O Orgulho | Ao mestre com carinho… mesmo ele sendo um idiota

O Orgulho Filme

Para um filme que fala sobre retórica, O Orgulho é bem fraquinho. Muito embora o orgulho mesmo, esse sentimento poderoso (para o bem e para o mal) é devidamente apresentado na forma de jogo de palavras. Já o filme, convencional do começo ao fim, nunca se permite levar a sério qualquer uma das questões que ele levanta, se colocando no lugar-comum dos filmes que exaltam a dinâmica professor/aluno ou mestre/pupilo. Mesmo que o mestre seja um idiota.

Aliás, justamente por causa do mestre (no caso, um professor universitário) ser um idiota, poderíamos chamar este filme de condescende além da conta. Só que ao mesmo tempo não podemos, porque sem este cativante personagem vivido por Daniel Auteuil não teríamos história. Isso porque sua pupila (Camélia Jordana), vinda dos guetos de Paris para alegria dos justiceiros sociais, é sem graça o suficiente para nunca nos importamos com seu destino. Então resta ao professor o benefício da dúvida que move o filme.

No início da história há a melhor das chamadas para a ação. Após vermos cenas de arquivos onde vários pensadores sintetizam a arte da argumentação e o uso das palavras como arma na sociedade moderna, o filme começa focando em Neïla Salah (Jordana), a aluna inusitada realizando uma pequena viagem para chegar à Universidade de Paris. Em um hall lotado de estudantes, ela é a única aluna barrada pelo segurança da entrada (diga-se de passagem, um negro). Se o motivo é por estar vestida para um colégio de subúrbio ou se é pela origem muçulmana nunca saberemos.

Enfim, ela vai parar em um auditório gigantesco onde o professor Pierre Mazard (Auteuil) está dando mais uma de suas aulas sobre textos antigos, e talvez por se sentir ofendido por seu atraso a provoca atacando todas as fraquezas que já sabemos que ela possui naquele ambiente. A cena é filmada, e o inevitável acontece: o politicamente correto pede a cabeça do professor.

A solução para ele? Treinar essa mesma aluna para um campeonato de retórica. E a partir daí vamos para o clichê.

Agora, como este é um filme sobre debates polêmicos, é natural supor que o espectador ficará torcendo pela ponta mais fraca até o final, não se importando com a mensagem principal do filme, que é: “a verdade não importa”.

Várias questões durante a história são colocadas de maneira simples e rápida pelo diretor Yvan Attal, que desliza pelo tema pontuando visualmente (principalmente com o uso de quadros onde a pessoa está localizada em um canto ou outro da tela, esmagada) apenas aqui e ali a relação entre aluna e professor… ou aluna e colegas de sala, ou aluna e namoradinho. Nada disso evolui para nada secundário que seja digno de se citar. Há desde o começo questões polêmicas que poderiam ser melhor exploradas, como sobre a autoridade do professor, sua competência, sua liberdade para com alunos, seu suposto racismo, se tudo aquilo é uma brincadeira comum de sua persona (os alunos entrando na brincadeira na sequência inicial sugerem que sim) ou até se como instituição de ensino a liberdade de expressão deve ser colocada acima da imagem comercial ou social de uma Universidade.

O Orgulho Crítica

Por outro lado, o clichê do desafio da aluna de baixa renda que irá superar tudo e a todos os estudantes ricos e brancos da elite francesa é tratado de maneira preguiçosa e convencional, a ponto de se tornar óbvio que o batalhão de cinco pessoas que escreveu a história e os diálogos usa livros escritos pela mesma elite branca com complexo de culpa para se basear nessa realidade ficcional onde ou você ou é oprimido ou é opressor. (E se for “opressor”, por favor, seja rico e branco, ou irá atrapalhar as estatísticas.)

Mas este também é um filme sobre uma relação de “amizade” curiosa que nasce entre pupila e mestre, em que tudo o que eles dizem, seja nos treinamentos de retórica ou na “vida real”, pode não ser realmente o que sentem ou pensam. Dessa forma, o subtexto deveria ser usado para que o espectador consiga detectar o que está sendo dito de verdade, mas não é assim.

O que acontece é que o filme se escora demais no livro A Arte de Ter Razão, o guia indecoroso de como ganhar argumentos a qualquer custo do filósofo Authur Schopenhauer (uma criatura certamente estranha, como pontua o professor). Ao mesmo tempo, o filme acerta ao demonstrar, como em um inocente jogo de detetive entre a aluna e seus amigos, que a argumentação existe em qualquer lugar onde seres humanos estejam a se comunicar usando palavras.

No que voltamos às celebridades literárias mostradas no começo do filme. Para eles, não são as ideias tão importantes quanto as palavras. Um deles diz que são as palavras que fazem nascer as ideias, e com isso ele quer dizer que no fundo, no fundo, o que importa mesmo na argumentação é saber dominar as palavras com maestria. E a verdade que fique em um canto da sala. O filme não nos diz abertamente que é isso o que ele faz ao montar uma historinha de faz-de-conta em uma Paris idealizada de acordo com teorias sociais em voga. Mas se for, então retiro tudo que disse sobre seus valores: você me pegou em cheio.

Está tudo dito! (I rest my case.)


“Le brio” (França, Bélgica, 2017), escrito por Bryan Marciano, Noé Debré, Victor Saint Macary, Yaël Langmann, Yvan Attal, dirigido por Yvan Attal, com Daniel Auteuil, Camélia Jordana, Yasin Houicha.


Trailer – O Orgulho

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