Eu gostei muito de Planeta dos Macacos: A Origem quando assisti ao filme pela primeira vez, em 2011 — envolvente, tenso e admirável na maneira com que desenvolvia a surpreendente inteligência do pequeno Caesar, o longa se estabeleceu como um excelente blockbuster. Mesmo assim, confesso que jamais imaginaria que aquela obra era apenas o início de uma trilogia tão ambiciosa e tematicamente rica quanto a que se encerra com este Planeta dos Macacos: A Guerra.

Ambientada pouco tempo após a conclusão de Planeta dos Macacos: O Confronto (que, por sua vez, se passa dez anos após o primeiro filme), a trama acompanha os últimos esforços da civilização de primatas construída e liderada por Caesar (Andy Serkis) para escapar do perigo representado pelo violento exército humano, desesperado para encontrar Caesar e destruir seu povo de uma vez por todas — e que, para tanto, contam até mesmo com alguns macacos desertores, apelidados de “burros”. Quando Caesar decide guiar os primatas até um local mais seguro, ele acaba deixando-os e partindo para enfrentar o Coronel (Woody Harrelson), que parece estar por trás de toda a crueldade do exército. A essa missão, juntam-se Maurice (Karin Konoval), Luca (Michael Adamthwaite) e Rocket (Terry Notary).

A partir dessa premissa, Planeta dos Macacos: A Guerra estabelece de maneira definitiva que esta é a história de Caesar e de como ele deu início a uma nova civilização na Terra. Nos dois filmes anteriores, era notável o quanto os personagens humanos surgiam deslocados e pouco desenvolvidos se comparados aos macacos; aqui, o problema deixa de existir pelo fato de que os seres humanos praticamente não têm tempo de tela. Recebem destaque somente o Coronel, a quem Harrelson imprime complexidade e motivações críveis, e a pequena Nova (Amiah Miller), que passa a acompanhar os macacos após ser deixada para trás pelos humanos. Ela é, assim, a representação de o quanto os macacos são (pelo menos, até então) superiores às pessoas, já que a maneira com que os primatas tratam a menina é completamente diferente daquela com que o exército trata os filhotes dos macacos.

Outra adição ao grupo de personagens é Bad Ape, macaco que escapou de um zoológico e que, até encontrar Caesar e seu grupo, vivia isolado. Steve Zahn faz um bom trabalho em demonstrar, através da fala, o quanto Bad Ape encontra-se distanciado dos demais — ele se expressa de uma maneira consideravelmente mais humana, além de não saber a língua de sinais, principal forma de comunicação dos primatas evoluídos. Assim, Bad Ape atua como um divertido alívio cômico, mas sem diminuir a seriedade da situação em que eles se encontram.

Matt Reeves, retornando como diretor após o filme anterior, agora também assina o roteiro ao lado de Mark Bomback. Aqui, Caesar continua buscando apenas sobreviver — mas isso já é visto como ameaça pelos humanos, que não conseguem aceitar a ideia de dividir o planeta. Além disso, o peso daquilo que aconteceu com Koba (Toby Kebbell) no filme anterior permanece sobre os ombros do protagonista, tornando seu conflito interno ainda mais complexo — diante da crueldade dos humanos, ele conseguirá dar as costas e focar na proteção de seu povo, ou buscará vingança?

Planeta dos Macacos: A Guerra Crítica

É fascinante perceber o quanto cada um dos macacos, mas Caesar em especial, se estabelecem como indivíduos, algo que seria impossível sem a realização magnífica não apenas da Weta e do trabalho sensível e impecável de motion capture realizado por Serkis e seus colegas. Outro motivo para isso é a dinâmica multidimensional que eles estabelecem entre si, que incluem desde ocasionais rivalidades até amores profundos — e, nesse sentido, o reencontro do filho de Caesar com sua amada representa um momento particularmente belo. Também é inteligente acompanhar as maneiras com que eles se diferenciam dos soldados mesmo enquanto sua inteligência continua se desenvolvendo, como na cena em que os primatas utilizam um recurso… natural, digamos assim, como distração. Isso demonstra o talento dos cineastas para estabelecer esse povo como algo único, que não precisa necessariamente espelhar a civilização humana.

Enquanto isso, Reeves também acerta em cheio na maneira discreta e natural com que apresenta a rotina da civilização primata e, assim, faz com que cada detalhe novo que descobrimos seja marcante. As cenas de ação também são eficientes, enquanto o clima de tensão advindo da guerra que dá título ao filme revela-se presente mesmo quando não há efetivamente nenhum conflito propriamente dito acontecendo em tela; afinal, grande parte da ação advém do fato de que os primatas encontram-se vulneráveis e incapacitados por boa parte do tempo.

Com uma conclusão belíssima, Planeta dos Macacos: A Guerra encerra a trilogia de Caesar com louvor, estabelecendo-se como uma das melhores franquias entre os blockbusters modernos e sempre encantando com a maneira complexa e ambiciosa com que discute humanidade, consciência, inteligência, moral e empatia (ou, mais especificamente, a falta disso tudo).


“War for the Planet of the Apes” (EUA/Can/NZ, 2017), escrito por Mark Bomback e Matt Reeves, dirigido por Matt Reeves, com Andy Serkis, Woody Harrelson, Karin Konoval, Steve Zahn, Amiah Miller, Terry Notary, Michael Adamthwaite, Toby Kebbell, Gabriel Chavarria, Judy Greer, Sara Canning e Devyn Dalton.


Planeta dos Macacos: A Guerra

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2 Respostas

  1. Mariana González

    Espero que tenhamos mais filmes! Mas, de qualquer forma, a história do César acabou — e, portanto, podemos considerar A Origem, O Confronto e A Guerra como uma trilogia isolada, mesmo que esteja dentro de uma franquia maior (como acontece com os filmes dos X-Men, por exemplo).

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  2. Saulo Vale

    Como sabe que não terá mais filmes? O arco de César pode de fato, ter terminado, mas já li que a intenção da franquia é um dia chegar a um ambiente semelhante ao filme original, com os astronautas perdidos chegando no futuro.

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