Thelma é uma gostosa revisita ao mundo do thriller de Carrie, a Estranha (o original de Brian de Palma, não o remake), que discute religião com um certo distanciamento e compreensão. Atualizado conforme manda o figurino, temos no pacote discussões sobre sexualidade, autoridade e gnosticismo. E em cima disso tudo um possível arcabouço crítico por cima da sociedade atual.

Isso é o que já é esperado do diretor Joachim Trier, que depois de seu drama esteticamente impecável de Mais Forte Que Bombas repete aqui uma formula graficamente semelhante em um mundo novamente pálido e sem vida, e onde o espectador é convidado a olhar novamente para velhas cenas do cotidiano.

De uma maneira semelhante, mas muito, muito mais sutil do que Darren Aronofsky em seu recente Mãe!, a discussão do sobrenatural encoberto de situações do mundo comum é uma bem-vinda revisita ao mundo do fantástico, que de uns tempos pra cá tem preferido o velho gênero trash do que o cuidadoso drama. Aqui Trier parece tentar o caminho do drama intimista, mas o filme simplesmente não consegue se conter.

Nos momentos mais calmos, porém, acompanhamos a história fascinante de Thelma (Eili Harboe), que carrega o título nas costas com a propriedade que este merece. Encoberta de simbolismos desde o começo, quando criança, o momento a sós com o pai em uma caça é revelador em várias camadas. Mas a que mais permanece é o mistério que serve de gancho para toda a narrativa.

Este gancho consegue discutir tanto a relação da filha com seus pais como com seus novos amigos na faculdade e sua mudança gradativa em relação à religião que foi criada. Essas discussões são abertas para o espectador, que ainda não tem todos os elementos para entender o que está acontecendo, e que por isso mesmo as questões levantadas na primeira metade de Thelma se tornam tão poderosas à medida que o longa avança. Criando expectativa em cima de expectativa com micro-acontecimentos no dia-a-dia da garota, o uso de todos os recursos visuais e sonoros para “criar o clima” é o tipo de recompensa que qualquer cinéfilo merece após ver tantas tentativas desajeitadas em criar tensão e medo onde não existe nenhum dos dois.

Note como os símbolos então vão se repetindo de uma maneira criativa e até certo ponto hermética. Porque apesar de insistir na questão do lago congelado, da piscina, das aves e do vidro, sugerindo fortemente a conexão entre dois mundos, a mensagem é aberta o suficiente para fazer perder seu próprio peso. Talvez seja um filme para revisita, mas ainda assim desconfio que ele tratá mais dúvidas do que respostas.

Thelma Crítica

O grande mistério por trás da personagem-título não deve ser aberto neste texto (afinal é um thriller!), mas ele também envolve todos os elementos já citados. Todos de uma vez. E cabe ao espectador saber encaixar os detalhes que o filme discorre ou arrisca e fazê-los ter sentido. Note como os roteiristas Trier e Eskil Vogt jogam pedaços de pseudo-informação para nos fazer pensar de maneira mais científica, ainda que estejamos falando de um outro patamar de conhecimento, inacessível a nós por premissa.

Tudo poderia ser simplesmente um thriller fantástico, mas ao lançar frases soltas como a dualidade onda/partícula o filme evoca nosso lado racional, tornando a experiência tão fria quanto a paleta de cores escolhida por Jakob Ihre, colaborador habitual do diretor.

O resultado disso se vê claramente no terceiro ato, que soa distante e não causa o impacto sugerido desde o seu início. Tentando se desvencilhar do clichê de efeitos visuais batidos ou momentos arriscados onde é necessário saber equilibrar o exagero do que se mostra, Thelma não desaba, mas se mantém mais do mesmo todo o momento, o que é decepcionante em sua própria forma.

Não que isso estrague o filme. Ele é esteticamente muito refinado para nos sentirmos roubados dentro de uma história ambiciosa o suficiente para nos prender na cadeira todo momento. A frustação é que simplesmente não há uma entrega além do que seria possível fazer, já que sempre impedindo que nossa mente viaje para cantos mais obscuros de nossa criatividade, essa visão asséptica de Trier para com seu material, se em Mais Forte que Bombas favorece um drama intimista, aqui cria distanciamento para com o drama da garota.

O que nos faz voltar novamente para a questão levantada no filme entre ciência e sobrenatural. Seria a ciência uma versão asséptica do próprio conhecimento? Estaríamos nós enclausurados deste lado do vidro (ou espelho), incapazes de enxergar o que há além? Essas questões são levemente arranhadas pelo filme, mas nunca conduzidas além disso. O máximo que passa são alguns fios de cabelo. E o outro lado, como visto em Thelma, também seria frio demais para que houvesse alguma novidade.


“Thelma” (Nor/Fra/Din/Sue, 2017), escrito por Joachim Trier, Eskil Vogt, dirigido por Joachim Trier, com Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen, Ellen Dorrit Petersen, Ludvig Algeback


Trailer – Thelma

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