O Silêncio do Céu é mais uma incursão do diretor Marco Dutra (Trabalhar Cansa) em um filme que flerta entre o drama e o terror. Porém, nesse caso não há o apelo ao sobrenatural, mas a uma substância social que permeia cada um de nós: o medo.

E esse medo vem na forma da ausência de diálogos entre pessoas que se amam, o que o torna mais poderoso ainda. A história começa com a cena de um estupro de uma mulher em posição indefesa, que pode apenas observar, submissa por dois homens armados com uma faca. Começamos o filme enxergando seu ponto de vista, mas isso logo muda para o ponto de vista de seu namorado, Mario (Leonardo Sbaraglia) que, depois sabemos, presenciou toda a cena, mas foi incapaz de agir.

Mario, dominado por uma imensidão de fobias, que vão de escorpiões a aviões, aprendeu a viver através de emular as outras pessoas, enquanto sobrevivia no porão o seu eu verdadeiro, aterrorizado e petrificado de medo. Essa sua personalidade alternativa se tornou tão forte após o evento traumatizante que assumiu seu controle, mas ele começou a duvidar se era tão forte assim depois que viu a capacidade de sua namorada, Diana (Carolina Dieckmann), conseguir emular uma vida normal após o trauma, e mesmo assim parecer questionar as atitudes de Mario, mesmo que através de imperceptíveis micro expressões em seu rosto e olhar.

Toda essa camada subjetiva só funciona graças a podermos escutar os pensamentos de Diana, Mario e Diana novamente, em uma história tensa e conduzida com um controle absoluto do “mise en scene”. A dupla competente de atores consegue evocar tudo que é necessário para que esse filme quase sem diálogos significativos pode evocar.

Há um exagero de azul celeste nos cenários que parece querer dizer que aquele dia com céu azulado ficou permeando os dias seguintes daquela família, influenciando para sempre suas vidas. Só que em vez de significar paz de espírito, o azul aqui é o maldito lembrete daquela tarde horrível que ambos passaram. Há um punhado de simbolismos por trás dos elementos em cena, como o cacto e o vermelho, e parece inútil tentar desvendar todos eles quando o aspecto onírico (e de pesadelo) começa a tomar conta da rotina. Um filme ambicioso que almeja atingir algo mais que uma simples história. Que tenta desvendar o medo mais íntimo do ser humano: o dele mesmo.

O Silêncio do Céu Crítica

Quando uma pedra do jardim é acidentalmente colocada no centro da casa, em cima de uma mesa para todos verem, e isso se torna um elemento recorrente nas cenas, mas nunca é citada por nenhuma daquelas pessoas, é porque há algo muito errado naquele lar, ou essa pedra simboliza justamente isso. É esse o nível de beleza dos símbolos que estamos falando.

E Marco Dutra consegue com a ajuda desses símbolos, de uma fotografia mestre (Pedro Luque) em dominar as luzes e sombras, e uma engenharia de som rebuscada e significativa – que nos remete ao ótimo O Som Ao Redor – remeter a um terror psicológico de arrepiar a mente. O som é feito pelos irmãos Guilherme e Gustavo Garbato com uma tecnicidade de fazer arrepiar em vários momentos. Note o barulho repetitivo dos brinquedos do parque ao lado de onde trabalha Diana, e como o barulho do escapamento do carro em um momento-chave da trama toma conta de todas as atenções (e é usada como trilha sonora). Ao mesmo tempo note o naturalismo de Dutra em montar suas cenas, que mesmo apelando para supercloses e objetos na penumbra consegue evitar uma edição tresloucada; a passos leves caminhamos em direção ao terror.

Há algo de Hitchcock em O Silêncio do Céu, seja na perseguição de carros ou na maneira inquietante com que Mario adentra um mundo estranho que vai aos poucos se tornando terrivelmente familiar. Não é um filme para muitos, pois seu desfecho não satisfaz os que gostam de histórias amarradas com tudo resolvido. Porém, se engana desde o começo quem acha que haverá um final feliz em uma história que começa com um estupro.


“Era el Sielo” (Bra, 2016), escrito por Sergio Bizzio, Caetano Gotardo, Lucía Puenzo, dirigido por Marco Dutra, com Leonardo Sbaraglia, Carolina Dieckmann, Chino Darín, Alvaro Armand Ugon, Mirella Pascual


Trailer – O Silêncio do Céu

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