Da figura que abre o filme O.J.: Made in America, melancólica, calva, com o olhar sem paixão e vestindo um macacão de presidiário, nada resta de um dos maiores ídolos do Estados Unidos. Seja marcando touchdowns pelo Buffalo Bills, no cinema ou na TV, O.J. Simpson foi um fenômeno cultural, e conseguir entender como o menino de São Francisco se tornou o preso de Nevada, talvez seja uma ambição maior ainda. Uma pretensão de entender a América.

Para as novas gerações, ou quem esteve desligado do mundo nos últimos 30 anos, O.J. foi um jogador de futebol americano que se tornou um dos maiores ícones do esporte, assim como aos poucos extrapolou ele e se transformou em uma das maiores personalidades dos Estados Unidos. Sua biografia passa então pela acusação de assassinato de sua esposa no começo dos anos 90 e um julgamento que se tornou um circo midiático que parou o país e o mundo.

Mas há muito mais profundidade em O.J.: Made in America, como o próprio título já afirma. O.J. é um produto dos Estados Unidos, tanto enquanto se esforçava para sumir dentro da “América Branca”, renegando sua raça e origens, quanto quando virou símbolo de três décadas de conflito racial. “Made in America” mostra um homem que fingiu ser branco e nunca lutou contra um sistema que o usou para apaziguar na elite a sensação de que existia uma luta racial. Como o próprio O.J. dizia, ele não era negro ou branco, “ele era O.J.”.

O documentário produzido pela ESPN e dirigido por Ezra Edelman vai então em busca dessa ironia. Por quase oito horas (na TV foi exibido em cinco capítulos), tenta entender o que levou a América e O.J. àquele julgamento. Tenta entender como alguém que lutou contra a corrente do movimento negro dos anos 60 e ignorou esforços de ícones do esporte como o boxeador Cassius Clay (Muhammad Ali), o jogador de futebol americano Jim Brown e o ícone do basquete, Lew Alcindor (Kareen Abdul-Jabar) que sacrificaram parte de sua fama em busca de justiça contra os negros, pôde anos depois representar uma população negra de um país inteiro.

O.J. em certo momento do documentário chega até a criticar o posicionamento política dos corredores Tommie Smith e John Carlos na Olimpíada de 1978, um punho em riste apontando para o alto que mais tarde lhe salva das acusações de duplo assassinato, já que um dos jurados tinha um passado como Pantera Negra. E é esse tipo de rima narrativa que mais cria em Made in America a impressão de uma trágica comédia de erros que representa a falência de um país inteiro. O fim de um sistema que se achava infalível, mas errou tantas e tantas vezes que chega a ser triste ver esse castelo de cartas caindo e uma verdade sendo desmascarada de modo tão horripilante, mas uma verdade que pouco importa diante de uma outra verdade muito mais real.

Made in America, vai em busca dessa verdade, de todos casos de racismo e violência racial que transformaram Los Angeles em um caldeirão borbulhante de ferocidade e brutalidade policial. O documentário mostra com uma eficácia incrível e uma montagem, que desafiaria a lógica se não fosse tão verdadeira, que em Los Angeles, 1968 realmente foi o “ano que nunca acabou”, pelo menos não até o veredito de inocente para O.J. Simpson em 1994. Tudo culmina naquele “not guilty” e o silencio dos personagens diante disso é tão pesado quanto os anos de sofrimento que todos aqueles negros sofreram.

E se em certo momento“O.J.: Made in America se torna um eficaz filme de tribunal, emocionante e com reviravoltas dignas dos melhores autores do gênero, é graças a um esforço enorme de criar um contexto gigantesco para aqueles sete meses de julgamento. Edelman, com o tempo de sobra a seu favor, consegue desenvolver com um poder incrível cada pessoa envolvida nesse clímax, e isso muito tempo antes disso sequer estar sendo discutido no filme.

O.J.: Made in America Crítica

O.J.: Made in America é exatamente isso: um exercício de contexto. Diante de limites temporários que não o permitissem ser esse enorme documentário, seria impossível estabelecer o cenário necessário para entender o que realmente aconteceu naquele tribunal. Sem todo esse tempo, ficaria fácil incriminar 77% dos negros nos Estados Unidos que, mesmo com todas provas irrefutáveis e óbvias, ainda assim acreditavam na inocência de O.J. Simpson.

Ponderado em deixar sua opinião prevalecer, ainda que seja impossível fugir de todas provas que apontavam para a culpa do ex-jogador, O.J.: Made in America ainda faz um incrível trabalho na hora de conseguir declarações tão poderosas que não conseguiriam ser escritas nem pelo mais habilidoso dos roteiristas. E só isso talvez já valha a experiência de conseguir entender um período inteiro dos EUA e aquele que talvez seja uma das maiores coberturas jornalísticas da imprensa americana. Talvez para os brasileiros essa importância a primeira vista passe despercebido, mas de modo didático e eloquente, o documentário também parece preocupado em mostrar tanto a importância daquilo, quanto seu legado para quem estava fora dos Estados Unidos.

Mas talvez o melhor de O.J.: Made in America seja entender o poder desse fenômeno. De como aceitar que um helicóptero com uma câmera seguiu um carro em fuga durante quase um dia inteiro e deixou um legado enorme para o chamado “jornalismo policial moderno”. Mas mais que isso, mostrando ao mesmo tempo a dicotomia de um brutal duplo homicida convivendo no mesmo corpo de um suicida trágico. É esse incômodo que emocionou uma nação inteira e revira o estômago do espectador.

Mais que isso ainda é a impressão de entender como todas as provas ainda podem criar um inocente. O mau gosto na boca de mostrar que aqueles negros não estavam lutando simplesmente por O.J., mas sim por toda uma vida de Rodney Kings, Latashas Harlings, Eulas Loves e Martins Luther Kings, todos vítimas de uma América racista. Uma vingança por algo que aconteceu durante 400 anos.

Por outro lado, O.J.: Made in America é ainda mais ácido ao mostrar que uma América branca foi enganada por um O.J. que nunca deixou de ser negro, mas também de uma América negra que lutou contra um sistema para libertar um opressor, para salvar um semelhante, quando na verdade estavam colocando na rua um ricaço branco que estava pouco ligando para eles.

Sim, O.J.: Made in America é um filme complexo que desperta sentimentos complexos, que acompanha O.J. e a própria América (seja branca ou negra) até o fundo do poço sem desviar o olhar. Mas uma coisa é certa, o documentário termina com um off do próprio O.J. pedindo para ser lembrado como “o Juicy, o cara legal”, e isso o filme não irá permitir.


“O.J: Made in America” (EUA, 2016), dirigido por Ezra Edelman


Trailer – O.J.: Made in America

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