Hollywood e o jornalismo sempre tiveram uma relação próxima. Seja para servir de pano de fundo para Cidadão Kane, seja para discutir a ética da profissão em Montanha dos Sete Abutres e Rede de Intrigas. Mas uma relação que também serviu como documentação histórica, tanto da queda de líder político, como em Todos Homens do Presidente, quanto agora esmiuçando uma rede de abusos infantis em Spotlight – Segredos Revelados.

A história não é segredo para ninguém (assim como a queda de Nixon não era), são os corredores desse labirinto de informações que servem de combustível para Spotlight. Em compensação, é o resultado disso que confere ao filme o selo de obrigatório, não só como retrato de uma situação chocante, mas também pela facilidade com que tudo é contado.

Bem diferente do clássico de 1976 de Alan J. Pakula, o filme de Tom McCarthy é menos intrincada e muito mais fácil de ser digerido (ainda que o assunto atrapalhe essa digestão). Spotlight então parece ser mais simples, mais transparente, mais suave enquanto vai em busca das peças que resultam nesse quebra-cabeça que em 2002 colocou nas páginas do Boston Globo os subterrâneos da cidade.

Uma história sobre uma incrível rede de corrupção que desviava os olhos, tanto da sociedade, quanto da imprensa, uma série enorme de abusos infantis infligidos por padres locais. Um assunto que ganhou ainda mais peso diante de uma conhecida ligação da cidade com a igreja católica, o que torna tudo ainda mais nojento e de embrulhar o estômago.

O roteiro de Josh Singer (que passou por séries como West Wing e Fringe) e MacCarthy (que, não se enganem, dirigiu Adam Sandler em Trocando os Pés, mas antes disso foi responsável por incríveis filmes como O Visitante e O Agente da Estação) está interessado não só no desenho que irá se formar, mas mais do que isso em cada peça desse mosaico. Cada informação, crise e surpresa que essas equipe de investigação do jornal encontra.

Mas isso não de um jeito frenético como o que Pakula infla seu Todos Homens do Presidente, mas sim, calmo, valorizando cada cena e dando tempo para que o cenário maior vá se formado aos poucos na cabeça do espectador. Cada número de supostos padres que aumenta, cada nova vítima, cada beco sem saída, tudo é usado como um pequeno climax dentro da trama. Um filme que não permite que, no escuro dos cinemas, as pessoas sejam acachapadas pela quantidade de informação, mas sim espremidas aos poucos pelo cenário que se forma.

Spotlight - Segredos Revelados Crítica

E grande parte desse acerto vem junto de um elenco incrível e que enche o filme de uma credibilidade enorme. Michael Keaton, ainda que em um evidente piloto automático, mostra o quanto Birdman fez bem para sua carreira, e acaba fazendo um trabalho acima da média, assim como Rachel McAdams (que também vem de um momento de mudança em sua carreira com a serie True Detectives), que tem poucos momentos onde pode valorizar seu papel, mas quando o tem aproveita bem. Bem o contrário do Mike Rezendes de Mark Ruffalo, que não perde um estante sequer para emplacar uma das grandes atuações de sua carreira.

Ruffalo aposta na sutileza, na mão no bolso que comprime o personagem, no olhar meio reticente de baixo pra cima e em uma expressão que parece fragilizar seu personagem, ao mesmo tempo em que o transforma em alguém com uma sede por informação que o empurra em direção à notícia. É daí que nasce um personagem complexo em seus meandros, mas que soa à flor da pele, visceral, humano em cada pergunta e situação que dá de cara. É de Ruffalo a responsabilidade de protagonizar o único momento de raiva de Spotlight, deixando assim não só que seu personagem extravase, mas também que o espectador, junto dele, possa colocar para fora a dor das feridas que foram se abrindo.

Uma dor purulenta e infeccionada por um assunto delicado e que aos poucos vai se tornando muito maior do que qualquer um gostaria que fosse. Boston então se torna apenas a porta de entrada de um cenário tão maior que é impossível não acabar de ver Spotlight sentindo como se uma mão estivesse apertando suas entranhas. Um assunto que, bem diferente de alguns de seus “primos cinematográficos” não encontra espaço para discutir a ética e a moral da profissão, nem seus abusos, mas que o torna obrigatório para qualquer um que queira entender um pouco mais daquilo tudo que fica escondido por trás das cortinas de um mundo muito maior do que todos possam imaginar.


“Spotlight” (EUA, 2015), escrito por Josh Singer e Tom McCarthy, dirigido por Tom McCarthy, com Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian d´Arcy James e Stanley Tucci


Trailer – Spotlight – Segredos Relevados

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