De acordo com a mitologia grega o Titã Prometeu foi quem criou a humanidade a partir do barro, mas acabou roubando o fogo dos Deuses e dando nas mãos dos homens (terminou amarrado em uma pedra com uma águia arrancando suas tripas). Por isso mesmo, na cultura ocidental ele se tornou sinônimo da busca sem limites pelo conhecimento que quase sempre dá em tragédia. Ridley Scott criou um mito, mas trinta e poucos anos depois acabou preso a uma pedra com suas tripas para fora ao tentar completar sua própria obra-de-arte (o que não deixa de ser uma imagem plasticamente interessante).

Prometheus, novo filme de Scott e que serve como uma espécie de “prequel” para seu clássico Alien (por mais que durante toda produção isso tentasse ser negado), é, inegavelmente, uma ficção-científica mais que competente e interessante, mas em sua própria busca por respostas acaba escorregando em sua arrogância.

Acreditar que poderia responder todas perguntas propostas de modo sensacional na primeira metade de Prometheus e ainda ligar aquilo à chegada da Nostromo (nave onde acontece a ação de Alien) naquele mesmo planeta alguns anos depois seria no mínimo pretensioso, e por um segundo, o cinema inteiro vai acabar achando que isso vai acontecer, até o filme terminar e se perceber que a única coisa que você realmente descobriu é de onde veio o Alien. E pior ainda, claramente deixando um número enorme de possibilidades para que o próprio filme ganhe uma sequência (o que soa até ofensivo perto da genialidade do final do “8° Passageiro).

Não que o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindlof (esse último, um dos responsáveis pelos mistérios da série Lost) engane qualquer um, muito pelo contrário, até propõe essa trama existencial, provoca o espectador com todas aquelas questões interiores que movem a humanidade (quem sou, para onde vou e de onde vim) e, por fim, respondem a todas, mas, simplesmente, ao preço de colocar mais uma camada de outras em seu lugar.

É, justamente, para tentar descobrir essas respostas que os arqueólogos/exploradores vividos por Noomi Raplace (a Lisbeth Salander do Millenium original) e Logan Marshall-Green (que recentemente esteve em Demônio) embarcam nessa nave, batizada com o mesmo nome do titã, em busca de um certo planeta (na verdade um conjunto deles que os leva até uma de suas luas) que aparece em, desde pinturas rupestres, até civilizações mais modernas. Mas ao chegarem lá acabam descobrindo que todas essas respostas tem um custo.

E se até mesmo o casal, com motivações claras, em certo momento parece tomar decisões difíceis de entender, o resto da lotada tripulação da Prometheus acaba sendo um show de surpresas (acreditar que o biólogo fosse brincar com uma serpente alienígena saída de um caldo negro é completamente ingênuo e idiota), e isso se torna um empecilho enorme para que o espectador se mova com eles. Principalmente nessa parte final, já que é difícil se preocupar com algum deles, qualquer seja o tamanho de seu papel.

Na ponta do elenco ainda estão Charlize Theron como uma espécie de executiva da poderosa corporação Weyland (aquela mesma que queria o Alien, vulgo Xenomorfo, como arma a todo custo) e responsável pela missão, Michael Fassabender o androide David e Idris Elba o capitão da nave. O resto do elenco parece fadado ao fim, já que é impossível achar que algum deles vai sobreviver. O problema é que, ainda assim, nenhum deles morre nem ao menos de uma forma digna de constar na mitologia da história.

Isso acontece (como eu já disse) pelo trabalho afinado do começo do filme que cria muitas expectativas e quase nenhuma delas é correspondida.

