Todo Dia | Uma ideia interessante, mas que não consegue fugir da mesmice

Todo Dia Filme

Todo Dia possui uma premissa que não apenas é bastante original, como também traz a chance de incluir um elenco incrivelmente diversificado e de discutir questões como identidade de gênero e a fluidez da sexualidade — tudo isso enquanto traz em seu centro, ainda, um romance que foge da heteronormatividade dominante no mundo das adaptações young adult.

Ou, pelo menos, é isso que poderia acontecer e ele poderia fugir se seu maior problema não fosse o de, apesar de levantar discussões complexas, raramente ter o  interesse em ir mais fundo nelas.

Rhiannon (Angourie Rice) é uma garota doce e inteligente e, também, namorada de Justin (Justice Smith), que mal parece enxergar as qualidades da jovem ou o carinho que ela sente por ele. É por isso que, quando Justin a leva para passar um dia diferente e especial na praia, ela acredita que as coisas finalmente estão começando a mudar entre eles — o que a leva, por exemplo, a contar pela primeira vez ao garoto sobre a crise de pânico que o pai dela sofreu após perder o emprego e como isso alterou toda a dinâmica de sua família.

No dia seguinte, entretanto, tudo voltou a ser como antes. Até que uma garota misteriosa aparece e conta a Rhiannon a verdade sobre si: trata-se de uma criatura que acorda cada dia no corpo de uma pessoa diferente; desta vez, A, como é chamada, está no corpo da jovem conversando com Rhiannon; naquele dia atípico que a protagonista passou com o namorado, A habitava o corpo de Justin. As únicas regras são que A surge sempre no corpo de alguém com sua própria idade (atualmente, cerca de 16 ou 17 anos) e sempre em uma pessoa localizada na proximidade da pessoa do dia anterior.

Trata-se de uma ideia ambiciosa e diferenciada, que imediatamente demonstra que Todo Dia tem potencial para ir bastante além de um típico romance adolescente. Nesse sentido, o ponto que mais chama a atenção é o fato de que A pode acordar em qualquer corpo — meninos, meninas, jovens deficientes, com depressão, negros, brancos, asiáticos, altos, baixos, gordos, magros, ricos, pobres… Isso imediatamente traz diversidade tanto para o elenco quanto para o leque de personagens, já que A, a cada dia, precisa adaptar-se às realidades do corpo que habita.

Se em alguns dias A parte de onde estiver para buscar Rhiannon, em outros, ele é um garoto que não pode sair das vistas da mãe e, portanto, a garota precisa ir até ele. Conforme o longa avança, isso se intensifica. Passamos apenas apenas alguns minutos com A quando o corpo em que acorda é o de um jovem cego, mas, ao habitar o corpo de uma garota que sofre com uma profunda depressão e está decidida a cometer suicídio no dia seguinte, A depara-se com o desejo de mudar suas próprias regras para poder salvar a vida dela. E isso acontece não apenas por bondade ou altruísmo, mas pela empatia e pela compreensão que A sente pela garota após passar algumas horas conectado à mente doente dela.

Entretanto, quando o assunto é consentimento, o roteiro de Jesse Andrews, baseado no livro homônimo de David Levithan, mostra-se bem menos coeso . Ao descobrir que A estava no corpo de seu namorado, Rhiannon afirma que A aproveitou-se disso para agir sem o consentimento da garota, já que ela acreditava estar, por exemplo, fazendo confissões para e beijando seu próprio namorado, e não um desconhecido. Mas o outro lado da moeda jamais é sequer mencionado — A vai além dos beijos com Rhiannon por meio do corpo de outras pessoas (que não têm controle algum ou mesmo ciência do que está acontecendo e que, no dia seguinte, vão se lembrar apenas de pequenos flashes das 24 horas anteriores).

Todo Dia Crítica

O assunto só é discutido, e ainda assim de maneira bastante rasa, quando A encontra um corpo no qual ele se sente mais confortável (e com o qual Rhiannon também se sente mais confortável), chegando a passar alguns dias, e não apenas 24 horas, habitando o rapaz. A situação, é claro, não poderia continuar por muito tempo.

O que nos leva a outro ponto no qual Todo Dia pouco explora suas próprias possibilidades. Rhiannon realmente se apaixona por A e, portanto, não se importa muito com a aparência com a qual ele vai surgir… desde que seja em um corpo masculino. A hesitação do diretor Michael Sucsy de verdadeiramente retratar um romance que vai para além do gênero e da identidade revela-se claramente, por exemplo, quando A surge no corpo de uma garota que perde permissão antes de beijar Rhiannon — os rapazes que ele habita simplesmente beijam a amada. Um beijo casto é a única representação que foge da heteronormatividade a qual este filme tinha todas as chances de não se prender, mas insiste em fazê-lo.

Além disso, quando A surge no corpo de um garoto trans (e que é realmente retratado por um garoto trans — Ian Alexander —, algo ainda raro na indústria cinematográfica), o que se segue é um diálogo um tanto forçado entre o casal central, perdendo uma chance de conectar a experiência desse jovem com a de A.

Pelo menos, todos os atores e atrizes que retratam A mostram-se capazes de estabelecer a personalidade dessa pessoa — e seus sentimentos por Rhiannon — de maneira homogênea. Assim, apesar das circunstâncias fantásticas, os dois percorrem um arco romântico que demonstra a maneira coesa com que Todo Dia acompanha todas as versões de A e da forma com que Rhiannon reage a elas.

Angourie Rice (que já havia feito um bom trabalho como a filha de Ryan Gosling em Dois Caras Legais), por sua vez, se sai muito bem na missão de ser o centro ao redor do qual todas essas figuras gravitam. Por outro lado, isso tudo desanda a partir de uma sequência em que A imagina o futuro dos dois caso permaneçam juntos, e o filme jamais se recupera. Com isso, o final da história deixa a desejar por insistir justamente nas piores características da obra.

E é dessa forma que Todo Dia transcorre: apresentando conceitos fascinantes e ricos apenas para deixá-los de lado quando não forem mais convenientes para a trama e fazendo questão de destacar seus pontos mais genéricos. Isso torna-se ainda mais frustrante ao considerarmos a originalidade de A e de sua jornada, na qual os cineastas parecem ter medo de mergulhar.


“Every Day” (EUA, 2018), escrito por Jesse Andrews a partir do livro de David Levithan, dirigido por Michael Sucsy, com Angourie Rice, Justice Smith, Jeni Ross, Lucas Jade Zumann, Rory McDonald, Katie Douglas, Jacob Batalon, Ian Alexander, Colin Ford, Jake Sim, Nicole Law, Karena Evans, Owen Teague, Hannah Alissa Richardson, Maria Bello, Michael Cram, Debbie Ryan, Charles Vandervaart e Amanda Arcuri.


Trailer – Todo Dia

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