Tudo que Quero | Dakota Fenning em um road movie movido a Star Trek

Tudo Que Eu Quero

Tudo que Quero é um road movie onde as emoções estão empacotadas e sob controle. Não há nenhum momento no filme inteiro que você teme pela sua protagonista. Seu sorriso nos diz que tudo vai dar certo. As expressões das pessoas que gostam dela também. Ninguém está verdadeiramente desesperado pela situação, pois, afinal de contas, o que pode acontecer de ruim com uma garota linda como Dakota Fanning perdida sozinha na estrada?

Este é um filme seguro para assistir inteiro ou em partes e sem prestar atenção. Ele não arrisca nada em sua criação, e portanto no final não há ganho algum. Se trata de um passeio no parque dentro da mente de Dakota Fanning fazendo uma garota autista que acaba se revelando uma excelente escritora, de acordo com sua cuidadora (Toni Collette). Ela fez 400 páginas de um roteiro para um concurso que comemora os 50 anos de Star Trek, sua série de TV favorita (o clichê dentro do autismo). Ela está sendo cuidada em um centro de tratamento de pessoas com necessidades especiais, saindo de uma infância obviamente problemática, mas já conseguindo andar sozinha pelo bairro e trabalha em uma loja da Cinnabon (que é tão boazinha que contrata autistas e patrocina filmes que desmistificam o autismo). Seu conflito é ser mais independente, morar com sua irmã, que acabou de ter um bebê, e até cuidar de sua sobrinha. Ela gosta de bebês e cachorros pequenos. E este filme, é claro, tem um cachorro pequeno com uma roupinha da tripulação da Enterprise.

Então o roteirista Michael Golamco adapta sua própria peça em que a garota autista precisa entregar seu roteiro para o concurso, mas os Correios já fecharam, e convenientemente só irão abrir um dia depois do prazo limite para participar. Ela, então, foge um pouquinho da rotina rígida que a permite ter uma vida normal para seguir em uma aventura onde tudo poderia dar errado se ela não encontrasse almas caridosas pelo caminho. Ela encontra uns ladrõezinhos, também, mas eles são tão bondosos que a deixam ficar com seu caderno de anotações e algumas moedas que somam a quantia exata para manter o drama de “será que ela vai conseguir?”. Ela precisa realizar a façanha de entregar seu roteiro porque ela precisa provar que consegue ser independente. Isso enxergamos na personagem criada por Fanning a despeito do roteiro não nos dar muitas pistas sobre isso exceto uma cena com sua irmã em sua única visita.

Olhando pelos lindos olhos de Dakota Fanning enxergamos um esforço sincero em ser a menina excepcional que infelizmente tem algumas limitações emocionais em sua cabeça. Mas ela é brilhante. Ela consegue reescrever seu gigantesco roteiro de cor (a única piada do filme é imaginar um episódio de Star Trek vindo de um roteiro de 400 páginas). Seu roteiro atrai a atenção de quem o lê, mas nem isso sua atenciosa cuidadora consegue fazer. A cuidadora, uma desperdiçada Toni Collette, comete um erro comum de convivência no dia a dia com pessoas que amamos, excepcionais ou não: dar atenção para o que menos importa. Ela é orgulhosa dos avanços na rotina de sua paciente, mas durante todo esse tempo foi incapaz de pesquisar o que é Star Trek.

Enquanto isso, a irmã vivida por Alice Eve é uma versão frustrante de uma pessoa comum incapaz de lidar com o fato de que sua caçula às vezes foge do controle, mas na maioria do tempo parece estar bem. O filme inadvertidamente acaba revelando a doença americana de enxergar doença em tudo que fuja de um padrão de comportamento aceitável. É uma bênção que não exista ainda um remédio a ser vendido para autismo, pois ele seria rapidamente topo dos prontuários médicos de autismo em todo aquele país, causando mais um problema crônico criado pelo TOC coletivo de não aceitar a não-individualidade alheia.

Em um momento ou dois do longa você será brindado com suas belíssimas músicas, cuja trilha sonora fui incapaz de encontrar. A trilha temática de fundo do brasileiro Heitor Pereira possui uma graça em sintetizar o humor convencional com a leveza da história e a repetição de padrões (não apenas no filme, mas no gênero). Sendo brincadeira ou não, funciona, e o espectador é levado a acreditar que ele também é autista. E se torna um autista impaciente em algum momento dos longuíssimos 93 minutos do filme. Só espero que nas sessões comerciais as pessoas tenham a decência de sair da sala em vez de começar uma gritaria e bater na própria cabeça.

O que torna o filme longuíssimo para o que ele se propõe é sua incapacidade de enxergar qualquer momento que se pareça verdaderiamente necessário. Tudo que acompanhamos de sua jornada não serve para acrescentar nada sobre a personagem de Fanning nem para levá-la a uma nova descoberta. Ela nem poderia, talvez, mas nós sim. No lugar de uma jornada o que vemos são apenas eventos — um roubo, um acidente — que vão se somando. Poderiam ser retirados do filme sem muito prejuízo da história. Poderiam fazer um website antes da produção para coletar eventos que seriam interessantes que acontecessem com a personagem. Um concurso de mini-texto. Quatrocentas palavras máximo, por favor.

Em outros momentos, os detalhes empregados tanto pelo diretor Ben Lewin quanto por Michael Golamco soam igualmente preguiçosos, seguindo a etiqueta do momento, o que em um filme que pode despertar alguma consciência social pelo autismo acaba soando cômodo demais nos detalhes periféricos. Dessa forma, a motorista de ônibus que começa levando Fanning para Los Angeles, onde ela deve entregar seu roteiro, é mulher e negra (pois é um sub-emprego), assim como o colega da moça no Cinnabon é um indiano. Porém, quando a motorista a enxota para fora no meio da estrada por ter um cachorro em mãos ela não pode ser mostrada, pois “pegaria mal”, inter racialmente falando. Mas se isso é desculpável em detalhes periféricos o que dizer dos centrais, como um policial que fala klingon a encontrar por acaso andando pela calçada e conhecer toda sua história? Isso só seria aceitável se Dakota Fanning em pessoa fosse autista, e mesmo assim ele pediria um autógrafo (em klingon).

Tudo que Quero como produção felizmente se beneficia de espectadores preguiçosos que possuem o dom de não investir muita atenção na sala de cinema. Ou no caso deste filme, até na sala de casa. Lançado nos EUA tanto no cinema quanto em streaming, ele já foi formatado praticamente para ser assistido enquanto se mexe no celular ou se conversa casualmente com as visitas. No final das contas o filme serve para seu propósito utilitário: uma trilha sonora bonita com alguns momentos que podem ser comentados sem sequer entender o que está acontecendo na história. A Netflix deveria pegar (mais) essa receita para seu caderninho de anotações.


“Please Stand By” (EUA, 2017), escrito por Michael Golamco, dirigido por Ben Lewin, com Dakota Fanning, Toni Collette, Alice Eve.


Trailer – Tudo que Quero

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