Pendular possui alguns simbolismos, algum conflito, algumas situações. E nada disso parece fornecer pistas suficientes para entender o que está acontecendo. Bonito por bonito, temos uma obra vazia e incoerente. Justamente o que seus idealizadores parecem buscar. Uma das primeiras falas do filme deixam isso claro: “f***-se a coerência”.

O resultado é um espectador passivo e entediado, sem nada para participar no processo da arte. Curioso que o filme conta a história de dois artistas criando, marido e esposa, cada um em seu canto e com suas formas e métodos. No início ambos traçam uma linha no chão dividindo o imenso e insalubre galpão onde trabalham. Aos poucos o pouco espaço reservado para ela, uma dançarina, vai diminuindo. O espaço da obra dele ocupa cada vez mais espaço. Ele não sabe bem o que está criando, mas no processo a sufoca. Ele quer muito ter um filho, e quer fazer o filho nela. Ela, espírito livre, discorda profundamente e naturalmente. Afinal de contas, o seu corpo em movimento é sua arte.

Há um jogo de força acontecendo, e ambos estão de certa forma jogando. Seja no sexo, em jogos de vídeo-game ou até mesmo na pelada com os amigos, este jogo de força mede quem pode mais. Mas os jogadores estão tão inertes que não há paixão. Eles parecem ter transformado o trabalho do artista em um doloroso e enfadonho processo. A rotina dos escritórios parece menos opressiva que viver naquele lugar.

Talvez esse seja de fato o processo de criação: quanto mais intenso, mais difícil e doloroso. Como o nascimento de um filho. Olhaí mais um símbolo, fácil de problematizar. Há um cabo que termina no galpão, mas que se estende para fora do prédio. Seu começo é um mistério para ela, e ele parece querer esconder. Gravidez, cabo de força saindo de casa, o título do filme com as letras desequilibradas. Há um descompasso e talvez um trocadilho. “Pendular” pode ser uma brincadeira em inglês/português, evidenciando tudo o que estamos vendo. Esses seres humanos falando línguas distintas parecem se comunicar apenas na dor, e essa mesma sentida de diferentes maneiras. Juntos eles formam um lar. Daí, “pain” (dor) do lar. A dor de um lar em conflito de criações. Muita viagem para você?

Pendular Crítica

Talvez até seja, mas é o resultado do processo de tentar desvendar um filme que não deseja ser desvendado ou anseia por atenção. Até seus personagens parecem brincar de enigma. Ele, sempre inexpressivo, parece um zumbi realizando esforços repetitivos e sem sentido. Ela idem, apesar de todo seu charme e sensualidade. Mas talvez isso seja apenas o processo natural de observar corpos se balançando no ar. A diretora/roteirista Júlia Murat ( Histórias que Só Existem Quando Lembradas) não parece querer que o filme avance em qualquer um dos seus possíveis temas e conflitos, e é exatamente assim que seus personagens se comportam. Eles podem até estar sofrendo no processo, mas isso não importa ao filme.

Da forma como quiser e imaginar, Pendular irá te aborrecer. Exceto, talvez, pela sua edição de som, que está sempre presente e se faz sentir. O som da cidade lá fora é o abrir e fechar de cortinas do filme, e a música e as falas, quando acontecem, podem ser ouvidas. Que glória para um filme brasileiro! Uma obra de arte, sem dúvida, que pende para a obscuridade. Está vendo como até eu consigo criar trocadilhos capengas?


“Pendular” (Bra, 2017), escrito e dirigido por Júlia Murat, com Raquel Karro e Rodrigo Bolzon, Valéria Barreta, Renato Linhares e Neto Machado.


Trailer – Pendular

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