por Mariana González
10 de fevereiro de 2018

Em Três Anúncios Para um Crime, a busca por consolo se mistura ao desejo de vingança, e tudo isso ganha contornos estilizados nas mãos do diretor Martin McDonagh. Isso mostra-se a maior força do longa, mas, também, a fonte dos problemas e inconsistências que impedem que a obra torne-se tão grandiosa ou tão esperta quanto tem potencial para ser, principalmente ao considerarmos o belíssimo trabalho de France McDormand.

Há sete meses, a jovem Angela (Kathryn Newton) foi violentamente estuprada e assassinada em uma estrada deserta nos arredores de Ebbing, Missouri. Até agora, a polícia não fez avanço algum na busca pelo culpado, o que, obviamente, deixa a mãe da garota, Mildred (Frances McDormand) frustrada e com raiva — raiva esta direcionada principalmente ao chefe da polícia local, Willoughby (Woody Harrelson). Ao passar pela estrada próxima de onde a filha foi morta, Mildred repara em três outdoors abandonados — e, ao parar em frente ao segundo, que traz a imagem desbotada de uma criança, ela tem a ideia de alugá-los para passar uma mensagem à polícia e à cidade. Isso acaba afetando Ebbing como um todo, desde o policial Dixon (Sam Rockwell) até o responsável pela agência de publicidade da cidade, o jovem Red Welby (Caleb Landry Jones); além disso, o ato de Mildred desperta a ira de seu ex-marido, e pai de Angela, Charlie (John Hawkes).

Sem dúvida alguma, o centro de Três Anúncios Para um Crime e seu maior trunfo encontram-se em Frances McDormand, que dá vida a uma personagem marcante. Mildred é uma mulher difícil, dura e que, como alguém declara, parece “nunca ter uma palavra gentil para ninguém”. Isso é resultado não apenas da tragédia que destruiu a vida de sua filha e, por conseguinte, também a dela e a de seu filho adolescente, Robbie (Lucas Hedges); mas também de sua trajetória em uma cidade igualmente dura, onde parece não haver oportunidade para nenhum tipo de crescimento. McDormand abraça cada nuance de Mildred, fazendo com que sejamos capazes de ver toda a dor por trás do rosto fechado, todo o desespero que se esconde sob as palavras cruéis — o que, aliado ao senso de humor surpreendente (e, na maior parte das vezes, esperto e eficiente) do roteiro que também é assinado pelo diretor Martin McDonagh, faz com que a protagonista consiga despertar a simpatia do espectador. Sua fúria é, ao mesmo tempo, prisão e libertação — é por meio dela que Mildred encontra a força necessária para bater de frente contra os poderes que dominam Ebbing.

Enquanto isso, a atmosfera da cidade mostra-se importante também para compreendermos os demais personagens, já que, na visão de McDormand, eles operam dentro de um sistema praticamente inescapável. Temos, assim, o policial violento vivido por Sam Rockwell, Dixon — cuja tortura de um suspeito negro é conhecida (e, aparentemente, condenada) por todos, mas tratada como uma peculiaridade do caráter dele; será preciso muito mais para que o emprego de Dixon seja realmente colocado em risco. Quando o policial depara-se com alguns operários instalando os anúncios encomendados por Mildred, ele imediatamente assume uma postura de deboche e de ameça — um deles é latino e o outro, negro. E aqui começam os problemas de Três Anúncios Para um Crime.

É claro que ter personagens racistas (ou machistas, homofóbicos, etc.) não significa que o filme abrace esses preconceitos. Ao mesmo tempo, nenhuma obra tem, por si só, o dever, e nem precisa ter a pretensão, de querer discutir tudo quanto é assunto social. Entretanto, Três Anúncios Para um Crime levanta diversas temáticas de maneira casual, sem nenhum interesse de ir mais fundo ou de realmente dizer algo sobre aquilo — e isso é feito de uma forma despretensiosa e, consequentemente, pendendo para o aspecto cômico da obra.

