Adoro a ideia de que quando a ficção é melhor que a realidade é melhor imprimir a primeira. Mas talvez hajam limites para a minha paciência. Pelé – O Nascimento de uma Lenda talvez faça isso, vá além da capacidade de qualquer de seguir com o “Dico” até ele chegar na Suécia.

E talvez isso venha junto com a impressão de tudo estar meio fora do lugar com um projeto desses na mão de um americano. Não que a nacionalidade possa impedir alguém de contar uma boa história, mas nesse caso, o que parece acontecer é um distanciamento grande demais da realidade.

Para Hollywood, apenas a jornada heroica vale, assim como só é festejada as grandes reviravoltas dos “underdogs” gringos (como Rocky e mais um monte de “heróis” do esporte). “Dico” não era um azarão, nem depois quando foi chamado de “Gasolina”, “Lelé” (na sua estreia o Estadão errou seu nome) e muito menos “Pelé”.

O que a dupla Jeff e Michael Zimbalist fazem é criar um Pelé só deles. E essa vontade de rescrever a história vai da infância em Bauru até a Copa de 58, já que aqui, com tantas informações e vídeos de fácil acesso, inventar algo muito discrepante seria muita cara de pau.

Os Zimbalists então fazem Pelé – O Nascimento de uma Lenda funcionar, mas à duras penas para quem gostaria de algo um pouco mais próximo da realidade. E ainda que, principalmente esse começo funcione e feche bem o ciclo do personagem no final, chegando até a emocionar com a montagem paralela entre Pelé na final e os pais em Bauru, um segundo depois você se lembra do quanto aquilo é artificial.

Para eles, é como se “Dico” tivesse jogado bola de meia no meio da rua de terra e encontrado sua única oportunidade da glória em um campeonato juvenil, mas que tudo é interrompido por uma tragédia com um amigo. Pior ainda, coloca em seu caminho um jovem “Mazolla” que depois cruza novamente com ele na seleção, personagem que ali é responsável pelo apelido “Pelé”.

“Mas você está sendo preciosista, só quer apontar os erros!”, pode parecer que sim, mas pense comigo, se a ideia é fazer uma cinebiografia sobre uma personalidade, mudar toda sua origem para criar um personagem mais interessante tira dele todas suas reais motivações e o diminui a apenas alguém empurrado pelo melodrama (ou pelo olhar de alguém fora do campo que o faz levantar do ringue…quer dizer campo e sair driblando todos).

Pelé na sua juventude jogou em vários times de várzea de Bauru, assim como nunca esteve nem perto de “Mazolla” (que curiosamente, tinha uma mãe que era empregada doméstica). Ignorar isso cria uma imagem distorcida de todo o resto da história.

Pelé Crítica

E isso é só o começo, do mesmo jeito que “Dico” nenhum foi convocado para a Copa, mas sim o Pelé mesmo (que já jogava com essa alcunha), os Zimbalists ainda parecem ter visto Star Wars demais e acham que a “Ginga” é a “Força”. O que em certo momento passa a ser motivo de vergonha alheia quando repetido exaustivamente.

Um esforço que passa até por um flashback meio picareta que usa imagens do filme Besouro para explicar que a Forç… quer dizer ginga era proibida por causa da capoeira e que todos achavam que era ela que tinha perdido as duas Copas anteriores. O que faria do técnico Vicente Feola (Vicente D´Onófrio) um completo idiota, já que se ele não queria a tal ginga e prezava pela organização sueca/europeia, nunca iria levar Garrincha (Felipe Simas) para a Copa do Mundo.

Se isso funciona no filme? Sim, talvez não para os brasileiros ou para qualquer país que tenha algum tipo de ligação mais profunda com o futebol, mas para o resto da gringalhada, a narrativa da “ginga proibida” e da “infância traumatizada” funcionam. Ainda mais com uma Direção de Arte incrível que recria a época de um jeito formidável. O problema é que com essas “licenças poéticas” o que se cria é uma imagem completamente equivocada de um personagem que merecia muito mais do que apenas um filme bobinho.

O total desconhecimento pelo material ainda passa por uma série de soluções visuais imbecis e preconceituosas, passando principalmente pela transformação de Santos é uma grande favela à céu aberto, apinhada de barracos e com o estádio colocado no meio como se isso fosse meramente possível, já que o lugar nem ao menos parece ter ruas. E sim esse parágrafo é pessoal com o crítico que vos fala defendendo sua cidade natal (mas não seu time… só para deixar claro).

E se eu não falei em nenhum momento sobre o jeito destrambelhado dos Zimbalists de filmar partidas de futebol em ângulos fechados e sem saber para onde apontar a câmera na maioria do tempo durante as sequências de jogos é porque… bom, na verdade é porque ninguém nunca conseguiu fazer isso direito (talvez a série de filmes ingleses Gol! tenha chegado perto, junto de Maldito Futebol Clube de Tom Hooper, por mais nesse pouco apareçam os jogos).

Por fim, para não perder a piada, Pelé – O Nascimento de Uma Lenda é um equívoco tão grande que, muito provavelmente, fará o Chaves se arrepender de ter falado que “preferia ter ido ver o filme do Pelé”.

*o crítico assitiu o filme à convite do Cine Roxy


“Pelé: Birth of a Legend” (EUA, 2016), escrito e dirigido por Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist, com Kevin de Paula, Leonardo Lima Carvalho, Seu Jorge, Mariana Nunes, Milton Gonçalves, Vicente D´Onofrio, André Mattos, Fernando Caruso e Felipe Simas.


Trailer – Pelé – O Nascimento de Uma Lenda

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