por Vinicius Carlos Vieira
16 de março de 2018 |

Existe um mecanismo. Primeiro um diretor consegue emplacar uma obra que faça seu nome ser notado. Em um segundo momento, um estúdio (ou alguém com muito dinheiro), puxa esse diretor para perto de si para um filme maior do que tudo que ele fez. O projeto talvez não faça tanto sucesso, ou até faça, o importante é que coloca o nome o diretor “na roda”. Em um terceiro momento, esse diretor emplaca outro projeto, mas como o anterior foi aquém de suas capacidades, qualquer coisa passa. Em um quarto passo, mesmo sem a mesma qualidade do começo da carreira, esse diretor consegue emplacar outra obra que o faz ser notado mais uma vez por um estúdio. Um ciclo vicioso que quase nunca visa a qualidade, mas sim o lucro que aquela parceria cria.

Parece complicado, e é. Talvez nem sei se isso faz algum sentido, mas o que importa é que parece fazer e você, ávido por entender um cenário maior, abraçou isso como se fizesse sentido. É como aquele power point do Dallagnol que apontava um monte de setas para o Lula, não precisava fazer sentido, mas sim passar a impressão de que fazia.

O Mecanismo, nova série da Netflix que vem com o selo de José Padilha (Tropa de Elite”) faz a mesma coisa. Cria uma situação complexa para contar uma história complexa, a da Operação Lava Jato (que pelo português correto deveria ser chamar “Lava a Jato”), mas sem o amadorismo de Polícia Federal – A Lei É Para Todos, que parecia muito mais preocupado em dar uma carteirada ideológica, do que seguir seu roteiro.

Portanto, logo de cara, é curioso o quanto o filme parece tão preocupado em contar a história do jeito mais real possível e falha por tomar um lado, enquanto a série de Padilha toma um rumo ficcional e começa muito bem, tomando suas devidas licenças poéticas e conseguindo manter o interesse. Mas acaba caindo no mesmo buraco.

A série inteira é escrita por Elena Soarez, que tem uma grande experiência na TV em um monte de outras séries como Cidade dos Homens, Antônia e Filhos do Carnaval, assim como em filmes como Redentor, Xingu e A Busca. Padilha deve aparecer apenas como um showrunner, comandando tudo por trás e dirigindo o primeiro episódio. Portanto, sim, a culpa é dele.

E essa culpa começa por permitir que O Mecanismo seja uma série visualmente desinteressante e que não consegue, nem manter a empolgação episódica, muito menos ser encarada como uma obra fechada de oitos horas. Seu roteiro não é nem sincero com seu espectador e muito menos lida bem a inteligência deles.

O Mecanismo Crítica

A começar pela ausência de Selton Mello em alguns capítulos, fingindo a morte do personagem e não enganando ninguém, afinal, ele estampava todo material de divulgação da série, e isso deixava claro que ele não faria só um episódio. E enquanto Mello está em cena, a série ganha a oportunidade de ter um herói para acompanhar, alguém que realmente está lutando contra um sistema corrupto, um cara falho, cheio de problemas e que vê nessa luta a única possibilidade de encontrar um significado para sua vida.

Mello é Ruffo, narra o primeiro episódio com a mesma verborragia do Capitão Nascimento e ganha o interesse do público. É ele quem tem um conflito pessoal com o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) e cria essa dinâmica mocinho/bandido que funciona bem, já que ambos são incríveis atores (mesmo que Diaz dê um banho em qualquer um e encare mais uma vez um sujeitinho nojento, mas com uma classe incrível) e transitam em uma tonalidade de cinza que não deixa que tudo seja maniqueísta e simplório. Bem diferente do resto da série.

E talvez estejamos falando de Selton Mello e não de Wagner Moura que cairia como uma luva no papel e seguiria sua parceria com Padilha, justamente por isso, ainda que nunca iremos saber se isso é verdade ou não. Mas talvez Padilha não esteja interessado nesse tipo de verdade.

É lógico que para criar uma história menos burocrática e com um pouco mais de interesse, ao mesmo tempo em que todos os oitos episódios te lembram de que, mesmo aquilo sendo baseado em um acontecimento real, existem certas liberdades ficcionais para tornar tudo mais atrativo, a impressão que fica é de um completo descontrole de suas pretensões. Enquanto “O Mecanismo” acompanha essa investigação da equipe comandada por Verena (Carolina Abras) e o trabalho complicado e burocrático de tentar quebrar um sistema corrupto através dessa linha solta criada pela prisão de Ibrahim, tudo vai bem. Mas Padilha parece querer mais.

O Mecanismo Crítica

Enquanto se permite ser ficcional, mesmo que você reconheça o “tal doleiro”, o “tal juiz”, o “tal diretor da tal Petrobrasil” e mais um monte de gente envolvida na investigação, tudo vai bem. Uma lista que vai se enchendo de empreiteiros e gente com muito dinheiro que parecia não estar ligando para nada, já que o dinheiro falava mais alto. E o conflito de interesses começa a despertar nesse momento. É incoerente ter esse cuidado enorme de não citar os nomes corretos, enquanto continua chamando a operação de Lava Jato. E para que ter um baita trabalho de criar a “Polícia Federativa”, se nas narrações só se referem a ela como “Policia Federal” mesmo?

