por Mariana González
25 de janeiro de 2018

A trama de The Post: A Guerra Secreta concentra-se no início da década de 70, que é recriada aqui com perfeição. Entretanto, chega a ser assustador constatar o quanto a obra é, também, absurdamente relevante para a nossa própria época, em que o presidente dos Estados Unidos é obcecado com a forma com que sua imagem é retratada na mídia ao mesmo tempo em que proclama as supostas mentiras e perseguições que sofre por parte da imprensa e tenta espalhar suas próprias fake news. Podemos perceber isso como uma demostração da imensa força do quarto poder — força essa que domina cada segundo do magistral The Post.

Como se isso não bastasse, a obra ainda é um estudo complexo — e ainda extremamente atual — do machismo que domina a sociedade e nas dificuldades que uma autoridade feminina encontra em uma indústria formada majoritamente por homens. Afinal, Katharine Graham (Meryl Streep) é a primeira mulher a assumir a chefia de um grande jornal norte-americano — o Washington Post é o legado de sua família, mas o comando, que era de seu pai, só chegou a Kay depois que ela tornou-se viúva; o marido dela havia sido escolhido como editor do jornal mesmo não sendo um descendente de seus fundadores, já que esse era um caminho mais óbvio para a época do que colocar uma mulher no cargo. Em meio às dificuldades financeiras enfrentadas pelo Post, Kay e seu editor-chefe, Ben Bradlee (Tom Hanks), envolvem-se na luta pela liberdade de imprensa durante um período particularmente frágil do jornal.

Em 1965, no Vietnã, vemos o analista militar Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) carregando sua máquina de escrever de maneira quase exata à que os soldados levam suas armas. O simbolismo representa bem a maneira com que Steven Spielberg retrata a imprensa em The Post: como a última fronteira entre os crimes do governo e as necessidades do povo. Não é à toa que o roteiro é assinado por Josh Singer, co-roteirista de Spotlight: Segredos Relevados, com quem esta obra divide muitas de suas morais — aqui, Singer divide os créditos com Liz Hannah, estreando como roteirista de longas-metragens.

Mas voltando a Ellsberg, ao ver de perto a situação do exército norte-americano no Vietnã, fica desolado ao perceber que nada está melhorando, mesmo com cada vez mais investimentos por parte do governo. Ele decide, então, roubar os documentos que vieram a ser chamados de “Papéis do Pentágono” e que detalhavam as mentiras, omissões e atitudes clandestinas tomadas pelos Estados Unidos ao longo de mais de duas décadas em relação à guerra — além de provas concretas de que, apesar de continuarem investindo dinheiro no conflito e de mandarem mais homens para o combate, o governo sabia que a derrota era inevitável.

O primeiro jornal a ter acesso aos Papéis é o The New York Times. De início, Bradlee também quer colocar as mãos nos documentos para que o Post não fique para trás na corrida pela informação. Entretanto, a situação logo torna-se mais complexa quando a corte proíbe o NYT de continuar publicando reportagens sobre os Papéis. E agora, o mesmo vale para os demais jornais? O Washington Post pode publicar? Deve publicar? Para Bradlee, “a única maneira de afirmar o direito de publicar é publicando” — e ele disse isso quando o jornal foi proibido de cobrir o casamento da filha do presidente por causa de reportagens anteriores pouco simpáticas aos Nixon; nada comparado ao escândalo dos Papéis, mas ainda assim um exemplo de como a Casa Branca buscava moldar a narrativa por meio da omissão e do afastamento de repórteres dispostos a não entregar uma versão “pré-aprovada” da história.

Spielberg. Streep. Hanks. Esses nomes são os únicos a aparecer nos pôsteres de The Post ao lado do título do filme, o que nos leva a pensar: como que eles não haviam trabalhado juntos antes? Como é possível que Spielberg, a essa altura de sua carreira, tenha sido o primeiro a pensar na dupla brilhante que Meryl Streep e Tom Hanks formariam?

The Post Crítica

Quando os dois estão em cena juntos, eles incendeiam a tela — algo que acontece também graças aos diálogos espertos e memoráveis criados por Hannah e Singer. Pois apesar de retratar algo grandioso, o realizador centra a obra na relação entre Kay e Ben, que, além de ser puramente profissional, às vezes também apresenta tons de antagonismo — sem deixar de ser baseada em respeito e admiração mútuos. Ben jamais diminui Kay, mesmo que inconscientemente, por ser mulher; o conflito entre eles vem do fato de que ele preocupa-se apenas com a história, enquanto Kay ainda precisa enxergar o jornal como empresa.

Para melhorar, Streep e Hanks não funcionam apenas por serem dois gigantes do cinema trabalhando lado a lado pela primeira vez — aqui, eles fazem um trabalho verdadeiramente genial. Tom Hanks encarna todo o cinismo, paixão, inteligência e rebeldia de Bradlee, mas é a protagonista, Meryl Streep quem comanda o filme.

Streep Adota uma postura delicada, quase frágil, diante dos homens dominadores e confiantes que a cercam, sem jamais deixar que isso apague a força interior que Kay demonstra sutilmente possuir. Sua voz baixa, pausada e hesitante, é um contraponto perfeito às figuras masculinas, que agem como se o mundo precisasse ouvir tudo o que eles têm a dizer (vide a reunião em que cada palavra dita por Kay recebia atenção apenas quando um colega masculino falava a mesma coisa). E isso vai ainda além nas mãos de Spielberg.

Uma das melhores sacadas do diretor é a caminhada de Kay por meio de uma dúzia de secretárias, que encontram-se frente à porta que ela cruza para chegar à sala de reuniões onde é a única mulher — mais tarde, o momento é referenciado quando Kay sai do tribunal e, em meio à multidão, passa por diversas mulheres que a olham com admiração. É o contraste entre as ambições e desejos das mulheres da época e as oportunidades que eram disponibilizadas para elas, assim como uma demonstração de que era possível fugir disso e que um futuro mais livre poderia estar próximo.

E isso tudo fica claro, The Post é incrivelmente complexo na abordagem de seus temas, ainda mais por navegar pelas duas discussões centrais de maneira tão orgânica e bem estruturada. Isso acontece também porque Spielberg encontra-se bastante controlado na hora de imprimir emoções no filme — aqui, não há nada forçado ou exagerado; nenhum daqueles momentos em que sentimos que o cineasta, apesar de sua genialidade, foi um pouco longe demais na tentativa de engajar o espectador. Não — as cenas de maior tensão ou emoção aqui envolvem… tipos sendo trocados, jornais sendo impressos, manchetes sendo reveladas, pilhas de jornais sendo distribuídas. A imprensa, e tudo o que ela representa.

E olhem que nem falei do impecável design de produção comandado por Rick Carter, dos planos elegantes e desapressados de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski, da bela performance de Bob Odenkirk ou do empolgante plano final. Temos, aqui, um cineasta brilhante em sua melhor forma. Há muito a se admirar em The Post: A Guerra Secreta. E mais, em tempos como os que vivemos, obras desse calibre que enalteçam a importância da verdade e da transparência são fundamentais.


The Post” (EUA, 2017), escrito por Liz Hannah e Josh Singer, dirigido por Steven Spielberg, com Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Matthew Rhys, Sarah Paulson, Tracy Letts, Bradley Whitford, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross, Zach Woods e John Rue.


Trailer – The Post: Guerra Secreta

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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