence” (Fra/RU, 2016), escrito por Eugenio Derbez, Leticia López Margalli e Guillermo Ríos, dirigido por Hugo Gélin, com Omar Sy, Gloria Colston, Clémence Poesy, Antoine Bertrand, Clémentine Célarié e Anna Cottis.


Trailer – Uma Família de Dois

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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