Três Verões | Regina Casé sustenta história já interessante

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Regina Casé é um colírio de interpretação para os olhos. A maneira com que ela torna a caseira Madá uma representante da brasilidade pobre da periferia do Rio de Janeiro convivendo com figurões de uma família de ricaços é o suficiente para sustentar Três Verões sozinha, do começo ao fim.

Porém, além de Casé, a direção de Sandra Kogut de um roteiro escrito por ela e Iana Cossoy Paro é hábil em entender que ela possui uma atriz de peso muito diferente para se concentrar apenas na visão sócio-econômica do Brasil entre os anos de 2015 a 2018. A premissa básica é:  observarmos o que acontece com essa família de ricos e sua casa à beira-mar conforme o pai de família é acusado e preso por crimes contra o patrimônio público, mas a sacada de mestre é observarmos tudo isso sob os olhos da simples, mas não ingênua, Madá.

Madalena é uma cria direta da personagem Val que Casé também interpretou em Que Horas Ela Volta?, um filme que lida com outras questões sob o ponto de vista da empregada doméstica de uma família de ricos de São Paulo. Curiosamente, o filme e a história são de 2015, e é como se Três Verões acompanhasse essa progressão nos anos seguintes do que é fazer parte da vida dos ricos neste novo período. Porém, Val é totalmente o oposto de Madá. Ambas são simples, mas Val é ingênua de fato, emigrante do Nordeste e grata eternamente aos patrões, mesmo que eles se desfaçam dela depois de uma vida de convívio ao surgir a menor das dificuldades.

Madá não é ingênua. Ela é empreendedora, com a visão que a vida lhe permitiu chegar. Ela tem o sonho de montar um quiosque ao lado da rodovia que chega no Rio de Janeiro, e quando o filme começa ela está arrumando um financiamento com seu patrão. Mal ela sabe que está sendo feita de laranja, e o filme tampouco se prende em explicar esses detalhes para o espectador, que anos e anos acompanhando a Operação Lava Jato já está careca de entender todo o linguajar e os procedimentos que os políticos corruptos usam para desviar a verba pública, que, como bem colocado pelo Senhor Lira (Rogério Fróes, ótimo), representante da geração anterior, um dinheiro que iria para hospitais e escolas. Mesmo que não fosse, é uma forma simples e visual de entendermos as implicações diretas da corrupção na população.

A beleza de Três Verões está em não parar a ação para explicar detalhes da trama, e focar mais na interpretação de Casé. Com isso o espectador se interessa muito mais pelo desenrolar da história que mexe com acontecimentos reais no Brasil, e que através das piadas sempre eficientes, naturais da personagem de Casé, desarma nosso senso crítico para entendermos melhor todo o contexto social em que o drama se desenvolve.

A única grande falha do filme é de fato se apaixonar por Casé e no terceiro ato criar uma cena que envolve uma equipe de filmagem na casa que captura o testemunho belíssimo de Maná sobre o seu passado. É um dos melhores momentos no cinema de Casé, digno de lágrimas e aplausos, mas ele foi inserido em uma cena descartável para a história, jogada sem se ligar ao que está acontecendo, e de maneira paradoxal soa artificial justamente pela gravidade dos acontecimentos narrados pela empregada. É uma pena um momento tão lindo ser inserido por isso, e não por fazer parte do próprio filme.

Ainda assim, Três Verões está muito acima da média dos melodramas que vemos por aí. É um filme autêntico, dirigido com a competência de quem sabe o que faz com sua atriz, que brilha quase que sozinha, mas que, considerando o gabarito de Casé para o papel, não há por quê fazer diferente.


“Três Verões” (Bra/Fra, 2019), escrito por Iana Cossoy Paro e Sandra Kogut, dirigido por Sandra Kogut, com Regina Casé, Rogério Fróes e Gisele Fróes.



Trailer do Filme – Três Verões

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