Duas adaptações de peças teatrais conquistaram espaços importantes nesta temporada de premiações: Um Limite Entre Nós, baseado na peça homônima de August Wilson, vencedora do Pulitzer, e Moonlight: Sob a Luz do Luar, adaptação de um texto dramatúrgico escrito por Tarell Alvin McCraney e que nunca chegou a ser produzido. Entretanto, enquanto o segundo é um exemplo perfeito de como uma peça deve ser imbuída nos elementos particulares do audiovisual ao ser levada para as telonas, Um Limite Entre Nós prende-se a seu formato original e, assim, depende apenas do talento de seu elenco e da complexidade de seus personagens para funcionar.

Ambientada na Pittsburgh da década de 50, a história acompanha Troy Maxson (Denzel Washington), um lixeiro frustrado pelo fato de que, enquanto ele e outros negros são relegados a recolher o lixo, os funcionários brancos têm a oportunidade de dirigir os caminhões. Mas suas frustrações vão muito mais além, é claro, originando-se em sua falta de chance de se tornar um jogador profissional de baseball. Ignorando que poderia já estar velho demais para iniciar uma carreira no esporte ou outros fatores, Troy culpa exclusivamente o racismo da sociedade e, assim, proíbe veementemente que seu filho mais novo, Cory (Jovan Adepo), entre para o time de futebol americano de uma universidade em troca de uma bolsa de estudos.

Além disso, o protagonista carrega em seus ombros o peso de ter utilizado o dinheiro da indenização de seu irmão, Gabriel (Mykelti Williamson), ferido durante a Segunda Guerra e com distúrbios mentais como sequela, para construir a casa que divide com a esposa, Rose (Viola Davis) e com Cory. Enquanto isso, seu filho mais velho, Lyons (Russell Hornsby) enfrenta a desaprovação do pai por tentar viver a vida como músico. Finalmente, Troy demonstra não dar o devido valor para a dedicação e amor de sua esposa, algo que, além de seu próprio casamento, também abala sua longa amizade com Jim Bono (Stephen Henderson).

Tudo isso dá espaço para que Denzel Washington destile monólogos direcionados à Morte, histórias contadas com tanta energia que ninguém ousa interrompê-lo, mesmo já as tendo ouvido dezenas de vezes e, ocasionalmente, declarações de amor calorosas à esposa. A força e o carisma habituais de Washington são fundamentais para que esses longos diálogos de Troy sempre soem sinceros, relevando as diferentes facetas e conflitos do protagonista. Entretanto, é impossível deixar de notar a teatralidade da escrita que, em um palco de teatro, funcionaria perfeitamente — mas que, em uma tela de cinema, releva-se excessivamente expositiva e, por vezes, mesmo repetitiva. Não é a toa que Washington, que também dirige a adaptação, credita o roteiro exclusivamente a August Wilson, autor da peça e falecido há mais de uma década.

Um Limite Entre Nós Crítica

Além disso, se brilha no papel principal, Washington pouco arrisca enquanto diretor. Limitando-se a mise-en-scènes que trazem os demais atores ao redor de Troy enquanto este discursa e a cortes bruscos para planos-detalhe injustificados, fazendo com que seus cenários pareçam excessivamente limitadores — uma herança, é claro, dos palcos. Cinema não apenas roteiro e atuação: é também montagem, enquadramento, fotografia, movimentos de câmera, etc.. Sem isso, Um Limite Entre Nós deixa de alcançar todo o potencial de sua força gigantesca.

Afinal, em seus momentos mais necessários, a montagem não é capaz de evocar o ritmo que a obra precisa transmitir. Em seu terceiro ato, por exemplo, uma sequência acompanha os personagens durante uma passagem de tempo que o espectador não consegue sentir. Além disso, simbolismos óbvios da peça tornam-se ainda mais escancarados na telona, como a rosa caindo das mãos de Rose ou o próprio elemento título da produção (“Cercas”) ao redor do quintal da família Maxson e que passa a representar algo para cada personagem: para Troy, uma forma de manter tudo (e todos) que lhe pertencem eternamente consigo; para Rose, a maneira com que o casamento apagou seus sonhos e seu brilho; e, para Cory, o aprisionamento representado pela figura paterna.

Pois por mais expansivo e caloroso que Troy seja, ele também é um homem capaz de crueldade e frieza. Acreditando que “cuidar da família” signifique apenas prover recursos financeiros, o protagonista não entende o quanto a esposa e os filhos precisam dele de tantas outras formas e, assim, frequentemente pisa (percebendo ou não) no carinho que estes sentem por ele. O que nos leva a dois monólogos de Rose sobre seu casamento que, entregues com brilhantismo pela impecável Viola Davis, demonstram a qualidade da escrita de Wilson — a dor acumulada por décadas quando ela declara que “Eu me plantei dentro de você e esperei para germinar. E não levei dezoito anos para perceber que o solo era árido e pedregoso, e que nada jamais nasceria ali.” é palpável.

Beneficiados por terem interpretado os mesmos papéis na montagem da peça que chegou aos palcos da Broadway em 2010, Washington e Davis dominam a produção, mas seus colegas de elenco também contribuem em peso. Russell Hornbsy protagoniza uma das melhores cenas do longa ao pedir para que seu pai vá assistir seu show, enquanto Jovan Adepo ilustra bem o arco dramático percorrido por Cory, de garoto amedrontado a jovem homem disposto a finalmente enfrentar Troy. Como Bono, Stephen Henderson frequentemente traduz as reações da própria audiência diante das ações de Troy, já que o ator lança ao amigo olhares que misturam perfeitamente a familiaridade, o carinho, a admiração e o desapontamento.

Abraçando a complexidade e a humanidade de seus personagens, Um Limite Entre Nós jamais lança julgamentos sobre seu protagonista imperfeito, difícil e, muitas vezes, incômodo. Entretanto, seu texto obviamente teatral frequentemente torna-se cansativo ao tornar-se parte de uma produção audiovisual que se recusa a explorar as possibilidades da sétima arte. Ao menos, para a sorte da adaptação, a força de seu elenco e de sua história são excepcionais.


Fences” (EUA, 2016), escrito por August Wilson a partir de sua peça homônima, dirigido por Denzel Washington, com Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Mykelti Williamson e Saniyya Sidney.


Trailer – Um Limite Entre Nós

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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