Divertido e esperto, Uma Aventura LEGO é também um longa criativo e surpreendentemente ambicioso na maneira com que trata os importantes temas que aborda. Tirando o máximo proveito do universo em que se passa mas sem depender exclusivamente do apelo do brinquedo para funcionar, o resultado é uma excelente obra que funciona em todos os sentidos.

O roteiro assinado pelos também diretores Christopher Miller e Phil Lord (responsáveis pelos ótimos Tá Chovendo Hambúrguer e Anjos da Lei) inicia nos apresentando à missão que deverá ser cumprida pelos heróis do filme: o ditador Presidente Negócios conseguiu tomar posse de uma poderosa arma que ele pretende, um dia, usar para destruir o mundo. Existe, porém, a chamada peça de resistência, única coisa existente que pode desativar a arma. Uma profecia anuncia que quem irá encontrar a peça será O Especial, a pessoa mais inteligente, criativa e corajosa do mundo.

Conhecemos, assim, o protagonista Emmett, um operário otimista e feliz seguidor de regras que, após encontrar Megaestilo na construção em que trabalhava e, sem saber o que fazer, acaba seguindo a garota e, assim, encontrando a peça de resistência, vendo-se na inesperada posição de herói. Ele, porém, é um sujeito comum que “nunca teve uma ideia original na vida” e, se quiser salvar o mundo, terá que aprender a pensar sem a ajuda de manuais.

Estabelecendo a cidade – e, mais tarde, o mundo – habitado por Emmett como uma sociedade opressora por trás da fachada de felicidade, Uma Aventura LEGO traz, então, referências a obras distópicas como 1984 e Admirável Mundo Novo. Assim, se de início Emmett acordando pela manhã e iniciando o dia de acordo com as regras de um manual de como ser feliz parecem uma tentativa de permanecer otimista mesmo levando uma vida solitária, logo percebemos que a realidade é mais assustadora ao vermos o jovem seguir o passo que orienta o leitor a desejar bom dia à cidade – algo que vemos não apenas Emmett, mas todos os habitantes  fazendo. A partir daí, presenciamos os cidadãos trabalhando e andando pela cidade enquanto cantam repetidamente a grudenta canção “Tudo é Incrível”, e há até mesmo a aparição de um cartaz que traz uma foto de Negócios com os dizeres “estou de olho em você”, em referência direta à obra de George Orwell.

Uma Aventura Lego Filme

A construção de mundo do filme é um de seus pontos altos: apresentando suas temáticas sem recorrer a diálogos expositivos e explicações excessivas, Uma Aventura LEGO traz uma trama facilmente acompanhável e compreendida pelas crianças da plateia sem ser boba para os maiores. Miller e Lord mostram, assim, confiar não apenas na história que estão contando, mas também na inteligência do público-alvo de sua obra. Desta forma, mesmo habitada em um universo construído a partir de pecinhas coloridas de brinquedo, a história se move de maneira que faz sentido: ao ver Megaestilo pela primeira vez, por exemplo, é natural que Emmett se encantasse pela garota — seu visual gótico e cabelos coloridos são diferentes de qualquer pessoa que ele já tenha visto. E, sim, uma profecia que origina um herói é algo que já foi visto em muitas histórias mas que, aqui, funciona justamente porque o filme está ciente de que é um recurso comum.

É impressionante, também, a maneira como o longa utiliza o universo do brinquedo que o origina. Longe de ser apenas um comercial de duas horas de um produto, os realizadores aproveitam cada oportunidade que as peças de plástico oferecem – e, mesmo tendo sido feito com animação computadorizada, a aparência é de stop motion. Tudo é construído com elas, de cada objeto nas cidades aos personagens e elementos como água (a sequência no oceano merece destaque), fogo e fumaça, e cada “reino” daquele mundo é um ambiente diferente do LEGO, como O Velho Oeste, uma cidade medieval e uma bizarra cidade nas nuvens. Os movimentos e expressões dos personagens nunca deixam de encantar, e detalhes como os movimentos restritos de Emmett quando se exercita são fascinantes. Além, é claro, das pontas de diversos bonecos LEGO, como Batman, Superman, Mulher-Maravilha e até mesmo Han Solo e C-3PO pilotando a Millenium Falcon, em um momento deus ex machina realizado de forma brilhante. E, apesar de fazer piadas com a natureza do brinquedo, como quando Batman diz que “só trabalha com peças pretas”, o separador de peças e as construções de veículos, o filme não depende disso ou de suas várias referências à cultura pop para funcionar, mostrando, mais uma vez, o esforço de criar um filme de verdade, e não apenas algo que funciona apenas movido ao carinho do público pelo brinquedo.

Mantendo um ritmo constante e com um terceiro ato completamente inesperado e que faz todo o sentido com a narrativa, Uma Aventura LEGO, além de contar com piadas inspiradas e ter um senso de humor inteligente (muito do qual, infelizmente, é perdido com a dublagem), é, em sua essência, uma história sobre a potencial grandiosidade de cada um e sobre a importância de não se conformar – uma mensagem que, mesmo não sendo inédita, é sempre importante, e aqui é passada de uma forma nunca vista e que, provavelmente, não será vista de novo.


The Lego Movie, escrito e dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, com as vozes (no original) de Chris Pratt, Elizabeth Banks, Morgan Freeman, Will Arnett, Alison Brie, Will Ferrell, Liam Neeson e Nick Offerman.


Trailer do filme Uma Aventura Lego

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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