Tinta Bruta | Intenso como um soco no estômago seguido de um abraço apertado

Tinta Bruta Filme

Intenso. Essa é a palavra para descrever Tinta Bruta, novo filme dos diretores gaúchos Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. Tudo no longa vem da intensidade com que o protagonista sente, da intensidade dos acontecimentos ao longo da história, da intensidade que a vida coloca sobre nós. É um soco no estômago e um abraço apertado ao mesmo tempo, faz o espectador sair do cinema com a sensação de que algo ficou pelo caminho, mas com uma ponta de algo novo, um sentimento bom, de esperança.

Tinta Bruta é o segundo filme da dupla responsável por outra bela obra, Beira-mar, e conta a história de Pedro (Shico Menegat), um jovem com um passado recente um tanto quanto perturbador e que vê suas performances eróticas na webcam, sob o pseudônimo “GarotoNeon” (devido ao uso de tintas neon), como seu único propósito de vida. Pedro foi expulso da faculdade e aguarda julgamento pelo crime que causou a expulsão. Quando a irmã Luiza (Guega Peixoto) se muda para o outro lado do país, a vida de Pedro, que já era uma bagunça, piora ainda mais. Isso até que ele conhece Leo (Bruno Fernandes), outro garoto que também faz performances na webcam, também usando tinta neon.

O que começa como uma indignação por alguém ter roubado sua ideia, se transforma em amor quando Pedro encontra em Leo alguém que o compreende e que parece disposto a finalmente permanecer com ele, isso em um contexto onde todos que o protagonista ama, de uma forma ou de outra, o abandonaram. Mas um novo abandono coloca Pedro de volta à decadência e o filme acompanha a jornada do garoto em busca de felicidade.

Tinta Bruta coloca em destaque a solidão e a efemeridade das situações e relações, a fragilidade da vida. Nada é estático e nada é eterno. A ideia aparece por diversas vezes na história do filme, mas é, também, mimetizada na cidade de Porto Alegre, que tem um papel fundamental na projeção. As placas de aluga-se, o comentário da amiga de Leo sobre o fato da cidade estar afundando, as falas de Leo sobre como todo mundo quer deixar a cidade, tudo espelha o sentimento de insegurança que guia a vida de Pedro. Nada para ele é certo, e é por isso que ele se agarra à sensação de estabilidade que suas performances semanais lhe trazem.

Tinta Bruta Crítica

E é impossível falar do filme sem mencionar a estética escolhida pelos diretores. O filme é recheado de belas cenas com luz negra e tinta neon, acompanhadas por música eletrônica, enquanto Pedro dança em frente à webcam. O brilhante da tinta em planos predominantemente escuros é de encher os olhos. Outro destaque fica para as cenas de sexo, especialmente as de Pedro com Leo, que são gráficas, longas e sem trilha. A escolha por essa combinação de elementos traz uma realidade valiosa às cenas, que mostram os momentos em que o protagonista é o mais fiel a si mesmo do que nunca. É, também, uma lufada de ar fresco ver um casal gay em tela apenas sendo um casal, algo que também aparece em Las Herederas. Talvez isso seja uma tendência nessa Berlinale? Tomara que se espalhe.

O elenco também é uma grande qualidade do filme. Shico Menegat faz um protagonista contido, que diz muito apenas no olhar, os movimentos mais sutis são cheios de significado e ele faz as camadas do personagem, que tem uma violência interior mais forte do que se poderia prever, realistas e imprevisíveis. Bruno Fernandes, como Leo, traz uma reinterpretação de uma “Manic Pixie Dream Girl”, só que sem ser ¿girl¿ e com uma vida além de Pedro. Bruno é automaticamente simpático, é impossível não gostar do personagem desde seu primeiro momento em cena, e sua história acrescenta mais uma camada narrativa no filme que o completa muito bem.

Enfim, sinceramente, não tenho muita coisa de ruim para falar sobre Tinta Bruta. Alguns diálogos às vezes soam um tanto forçados para o tom realista que o filme assume majoritariamente, a relação de Pedro com a irmã não me ficou muito clara, mas nada disso compromete a experiência que é assistir Tinta Bruta.

E isso me faz pensa em uma das mais belas características do cinema, em como um filme é capaz de chegar no âmago da emoção e desencadear os mais profundos sentimentos em quem o assiste. Uma tarefa difícil, mas que Tinta Bruta realiza com a facilidade que só as obras feitas com o coração são capazes de fazer.

Acompanhe nossa cobertura da Berlinale


¿Tinta Bruta¿ (Bra, 2018), escrito e dirigido por Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, com Shico Menegat, Bruno Fernandes e Sandra Dani.


Trailer – Tinta Bruta

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