Em português, “endurance” pode ser traduzido como “persistência”, mas talvez seja apenas em sua língua materna que o termo passe a ter o peso que casa perfeitamente com o título do documentário Sepultura Endurance. Em inglês, “endurance” diz respeito ao poder de perdurar em um processo apesar da dificuldade. Mas mais importante que tudo, sem nunca desistir.

E se algo pode resumir todo caminho dessa banda mineira é exatamente isso. Saindo de Belo Horizonte e literalmente dominando o mundo. Sim, como um bom brasileiro “cabrestado” por uma mídia com seus interesses, você está fora do “mundo do rock” e pode até achar isso um exagero, mas acredite, poucas bandas chegaram na posição e respeito que o Sepultura chegou. Tanto em termos de tamanho, quanto, mais importante ainda, em termos de respeito, legado e influência.

Portanto, se o documentário dirigido por Otávio Juliano consegue mostrar isso, é tanto graças ao interessante trabalho do cineasta, quanto do tamanho da banda. Juliano sabe disso, e logo joga isso na cara de todos ao colocar “lendas” do gênero como Lars Ulrich (Metallica), Phill Anselmo (Pantera) e Corey Taylor (Slipknot) declarando sua admiração pelo Sepultura. Se é preciso criar algum tipo de autoridade para as estrelas do filme, em menos de cinco minutos de filme isso já está escrito em pedra (ou em “metal”).

Curiosamente, ver Taylor falando sobre o Sepultura desperta uma pontinha de incômodo, já que não existir sequer um acorde do Slipknot se não fosse a existência do Sepultura. E mais curiosamente ainda enquanto eles ainda estavam engatinhando e nascendo e nos primeiro ensaios, a banda mineira já estava lançando o que talvez sejam dois dos maiores divisores de águas do gênero (e até da música) mundial: “Chaos A. D.” e “Roots”.

E de modo hábil, Otávio circunda exatamente isso. Em um primeiro momento vai com a banda em 1995 até a tribo Itsári enquanto gravavam “Roots”, ao mesmo tempo que passa pela gravação de “Kairus”, primeiro sem a presença do baterista Igor Cavallera. Enquanto viaja com os integrantes em uma turnê pela America da Norte, o diretor tenta encontrar a voz de cada integrante. Em uma montagem firme e eficiente, “Endurance” passa um pouco desse sentimento de “estar na estrada”, mas por outro lado, não tira os olhos e não corta enquanto observa, quase melancólico, o que talvez seja o primeiro indício da saída do baterista Jean Dolabella (que substituiu Igor).

Mas talvez ai esteja uma das principais armas do filme, mostrar o quanto a banda está preparada para qualquer que seja o obstáculo. Endurance olha nos olhos de cada um dos integrantes e vê isso, essa vontade superior de continuar a qualquer custo. Para entender melhor ainda isso, o filme aceita se tornar mais linear, documental e histórico, viaja até Belo Horizonte no meio dos anos 80 e passa a contar a história da banda, detalhe por detalhe.

Felizmente, o começo robusto e ágil quando dá lugar a algo mais comum não deixa a força do documentário ir embora, pelo contrário até. Entender como aqueles caras saíram da capital mineira e conquistaram o mundo a cada acorde é um deleita para os fãs e deve ser uma deliciosa série de descobertas para quem não conhece a história da banda. E lógico, essa história precisa passar por sua rachadura com a saída de Max Cavallera.

Sepultura Endurance Crítica

Otávio, provavelmente movido tanto pelo posicionamento da banda, quanto pela decisão dos irmãos Cavallera de não darem entrevistas para o filme (a até proibirem algumas reproduções de algumas musicas), não faz da saída de Max um acontecimento que move o filme e nem uma crise dentro da banda, não seguindo a fórmula Some Kind of Monster. O diretor segue aquilo que a banda parece fazer de modo incrivelmente maduro, conversa sobre o assunto, mas deixa aquela impressão de “Ok, cada um toma a decisão que quiser e a nossa é seguir em frente”.

Nem por um segundo sequer ninguém ali parece preso ao passado nem a qualquer tipo de mágoa, uma sensatez e equilíbrio que mostra exatamente porque a banda, depois de 14 discos, consegue manter a qualidade e a vontade de inovar dentro de um gênero que não é conhecido por tentar se reinventar.

E talvez por isso o Sepultura é visto com olhos de mito da música por seus semelhantes, pela força com que enfrentou todas dificuldades e por como sempre saiu disso renovado, novo e mais pesado.

No entanto, é impossível não pensar a respeito do quanto esse quatro são estrelas do rock mundial, reconhecidos no meio, respeitados e copiados, mas ao mesmo tempo são humanos (principalmente diante do que se vê por ai no resto dos “rockstars”). São apontados por Scott Ian (Anthrax) como “o apocalipse em forma de música”, mas ao mesmo tempo estão lá discutindo penelas, queijo e tomate enquanto cozinham durante a gravação de seu mais novo disco.

E nesse momento o que Endurance faz com Paulo Xisto (baixista) e Andreas Kisser (guitarrista) é aquilo que faz o filme mais valer a pena. A deliciosa descoberta que depois de tudo que aconteceu, alto e baixos é essa união, essa necessidade de se encaixarem como uma família mais que como só uma banda. Apesar de qualquer dificuldade é essa teimosia em continuar sendo aqueles garotos de belo horizonte, cheios de energia e sonhos que fazem o Sepultura ser uma das maiores bandas do mundo.


“Sepultura Endurance” (Bra, 2017), escrito e dirigido por Otávio Juliano


Trailer – Sepultura Endurance

o crítico foi na pré-estreia à convite do Cine Roxy
Cine Roxy

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