Planeta dos Macacos: O Confronto | O “amanhecer” dessa nova franquia


A palavra “continuação” sempre vem cheia de receio, principalmente quando o assunto é Planeta dos Macacos (o de 1968), estando ai para demonstrar que o que vem depois pode ser um desastre. Tudo bem, todas aquelas sequências, viagens no tempo e séries animadas viraram cults, mas a perda de qualidade acompanhou cada uma delas. Um estrago tão grande que só conseguiu ser corrigido quatro décadas depois com Planeta dos Macacos: A Origem, e felizmente agora com Planeta dos Macacos: O Confronto.

Pela primeira vez na franquia, um filme “continua” um predecessor sem meter os pés pelas mãos. E isso acontece, principalmente, pois agora há uma história para contar, um novo mundo e uma nova problemática, uma que se sustenta pela realidade e não se apoia em macacos vestidos falantes. O Confronto, muito provavelmente, até faça parte desse “mundo”, mas ainda está mais preocupado em contar a “história antes da história”.

Por isso, muito mais que sobre um “confronto”, esse novo Planeta dos Macacos (como no título original) é sobre o amanhecer dessa nova raça que surgiu (“Rise”) no primeiro filme e agora sobreviveu a um vírus que dizimou a humanidade. Os macacos ainda não reinam soberanos e enjaulam humanos (como fizeram com Charlton Heston), na verdade vivem em uma sociedade que perambula entre o primitivo e o “semi-evoluído” nas florestas dos arredores de São Francisco. Planeta dos Macacos: O Confronto é então sobre o ponto de ruptura entre o passado e o futuro.

O passado onde ainda eram “seres inferiores” e o futuro onde dominarão o mundo. E isso graças ao encontro entre um grupo de sobreviventes humanos e a tribo de Cesar (Andy Serkis). Os macacos em busca da paz e do afastamento, e os moradores de São Francisco em procurando um meio de sobreviverem, que nesse caso é uma hidroelétrica que precisa ser religada para que a energia volte à cidade.

Isso mesmo, sem vilões óbvios e conflitos imediatistas. Um filme sobre duas raças tentando extrapolar os conflitos e conviverem juntas. E mais curioso ainda, um roteiro escrito por Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver (os dois últimos já foram responsáveis pelo primeiro) onde ao invés de pegar os atalhos óbvios dos “humanos maus”, se aprofunda nessa sociedade símia e saca de dentro dela a “maldade”. Cesar aprendeu a amar com os humanos, mas nem todos macacos tiveram a mesma sorte. Uma opção que surge aos poucos, e por mais que venha com um personagem com cicatriz no olho e “tudo o mais”, ainda assim nasce sutil e coerente (e até com um “Q” Shakesperiano).

E talvez seja isso que mais chame a atenção em O Confronto: sua coerência. Tudo bem que os efeitos especiais e o macacos em CGI também são um espetáculo à parte, mas o filme só não se torna dependente disso graças ao modo como desenvolve essa história. Ora entre os macacos, ora sabendo mudar de foco para o grupo de humanos liderado por Jason Clarke (que você deve se lembrar de A Hora Mais Escura) e, por fim, entendendo que aqueles macacos falantes vestidos e fascistas ainda estão bem longe de surgirem. Sobre todos os conflitos, é a união das duas raças que possibilita o último fiapo de paz que essa mitologia conseguirá ter. Planeta dos Macacos: O Confronto termina olhando para os olhos de Cesar com a certeza de que depois disso o mundo não será mais o mesmo.

Planeta dos Macacos: O Confronto Filme

E sobre encarar seus olhos, uma possibilidade que só existe graças àqueles efeitos especiais do começo do parágrafo anterior, que não só criam um grupo de macacos reais, como o fazem ser incríveis. Junto disso um roteiro que lhes dá personalidades perfeitas, mas isso não seria nada se ninguém acreditasse no que está vendo, e é impossível desacreditar neles.

Com muito mais interação entre humanos e macacos (em CGI) que o anterior, O Confronto enche os olhos graças também à captação de movimentos, principalmente de Andy Serkis, como também Toby Kebbell como Koba. Cada gesto, movimento e expressão estão lá impressas em pixels e é impossível não ficar maravilhado com isso. Já sem efeitos especiais, destaque para Gary Oldman como um dos líderes humanos e novamente conseguindo criar um personagem espetacular diante de um papel que na mão da enorme maioria ficaria relegado a uma ponta sem expressão.

Mas a responsabilidade de fazer tudo isso funcionar de modo tão azeitado é do diretor Matt Reeves (que vem dos ótimos Deixe-me Entrar e Cloverfield – Monstro), eficiente, bem posicionado e corajoso. Sua câmera tem a sensibilidade de encarar Cesar nos olhos nos dois momentos em que se prepara para a guerra, apostando nele como o astro que é. Mas também permanece fixo sobre um tanque enquanto observa os macacos darem seu maior passo em direção à evolução, o momento em que lanças dão lugar a metralhadoras e elas são substituídas por essa maquina de guerra.

Reeves então se mostra consciente em cada movimento, principalmente por que sabe que não pode repetir o clima do filme anterior e precisa ficar longe do futuro da franquia (dos macacos vestidos falantes). A solução então é essa evolução inteligente, onde o passado e o futuro então lá e podem parar para observar esse ponto chave que os liga. E mais que juntando dois mundos, ainda provando que a franquia pode sim apostar em um vida mais longa, maior do que viagens no tempo, cultos à bombas e Tim Burton.


“Rise of the Planet of the Apes” (EUA, 2014), escrito por Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver, dirigido por Matt Reeves, com Andy Serkis, Jason Clarke, Gary Oldman, Keri Russel, Toby Kebbell, Kodi Smit-McPhee e Judy Greer


Trailer do filme “Planeta dos Macacos: O Confronto”

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