Praça Paris | Um retrato mais comum do que gostaríamos de ver

Praça Paris Filme

A violência, o abuso sexual, o machismo institucionalizado, a desigualdade e o racismo são os principais temas abordados pelo denso Praça Paris. Ao colocá-los sobre o prisma da relação complicada entre duas mulheres vindas de realidades totalmente diferentes, o longa traz ainda mais camadas para sua história. Entretanto, a obra perde boa parte de seu peso por, em última instância, priorizar um ponto de vista privilegiado.

Glória (Grace Passô) cresceu e ainda mora em uma violenta favela carioca. Sozinha após a prisão por tráfico do irmão, Jonas (Alex Brasil), ela questiona o papel que a violência cotidiana, o abuso sexual que ela sofreu na infância pelas mãos do pai e a proteção que seu irmão sempre proporcionou a ela têm em sua nova realidade. Trabalhando como ascensorista na UERJ, Glória torna-se paciente de Camila (Joana de Verona), uma psicóloga portuguesa que veio ao Rio para estudar casos de violência. Inicialmente positivas para as duas, as sessões começam a ficar mais conturbadas quando Glória torna-se mais dependente de Camila e esta, por sua vez, é afetada por uma paranoia crescente em relação às situações perigosas em que sua paciente envolve-se, direta ou indiretamente.

A diretora Lucia Mourat, que também assina o roteiro ao lado de Raphael Montes, desenvolve com eficiência a forma com que a violência que Glória presenciou (ou protagonizou) em suas diversas facetas ao longo de toda a vida afeta o estado psicológico e as perspectivas de vida da protagonista. Para tanto, também é fundamental o belo trabalho de Grace Passô, que abraça cada nuance de sua personagem e passeia com talento pelas diferentes e complicadas emoções que ela sente e, muitas vezes, contra as quais luta. O medo e a insegurança brigam contra o amor e a lealdade que ela sente pelo irmão, enquanto o anseio por uma conexão verdadeira com outra pessoa é, por muito tempo, deixado de lado. Assim, Praça Paris alcança seus mais altos níveis de excelência quando mantém-se focado em Glória, como na tocante cena em que, depois de confessar algo, ela repete e repete para a sua psicológica ¿Eu não sou má. Eu não sou má.¿, buscando convencer não apenas Camila, mas, principalmente, a si mesma.

Praça Paris Crítica

Joana de Verona, por outro lado, não tem nas mãos um material tão rico com o qual trabalhar, o que prejudica bastante a caracterização de Camila. Descobrimos pouco sofre a psicóloga ¿ isso funciona nos dois primeiros atos, quando Glória toma o centro da narrativa, mas torna-se menos interessante conforme a perspectiva do longa começa a mudar. Nesse sentido, a priorização do ponto de vista de Camila (a mulher branca que é bastante privilegiada em relação à trajetória e à realidade de Glória, a mulher negra, pobre e vítima de abuso sexual vinda da favela) também mostra-se uma decisão equivocada. Justamente quando a trama caminha para seu clímax, Mourat escolhe distanciar-se dos personagens mais diretamente envolvidos com os conflitos. Um tiro disparado na direção de alguém, por exemplo, perde todo o gigantesco contexto por trás do ocorrido para tornar-se uma maneira de realçar o medo sentido por Camila, e não uma conclusão tragicamente recorrente para o que vínhamos acompanhando até então.

Dessa forma, Praça Paris perde suas maiores forças no terceiro ato, fazendo com que a memória mais forte que permaneça seja a da personagem multifacetada criada por Grace Passô. Dona de uma história de vida bastante comum, especialmente em meio à violência e à pobreza do lugar onde cresceu, Glória tem seus conflitos internos reconhecidos e abordados de maneira complexa enquanto a personagem tenta buscar meios de escapar da desesperança, da tragédia e da angústia que a acompanham tão de perto desde a infância. Aqui, a desigualdade e o preconceito em suas diversas faces são tratadas como prisões, mas o filme resguardar-se antes de mergulhar totalmente em seus conflitos ¿ e, assim, acaba diminuindo a força das discussões fundamentais que levanta.


“Praça Paris” (Bra, 2017), escrito por Raphael Montes e Lúcia Murat, dirigido por Lúcia Murat, com Grace Passô, Joana de Verona, Marco Anrtonio Caponi, Alex Brasil e Babu Santana.


Trailer – Praça Paris

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