Particularmente incômodo é o tratamento e caracterização de todas as mulheres que surgem na história, com exceção da própria Mildred. A única amiga da protagonista é sua colega de trabalho, Denise (Amanda Warren), que é negra — e que desaparece do longa após ser presa como forma de punir e provocar Mildred. É algo que parece completamente destoado da realidade que vivemos hoje.

Três Anúncios Para Um Crime Crítica

Enquanto isso, a nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving ), de 19 anos, é uma jovem patética cuja pouco perceptível inteligência surge como uma surpresa para as pessoas ao seu redor. Para piorar, Weaving parece ter sido dirigida a pausar ao final de cada frase para dar espaço para a audiência rir de suas frases “engraçadinhas”. E McDonagh não fez um trabalho melhor com Abbie Cornish, uma atriz talentosa que, aqui, constrói sua personagem por meio de um sotaque inconsistente (o sotaque australiano, natural da atriz, aparece o tempo todo, mas não com frequência o suficiente para que se estabelece como o natural também da personagem) e piscadas quase que ininterruptas. O vazio de sua performance torna-se ainda mais óbvio na cena que divide com Frances McDormand — que consegue dominar a cena sem dificuldades, mesmo que falando pouco.

Finalmente, Peter Dinklage recebe um papel ingrato, mas, pelo menos, participa de um momento que é o único em que o filme parece refletir sobre sua própria abordagem desses personagens. A “cereja no bolo” é uma briga entre Angela e Mildred, em que a jovem anuncia que “gostaria de ser estuprada e assassinada antes de sair de casa e… ser estuprada e assassinada”. O filme não parece ter absolutamente nada a dizer sobre isso, tornando o diálogo absurdo e ofensivo sem motivação alguma.

Woody Harrelson faz um bom trabalho, como de costume, mesmo que invista em um tom uniforme e um tanto raso nas cenas em que seu personagem lê uma série de cartas redigidas por ele para determinadas pessoas — e que representam alguns dos piores momentos do filme, que, aqui, entrega-se ao sentimentalismo despido do melodrama do restante da produção. Sam Rockwell, por sua vez, beneficia-se do fato de que seu personagem praticamente domina o segundo ato, ainda que Dixon esteja longe de ser tão complexo ou interessante quanto o longa acredita que ele é.

Enquanto diretor, McDonagh faz um belíssimo trabalho — gosto particularmente da maneira lenta e cuidadosa com que ele revela, aos poucos e em diferentes momentos, o que cada um dos anúncios de Mildred declara à cidade. Ao lado do diretor de fotografia, Ben Davis, o cineasta cria uma atmosfera opressora, sufocante, fria e violenta; um lugar propício para o estabelecimento de uma igreja cujo padre associa religiosidade a empatia (em uma cena que termina com um monólogo sensacional de Mildred), ou em que a população apoia o desejo de Mildred por justiça, mas não o fato de ela mesma colocar a mão na massa e ir atrás disso, ou seja, oferecem suporte na teoria, mas não na prática.

Assim, temos aqui uma obra repleta tanto de qualidades quanto de defeitos significativos — o que faz deste um filme bastante alinhado com as moralidades de seus próprios personagens. Mas, se as tentativas de Mildred e Dixon de alcançar a redenção estão fadadas ao fracasso, Três Anúncios Para um Crime é melhor do que a soma de suas partes, já que a força de seus pontos positivos faz com que, na maior parte do tempo, eles não sejam contaminados por seus problemas.


Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” (EUA/RU, 2017), escrito e dirigido por Martin McDonagh, com Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Kerry Condon, Abbie Cornish, John Hawkes , Amanda Warren, Kathryn Newton, Sandy Martin, Peter Dinklage, Clarke Peters e Malaya Rivera Drew.


Trailer – Três Anúncios Para Uma Crime

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