Enfim, parece faltar esmero. Principalmente levando em conta que, antes disso, todo mundo viu o nome de Padilha relacionado a espetacularmente cuidadosa “Narcos” (com Wagner Moura). E esse desleixo se mistura ainda com alguns trabalhos de direção preguiçosos e mais burocráticos que um monte de papel na mesa de um juiz.

Padilha dirige o primeiro dos episódios, enquanto Daniel Rezende (de Bingo), salva um pouco da série nos últimos dois capítulos. É de Rezende os dois únicos momentos plasticamente interessantes da série, em um plano sem cortes que fecha a temporada e no modo como ele encara o gabinete da Procuradoria Geral da República, distante e emoldurada por uma porta. No resto do tempo, Marcos e Felipe Prado fazem só um arroz com feijão que não chama a atenção. E como na mágica, quando você não faz seu público olhar para o outro lado, todo mundo olhará para o truque.

O truque de Padilha era imprimir em O Mecanismo o sentimento caótico e quase anárquico que ele vem adotando de uns tempos para cá cada vez que abre a boca para falar de algo que não seja cinema. E como muita gente diz (inclusive eu), quem está reclama de tudo, na verdade não reclama de nada.

Padilha e seu O Mecanismo tentam agredir figuras políticas de modo irresponsável, desembestado e perigoso. Resvalar na figura do “tal ex-presidente Luíz Higino” e na “tal presidenta Janete Roscov” é divertido, e seria quase um easter egg, mas cada vez que os coloca na tela é para criar uma persona criminosa e corrupta. Não que não sejam, mas se apoderar de um discurso real feito por alguém com intenções completamente diferentes das que o “tal Luíz Higino” tem, é algo que beira o mau-caratismo narrativo. E isso fica pior ainda quando “enfia goela abaixo” uma figura lustrada de um candidato da oposição e cria uma caricatura violenta e descabida, chegando a colocá-lo em um momento íntimo com um “tal vice-presidente” tramando um golpe.

É lógico que estamos falando de Lula, Dilma, Aécio e Temer, fingir que não são eles e com isso permitir que qualquer discurso se encaixe em suas personalidades ficcionais é o mesmo que ofender a inteligência de seu público. E isso fica mais descabido ainda na presença dos dois últimos que nem precisariam estar na história se não citados em uma conversa ou de relance em algum programa de televisão. Desviar o foco narrativo da série para as cenas onde eles estão sozinhos e sem a presença de nenhum dos protagonistas, demonstra uma incompetência enorme.

O Mecanismo Crítica

Falta para O Mecanismo ser sutil e entender que se o “tal juiz Rigo” vai trabalhar de bicicleta isso precisa “dizer” algo, ou senão, o espectador vai descobrir que, assim como em A Lei É Para Todos, na “melhor das intenções” de desenvolver seus personagens, apenas se acumula uma pilha de clichês.

Existe um momento lá para o final da série que o personagem de Selton Mello precisa lidar com um problema no esgoto em frente a sua casa, uma água suja que só começa a tomar sua casa naquele momento, algo que poderia acompanhar o personagem e a história de O Mecanismo desde seus primeiros episódios, já que a intenção ai seria, através da ficção, mostrar o quanto tudo está apodrecido por baixo dos nossos pés.

Não existe jeito melhor de criticar uma sociedade ou uma situação do que com a ficção pura e simples. Sujar os pés de seus personagens com esse esgoto seria perfeito como metáfora de algo muito maior. Assim como seria o estopim para que Ruffo descobrisse o seu papel no mundo e desvendasse o “tal mecanismo”.

Ao invés disso, Padilha, prefere a agressão gratuita e a caricatura. Prefere reescrever uma realidade que já é podre o suficiente, sem perceber que, na verdade, está apenas corroborando com um conflito vazio e maniqueísta que toma conta de ambos discursos ideológicos. Padilha liga sua metralhadora e atira para todos os lados sem acertar em ninguém, aparentemente sem ter aprendido que para nesse tipo de ação é preciso estratégia, do grego strateegia, do latim strategi, em francês strátégia…


“O Mecanismo” (Bra, 2018), escrito por Elena Soarez e José Padilha, dirigido por José Padilha, Daniel Rezende, Marcos Padro e Felipe Prado, com Selton Mello, Carolina Abras, Enrique Diaz, Antonio Saboia, Leonardo Medeiros, Jonatgan Haagensen, Otto Jr., Emilio Orciollo Netto e Helena Rinaldi.


 

Outros artigos interessantes:

2 Respostas

  1. Eu mesmo - el carregador de pianos

    Eu gostei….achei bem feita e alguns pontos parecem colocados pra poder “bater em todos” como colocar o Aecio, o temer, o lula e a dilma….os dois ultimos realmente sao mto mais bonitos e bem montados q o resto. Mas no geral, gostei.

    Ps. O nome do ator que faz o Ibrahim é Enrique Diaz, não Roberto Diaz.
    Lava a jato não tem crase.

    Responder
    • Vinicius Carlos Vieira

      Valeu “eu mesmo”… corrigindo nesse momento. Muito obrigado pelos toques… abraços!

      Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.