por Mariana González
05 de abril de 2018 |

Um Lugar Silencioso começa como tantas outras histórias pós-apocalípticas: uma família percorre uma cidade abandonada, repleta de jornais cujas manchetes anunciam a avassaladora tragédia, e adentram um mercado também abandonado em busca de suplementos. As ações do grupo são cuidadosas, já que o perigo está à espreita. Mas logo descobrimos que a situação, instaurada há 89 dias, é ainda mais delicada pelo fato de que a ameaça orienta-se pelo som. Aqui, qualquer barulho um pouco mais alto atrai aquilo que ataca com imensa rapidez e de maneira fatal.

Entretanto, se o longa dirigido por John Krasinski e escrito por ele ao lado de Bryan Woods e Scott Beck é uma obra tão eficiente, isso não acontece apenas por sua premissa, que traz um toque inovador a uma história familiar, mas pela excelência técnica que o filme alcança ao explorar ao máximo a sua base. De maneira geral, o som é uma parte muito importante dos gêneros do terror e do suspense e, aqui, é usado genialmente não apenas para criar tensão, mas para desenhar o universo da trama e para estabelecer as suas regras. Logo começamos a entender quais sons são seguros e quais representam perigo — e qualquer ruído inesperado assusta justamente por isso. Enquanto os personagens caminham pelo perigoso mundo que habitam, é fascinante reparar, por exemplo, em como os passos de Regan (Millicent Simmonds) soam de maneiras distintas quando ela passa por três ambientes diferentes em um mesmo plano.

Em contraste, o próprio silêncio também é um elemento fundamental, especialmente pelo cuidado com que Krasinski trabalha com diferentes tipos de silêncio de acordo com o espaço em que os personagens se encontram. Nesse sentido, é somente uma pena que Um Lugar Silencioso apoie-se com tanta frequência na trilha sonora composta por Marco Beltrani. Bela e usada para dar suporte ao que estamos vendo, e não para tentar forçar o espectador a sentir algo, a trilha seria perfeitamente adequada em outra produção; aqui, onde o som do ambiente e o silêncio são tão importantes, o longa teria dado ainda mais força a esses elementos caso se mostrasse mais comedido no uso de sons não-diegéticos (ou seja, que não fazem parte do universo do filme).

Enquanto isso, a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen é espetacular principalmente por sua exploração da escuridão, que surge para deixar as pessoas que acompanhamos aqui em uma situação ainda mais fragilizada. Há, ainda, as luzes vermelhas que indicam perigo (tanto literalmente, para os personagens, quanto para o público, em termos de linguagem cinematográfica). Ao lado dela, Krasinski revela-se um diretor hábil ao criar planos cuidadosos e belíssimos. Seus enquadramentos escancaram o perigo em que um personagem se encontra, por exemplo, ou capturam a força emocional de outro momento. Além disso, ele acerta também na forma com que nos apresenta a elementos do ambiente que representam perigo, tornando-nos cientes de algo que os personagens ainda não sabem e, por isso, fazendo-nos temer pela sobrevivência deles.

Um, Lugar Silencioso Crítica

E esse é outro ponto em que Um Lugar Silencioso mostra-se um exemplar a ser celebrado dentro do terror moderno. Afinal, a verdade é que, por mais tecnicamente excelente que uma história de horror possa ser, muita de sua força se perde quando não nos importamos com o destino das pessoas que acompanhamos. Aqui, entretanto, o roteiro e a construção do longa fazem com que nos envolvamos com os cinco personagens que conhecemos; eles são figuras multidimensionais, e Krasinski usa-os com cuidado e propósito. Isso fica especialmente claro no arco de Lee, interpretado pelo próprio Krasinski.

Inicialmente, muitas pessoas vão pensar que esta história de sobrevivência e de família é contada pelo viés do patriarca, o principal responsável — é claro! — pela segurança de sua esposa e de seus filhos. Aos poucos, porém, o longa subverte essa ideia preconcebida, mostrando-se, ao longo de todo o seu terceiro ato, cada vez mais complexo na maneira com que trata as relações entre os personagens.

Para tanto, as atuações impecáveis do elenco também são imprescindíveis. Krasinski faz de Lee um homem inteligente, prático e que, por trás do semblante de coragem, esconde o medo que sente por sua família; ele divide o peso do mundo com sua esposa, Evelyn (Emily Blunt, sua esposa também na vida real), que é capaz de expressar uma infinitude de emoções apenas com o olhar ou com a forma com que, por exemplo, seu rosto demonstra a agonia de esconder um grito. Mas quem comanda Um Lugar Silencioso é mesmo Millicent Simmonds, que estabelece-se como a verdadeira protagonista da obra. O fato de ela ser surda (e interpretada, vale destacar, por uma atriz realmente surda) mostra-se, aqui, tanto uma fragilidade — já que ela não escuta os sons que representam perigo — quanto uma força — ela está menos apta a assustar-se à toa e, com isso, causar barulhos perigosos.

Além disso, é claro, ela e toda a sua família comunicam-se por linguagem de sinais, algo fundamental em sua nova realidade mas que, para eles, provavelmente já era cotidiano mesmo antes de seu início. Com isso, Krasinski ainda insere no longa uma discussão sobre “a sobrevivência do mais apto” e como as ferramentas de que precisamos para resistir mudam de acordo com nosso contexto.


“A Quiet Place” (EUA, 2018), escrito por Bryan Woods, Scott Beck e John Krasinski, dirigido por John Krasinski, com John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe e Cade Woodward.


Trailer – Um Lugar Silencioso

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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