Uma Casa à Beira Mar | Uma vila como centro do mundo

Uma Casa à Beira Mar Filme

O filme chama Casa à Beira Mar no Brasil (assim como seu nome internacional), mas seu nome original é “A Villa”. E a vila do filme é o centro do mundo. Pelo menos do ponto de vista francês. Ela é um microcosmo que fala sobre família, política, vida e morte.

É um filme que lamenta pelo presente, mas que também se enxerga no passado, sob a forma de culpa. No começo é possível que você imagine se tratar de um filme leve sobre o assunto, ou que talvez chame os fantasmas do clássico Era Uma Vez em Tóquio, que é uma história famíliar que possui um fundo dramático, universal e nada leviano. Muitos devem concordar. E este filme tem tudo para sê-lo. Menos pela profundidade. Isso porque ele é ingênuo demais. E esse, ironicamente, é o real problema de nossa geração.

A história começa nos mesmos moldes de um drama familiar intimista como Invasões Bárbaras, e vai deixando claro ter a mesma pretensão. O patriarca da família, e, vamos descobrir, da própria vila em que sua casa é a principal, adoece e seus filhos se reúnem em sua volta. Ele entra em um estado vegetativo após dar sua última baforada em um cigarro. Sua última frase, dita na solidão: “que pena”. Vemos a seguir a fumaça das cinzas de seu cigarro tomar as rédeas da metáfora sobre o além-vida, e informar ao espectador que este será um filme de símbolos.

A partir daí, a história se desenrola para apresentar seus outros personagens, suas histórias em torno daquela família, e as personalidades que de lá se formaram. E é daí que o filme vai construindo sua própria personalidade teatral através de seus diálogos. Muitos diálogos. Eles são, como você pode observar, super-inteligentes, profundos e teatrais. Todos parecem ter uma forma profunda e final de dizer as coisas sobre a vida e o que a resume, o que pode fascinar muita gente ou afastar, já que a ideia de uma família genial francesa só faz sentido para um povo nesta Terra: os próprios franceses. Afinal de contas, eles vivem no centro do mundo, né.

De qualquer forma, o trabalho do diretor Robert Guédiguian consegue entreter e nos fazer se apaixonar pela história da vila e seus ideais, sejam lá quais forem eles. Talvez a paixão esteja concentrado no próprio ser humano e seus debates internos, entre trabalho e relacionamentos. Mas eis que surge uma cena enigmática: uma lembrança de um dos filhos, na pele de Jean-Pierre Darroussin, que faz o papel de intelectual amargurado, onde seu pai, vestido de Papai Noel, distribui presentes para toda a vila.

Ele chora a única vez no filme pelos ideais do pai, perdidos no tempo como aqueles presentes. Outra cena envolve peixes e uma outra filha, essa atriz e interpretada por Ariane Ascaride: ela observa como os peixes são limpos pelo irmão (Gérard Meylan) após a pescaria, que mantém o único restaurante do local (“com boa comida a um preço justo”, como ele gosta de falar, seguindo os princípios do pai moribundo). Ela imagina, ou lembra, de um momento onde os mesmos peixes pescados não eram limpos, mas soltos de volta ao mar. É um momento sutil, mas poderoso, que pode significar uma série de coisas, como a perda da inocência ou como hoje nos tornamos predadores da natureza, mesmo que a contra gosto. Tanto na cena do Papai Noel quanto na cena dos peixes, os símbolos se perdem, pois querem dizer muito com pouco.

As atuações estão tão confortáveis que poderíamos acompanhar aquelas pessoas por mais algumas horas. Pelo menos dois irmãos: a atriz amargurada pela morte acidental da filha pequena sob os cuidados do pai, e o irmão amargurado pela realidade, onde seus pensamentos no papel não encontram espaço no mundo de hoje para serem publicados.

Deixe-me abrir um pequeno parêntese para este escritor frustrado, pois ele é fácil de entender pela atuação pertinente e caracterização óbvia de Jean-Pierre Darroussin. A partir dele podemos entender o resto da família.

Ele representa o intelectual máximo do microcosmo. O mais inteligente e, portanto, o mais depressivo, anti-social. Sempre reclamando com sua opinião pessimista sobre a vida, e sempre fazendo questão de politizar tudo em uma relação injusta de poder, vestindo seu casaco sutilmente vermelho e tendo seus pensamentos rejeitados pelo mundo contemporâneo, ele é obviamente um Karl Marx com barba rasa (e careca em cima da cabeça). E rasa é a metáfora aqui, pois ela só precisa de um dos representantes mais caricatos do inconformismo com a realidade para formar o símbolo. Como sua jovem namorada comenta quando fala por que está com ele, “o seu jeito revolucionário de falar me cativou”. Ele a fisgou pelo coração, mas quando chega a maturidade na cabeça desta jovem seu professor favorito começa a lembrar uma caricatura cansada e patética.

E é exatamente da mesma forma com que ele se torna uma caricatura simpática de algo real, todos ali se tornam, cada um à sua maneira, cumprindo o seu papel, versões degradantes de um tempo que se foi de esperança e energia, e que hoje se preenche de memórias, ressentimentos e medo de viver.

A tempo: sempre antenado com os tempos atuais, este filme também possui refugiados, e eles consome boa parte do terceiro ato. Não é como se a história deles fizessem parte da principal, pois não faz. O tema secundário simplesmente é jogado porque sim. E assim como todo e qualquer acontecimento na vila, este é mais um em que a impotência de seus moradores é o maior símbolo de todos.


“La Villa” (França, 2017), escrito por Robert Guédiguian e Serge Valletti, dirigido por Guédiguian, com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan.


Trailer – Uma Casa à Beira Mar

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