SP: Crônica de Uma Cidade Real | Em busca da violência paulistana

SP: Crônica de Uma Cidade Real Filme

Um cenário cinematográfico não é feito apenas de filmes que buscam o respeito intelectual (leia aqui “indicação ao Oscar”) e comédias com o Leandro Hassum (ou algum genérico dele). É preciso preencher o espaço entre esses dois extremos. Na maioria dos lugares o “cinema de gênero” faz boa parte desse trabalho, SP: Crônicas de Uma Cidade Real parece ter total entendimento desse quadro e, pelo menos, faz o esforço para ocupar esse espaço.

Isso não exime o filme de alguns dos seus vários problemas, mas também lembra que qualquer análise precisa levar em conta a importância desse tipo de investida. É preciso valorizar SP… assim como Leandro Hassum e suas “comédias”. É o mosaico de todas essas peças que formam o cinema de um país tão grande quanto o Brasil.

SP… então, aponta suas armas para cinco histórias cercadas de violência e que têm a capital paulista como pano de fundo. Talvez não só a cidade, mas seus habitantes e jeitos peculiares de serem paulistanos.

De acordo com a abertura, cada cidadão pode viver uma crônica, ou até já estar vivendo. E (já me desculpando pelo trocadilho), ai reside, justamente, o problema mais crônico do filme dirigido por Elder Fraga.

Ainda que a intenção seja a de retratar São Paulo como uma capital urbana, violenta e prestes a explodir entre um plano de um grupo de policiais em busca de retaliação, um pai levando sua vingança até as últimas consequências (na verdade dois) e mais alguns tipos igualmente violentos, SP… esquece de estar em São Paulo e de ser aquele depósito de crônicas que se aproximem do urbano paulistano.

Todas as cinco histórias acontecem em São Paulo, porque o título do filme nos diz isso, já que são universais demais para conseguirem se aproximar das ruas, vielas e prédios da cidade. SP… poderia ter sido filmado em Carapicuíba, Belém ou Sidney e não faria diferença alguma. É lógico que todo mundo sabe que em Hollywood, Chicago (por exemplo) pode ser Vancouver, Nova Zelândia ou até São Paulo, a diferença é a criação da ilusão.

Em SP… nada parece construído para parecer estar em São Paulo, mesmo, muito provavelmente estando. Esqueça o rap na trilha sonora e as extensas (e repetitivas demais até) filmagens com drone e o que sobra é um visual genérico demais.

SP: Crônica de Uma Cidade Real Crítica

Pior ainda, nenhuma das cinco crônicas mergulha em São Paulo de cabeça, o que não tira a qualidade de nenhuma delas, mas simplesmente se deixam parecem estar em qualquer ponto do globo.

E por mais que isso atrapalhe a imersão de quem espera algo mais paulista, o resto que Elder Fraga entrega acaba empolgando mais do que chateando. Com as cinco histórias cumprindo seus papeis de serem pequenas histórias violentas e viscerais Fraga ainda consegue imprimir uma visual interessante em todas elas, se saindo ainda melhor enquanto cola a imagem na ação e não quando sai por ai gastando dinheiro com drones. Quanto mais se aproxima dos personagens, mais valoriza as boas atuações e melhor consegue chegar a um imediatismo violento que combina melhor com suas pretensões modernas. Principalmente no uso de pequenas câmeras dentro de armários, colada em seus atores e até dentro de algumas privadas, ideias que deixariam a produção da série Breaking Bad orgulhosa de sua óbvia influência.

Curiosamente, mesmo cheio de ação, tiros e sangue, seu melhor momento acontece em um balcão de bar com um diálogo que dura alguns minutos e uma surpresa que faz valer a ideia de SP… de ser um filme urbano. Talvez essa predileção venha, justamente, da aproximação desse episódio com a rua, com o bar de esquina no subúrbio, com o bandido paulistano clássico e com um tipo de violência que aproxima a história de seus espectadores.

Para a conta ficam os problemas e os acertos, mas mais do que isso, em SP: Crônicas de Uma Cidade Real fica a certeza de que o cinema do Brasil precisa do Hassum e do intelectual (sim, um em oposição ao outro!), mas também precisa preencher esse meio todo com um cinema que tem pretensões de divertir o público que entra no cinema só em busca de um pouco de ação policial.

Texto faz parte da cobertura do Santos Film Fest 2018


“SP: Crônicas de Uma Cidade Real” (Bra, 2018), escrito por Leonardo Granado, James Salinas e Sérgio Minehira, dirigido por Elder Fraga, com Luciano Chirolli, Júlia Rocha, Rubéns Caribé, Rui Ricardo Diaz, Ricardo Gelli, Nicolas Trevijano, Carlos Morelli, Gustavo Haddad, Camila dos Anjos, Patrícia Vilela e Alexandre Barros


Trailer – SP: Crónicas de Uma Cidade Real

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