Prometheus Filme

Um início onde Scott não se prende ao seu filme de 1979, e nem ao menos mostra sua nave vazia, já que durante toda a sequência o espectador é convidado a conhecer esse androide (e talvez o único personagem realmente interessante e dinâmico do filme) vagando pelos corredores (mostrando para uma certa “Ripley Alien” como se joga basquete em referência ao quarto filme da série), “escutando” os sonhos da tripulação em animação suspensa (assim como, de modo sensível, faz o mesmo com um dos chamados “engenheiros”) e tentando ser “mais humano” como Peter O´toole e seu Lawrence das Arábias. Tudo isso para que, ao andamento do filme, ele seja o único com um objeto interessante e que foge da bidimensionalidade do resto da tripulação. Um rumo que pode parecer o de ajudar os humanos (e ainda uma segunda diretriz que só mais tarde é mostrada), mas na verdade acaba sendo uma busca, até pessoal, por entender o que leva o humano a se indagar sobre essas questões (como na conversa que tem com um dos personagens em uma mesa de sinuca) e até em tentar entender qual a razão de acreditar em algo maior.

E como são suas ações e decisões que acabam movendo (mesmo que de modo velado) toda tripulação da Prometheus ao final desastrosamente iminente, Scott então permite que, mais uma vez um ser artificial (assim como o Ian Holm e seu Ash no primeiro filme) acabe ditando o futuro daquelas pessoas. Só que agora (Spoiler!!!) além dos desejos do próprio Weyland (que para Ash aparecia na forma da companhia em si), vivido por Guy Pearce por baixo de uma maquiagem pouco natural, David parece à procura de um modo de preencher o vazio que ele aparenta viver, mesmo que isso surja apenas como reflexo da curiosidade e de uma certa fome de conhecimento (e que, de modo sensacional e talvez umas das ideias mais bacanas do filme, dê origem ao famoso Xenomorfo).

E é enquanto se olha para esse David que o espectador vai acabar colocando em prova as soluções para os outros personagens, já que, não em poucos casos, parecem pairar demais entre o esperado e a completa imbecilização (algo que só ocorre, também, pelo preparo com que tudo isso é registrado na primeira parte do filme). É difícil entender a razão de certo mistério por trás da ótima interpretação de Idris Elba, já que, no final das contas, ele acaba seguindo um roteiro completamente óbvio. Assim como certas decisões da personagem de Theron, no final de tudo, pouco combinam com a subjetividade com que ela toma o personagem durante todo tempo. Como se ficasse a todo tempo em uma corda bamba vilanesca, mas que, para alinhavar a trama acabe sendo movida por sentimentos retos demais (o que ainda lhe guarda um final um tanto quanto preguiçoso e aquém do esforço da personagem).

Mas talvez o que mais incomode seja o arco da protagonista Elizabeth Shaw (Rapace), sendo difícil demais entender no que ela realmente acredita, já que engole com facilidade toda teoria dos “astronautas antigos” ao mesmo tempo em que se arrasta por uma religiosidade exacerbada. Um contraste que parece não caber com facilidade dentro de uma cientista sem que suas ações se tornem esquizofrênicas (ou no mínimo contraditórias). Pior ainda, diante disso, é impossível achar que qualquer resposta ali obtida pudesse sanar suas dúvidas e, mesmo se conseguisse, seria difícil que elas se tornassem suficientes, o que leva o filme a um fundo religioso demais em suas soluções, principalmente perto daquilo que ele vinha se propondo para a personagem desde o começo.

Prometheus Filme

E é naquilo que ele se propõe que acaba sendo a tacada mais acertada do filme, já que instiga o espectador com esse começo poético onde uma alienígena acaba se sacrificando para criar a vida na Terra, que convive com as dúvidas propostas pelo robô David e arranha tudo isso com a presença de certos símbolos cristãos como os crucifixos no pescoço da protagonista e no braço de seu companheiro, e até a existência de uma árvore de Natal simbolizando o nascimento da religião moderna (e que acaba sendo colocada em prova com essas descobertas). Além do quê, Scott ainda é corajoso o suficiente para ir em direção a algumas referências “lovecreftianas” óbvias (além da trama se parecer demais mesmo com a obra Nas Montanhas da Loucura), como a criatura em forma de polvo e o monstro que um dos cientistas da nave se torna, insano e resolvido à base de fogo. Uma coragem visual que lembrou aquele mesmo Scott que não teve medo de beber em fontes de filmes “B” para fazer seu Alien.

