Personal Shopper envolve espiritismo em um mundo impessoal e materialista. Sequer há emoção no filme, embora a história gire em torno do luto de um ente querido. Mas talvez, no final das contas, o que conte mais não é a esperança de que haja algo após a morte, mas sim de que exista algo depois de uma vida não vivida, mas meramente suportada.

A história gira e é contada em torno das percepções da personagem de Kirsten Stewart, Maureen Cartwright, que acabou de perder o irmão, Lewis, vítima de um problema genético que, apesar de raro, ela compartilha. Ela trabalha como “personal shopper” para uma modelo famosa, passando seu dia-a-dia indo e vindo a lojas para levar e trazer roupas e acessórios para sua patroa.

Mas não é apenas a doença que ela e seu irmão compartilhavam. Ambos são médiuns, e cada um ao seu modo percebe a presença de forças estranhas. Seu irmão tinha certeza que havia algo “do outro lado”, enquanto ela chama sua percepção de algo como uma vibração; de qualquer forma, os dois fizeram um pacto: quem morrer primeiro deve enviar algum sinal para o outro. Agora ela passa algum tempo na casa onde Lewis morava com sua esposa, tanto para tranquilizar os compradores de que não há nada perturbador quanto para esperar pelo sinal.

Curiosamente centrado em uma perda, o universo de Personal Shopper deixa claro que sentimentos não fazem parte da rotina dessas pessoas. Os compradores da casa estão interessados em saber se não haverá problemas para eles (talvez até influenciados pelo terror americano da mansão assombrada, um clichê cutucado pelo filme). A modelo para quem Maureen trabalha conversa sobre a publicidade em torno de um projeto de defesa de gorilas, mas está mais interessada em não cancelar a coletiva com a imprensa do que saber se os animais estão bem (não estão). Enquanto isso seu amante a espera na sala para que ela termine com ele, já que ela está com medo que seu marido saiba do caso. Quando questionado se pelo menos ele gosta dela, ouvimos um não extremamente racional e ponderado. Seu objetivo em estar com ela é apenas carnal.

E carnal também, de certa forma, é o relacionamento entre as roupas da modelo e sua “PS”, e isso a vai seduzindo aos poucos conforme suas experiências além-vida começam a ficar mais intensas do que ela acreditava ser possível. Ela sente necessidade de vestir as roupas que passam por suas mãos tanto por ser proibido quanto por fazer algo para tentar ser outra pessoa. Ela odeia o que faz. Ela poderia largar tudo isso e ir se encontrar com seu namorado em uma terra exótica (o que praticamente evoca um mundo mais espiritual), mas está aguardando pelo irmão. Essa é sua penitência.

Personal Shopper Crítica

O diretor Olivier Assayas, além de dominar o aspecto do horror em seu filme logo no começo, usa a favor da narrativa, e nunca pelo susto fácil. Quando há algo perturbador primeiro ele aparece na mente da protagonista, depois vemos, ouvimos ou sentimos algo. O jogo de encenação consegue também sempre deixar a dúvida do que vemos (até porque temos apenas apenas a médium como testemunha). Ela é uma cética, mas acredito que ela gostaria de acreditar, com todo o resto das forças presentes em seu espírito ainda vivo, perambulando pelas ruas de Londres a Paris.

E como todo filme de terror bem feito (ainda que seja um drama) o controle de luz é absoluto, especialmente na casa de Lewis. Note como o enquadramento, sempre amplo, permitindo que vejamos um cenário de imersão na vida da personagem. Na casa tem menos importância que o jogo de luzes, que indica onde devemos prestar atenção.

Em um jogo narrativo soberbo, sabemos mais sobre a personagem a partir do momento que ela começa a se comunicar com uma pessoa desconhecida. Essa pessoa pode ser o espírito que fez contato na casa de seu irmão. Ela se comunica através de mensagens no celular, e daí nós temos uma ótima metáfora sobre pessoas que vivem no celular, com seus espíritos milhares de anos-luz distantes de seus corpos. Há um ótimo momento dessa brincadeira, quando o desconhecido fala que está observando-a nesse exato momento. Quando ela começa a olhar em volta, todas as pessoas presentes no vagão estão concentradas em seus celulares. Em que momento o mundo dos vivos virou o dos mortos?


“Personal Shopper” (Fra/Ale, 2016), escrito por Olivier Assayas, Olivier Assayas, dirigido por Olivier Assayas, com Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin


Trailer – Personal Shopper

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.