Mas sobre todos esses problemas, Prometheus sobrevive melhor do que parece, já que, além de ser um deleite para os fãs da série, que vão sim se sentir mais uma vez dentro daquele universo (e vão suspirar até com a resposta óbvia sobre o famoso Space Jockey), ainda consegue ser uma ficção-científica inteligente e pertinente, com atuações acima da média (Fassbender, Theron e Alba continuam esbanjando um controle formidável sobre seus personagens, coisa que veem repetindo a cada filme) e mesmo que não responda claramente certas questões como “qual a razão de toda essa ira contra a raça humana?”, “por que o alienígena no começo usa a mesma roupa da tripulação quando saem da animação suspensa?”, “por que existe uma ‘capsula de cirurgia’ masculina na nave e não uma feminina?” e “Quem limpou toda essa sujeira e deixou o terreno limpinho para a Nostromo chegar por lá”, Prometheus acaba sendo, talvez, o projeto mais pessoal e interessante que Ridley Scott tenha feito desde Thelma & Louise.

*alguns pensamentos que me vieram à mente depois que terminei de escrever o texto. 1) O crítico de cinema Pablo Villaça cita em sua crítica que talvez a ira dos alienígenas tenha relação com o próprio novo testamento, o que talvez seja uma solução interessante. 2) A “cápsula de cirurgia” talvez esteja ali para cuidar do próprio Peter Weyland, mas ainda assim merecia uma referência qualquer. 3) Vim também a descobrir que a lua onde se passa o filme não é a mesma dos outros filmes (de acordo com a Wikipédia essa é LV-223 e a do Alien é LV-426), então a bagunça está liberada. 4) Mas se a Lua não é a mesma, como o Xenomorfo foi parar lá?
 

Prometheus(EUA, 2012) escrito por Jon Spaihts e Damon Lindlof, dirigido por Ridley Scott, com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce e logan Marshall-Green.


Trailer – Prometheus

E confira também o Especial Alien – Parte 1Parte 2

 

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4 Respostas

  1. Ezequiel Paixão

    Esse filme não é para qualquer tipo de publico.Para quem acompanha o diretor Ridley Scott (Alien, Blade Runner, Cruzada, Gladiador)já se acostumou a sua maneira de fazer cinema, sempre instigante! Gostei do filme. Uma narrativa rápida, bela fotografia, boa historia e excelentes atores. Daria uma nota “ótimo” ao filme, porém, acho que no final ele cria um certo equivoco. Mas no geral um bom filme. Vale a pena conferir!

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  2. Leandro

    Olá! bom…sinceramente sou fã de Ridley Scott, acho seus filmes simplesmente geniais, mas ultimamente seus filmes tem perdido àquela expectativa boa que pensamos em ver quando um filme está sob sua direção. “PROMETHEUS” é fantástico sem nenhuma dúvida, elenco sincronizado e convictos, visual futurista do filme perfeito e efeitos especiais incríveis…sem contar com o suspense que só alguns diretores conseguem nos fazer sentir, e Scott é um deles. Mas o final foi decepcionante, ao ver que se tratava de nada mais e nada menos do início do clássico do cinema “ALIEN” eu fiquei um pouco frustado, não digo que o filme é ruim, pois realmente não é, mas me senti como se estivesse sido enganado por uma propaganda falsa em que vc compra algo e recebe outra coisa. Enfim..mesmo com esse final “PROMETHEUS” é um ótimo filme de ficção/científica, mas bem que o “pessoal” de HOLLYWOOD poderia parar com essa mania de criar uma SAGA e depois fazerem um “INÍCIO”. Poderiam ter colocado o título do filme de “ALIEN – A ORIGEM” ao menos saberíamos onde toda a filosofia desse filme ia parar. abraços a todos!

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