O Irlandês | Uma obra impecável de dois mestres do cinema


Parece que a idade chegou para Martin Scorsese. Com 77 anos de idade e em seu 40° filme, o diretor faz de O Irlandês a prova de que não faz mais filmes como antigamente… mas sim melhores.

Mas a questão aqui não é qualidade em comparação a seus clássicos, mas sim dentro de um amadurecimento e de uma independência que permite que Scorsese seja absolutamente quem ele queira ser. Silêncio, sua última obra de ficção não tem nada de O Lobo de Wall Street, filme anterior, assim como O Irlandês, mesmo sendo mais um “filme de gangster”, não tem nada dos dois e quase foge de todos outros relacionados a seu nome e que tentam entender o submundo do crime organizado dos Estados Unidos.

Talvez O Irlandês seja o filme definitivo de Scorsese no assunto. Como se viesse com um manifesto que indica que ninguém mais poderia fazer filmes de gangster em Hollywood se não for o Scorsese. Parece exagero, mas talvez isso seja algo a ser pensado. Até porque, O Irlandês “dá a volta” e chega em um lugar onde nenhum filme de Scorsese cheio de mafiosos chegou, em um cinema clássico, econômico, grandioso e que não precisa provar nada para ninguém.

Esqueça os planos longos, a violência explosiva e as reviravoltas, O Irlandês tem tanta personalidade que só faz aqui o que está na tela: conta uma história. Um épico de verdade, que acompanha algumas décadas da vida de Frank Sheeran (Robert De Niro), mafioso que galgou sua fama em uma das maiores famílias do crime organizado americano, os Buffalinos, e esteve envolvido da misteriosa morte do líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino).

O objetivo de Scorsese é claro, além de adaptar o livro de Charles Brandt “I Heard You Paint Houses” (que é uma espécie de subtítulo do filme e abre a história com “Ouvi Dizer que Você Pinta Casas”), o roteiro escrito por Steve Zaillan caminha ao lado desse personagem para entender todo funcionamento desse sistema complexo baseado em honra e lucro e como isso cruzou o caminho de Hoffa. Sem necessidade de qualquer tipo de surpresa, apenas um caminho reto em direção a um fim inerente.

O que Scorsese quer é construir essa situação através, tanto das memórias desse Sheeran idoso, em sua cadeira de rodas, esquecido pelos corredores de um asilo onde a sua culpa esmaga seus últimos momentos de vida. Tanto como profissional, quanto como pai, uma vida que precisou passar por essa encruzilhada moral entre tudo que acreditava, sua moral e a fidelidade com suas famílias.

Talvez, sua relação com a família de sangue seja o pequeno detalhe que impede O Irlandês de ser impecável, já que não se permite a aproximação do personagem com sua esposa e filhas e não consegue alinhavar isso com o peso merecido nos momentos finais. Entretanto, a atuação silenciosa de Anna Paquin como uma de suas filhas é de cortar o coração, um olhar sem palavras que destrói Sheeran sem ele perceber que isso está acontecendo até ser tarde demais.

Mas Scorsese não está falando de uma culpa que destrói ou corrói, mas sim de uma culpa que permanece lá, parada e sem atrapalhar o visual impecável desse velho simpático que só quer contar sua história, contanto que não seja para os federais.

O Irlandês é então um grande flashback, que se mistura a outras lembranças e não se importa com linearidade, apenas vai contando essa história, pedaço por pedaço, com um exímio trabalho estético de Scorsese, mas com a genialidade da montadora Thelma Schoonmaker criando um ritmo tão gigantesco que suas três horas e meia demoram uns 90 minutos para passar.

Enquanto Scorsese faz um de seus trabalhos menos rebuscados e mais econômicos, buscando uma precisão de composição incrível, Schoonmaker aproveita cada um desses planos para montar uma grande cadeia de eventos que mais parece uma corrente, unida por elos que constroem esse enorme linha de eventos que começa com esse entregador de carnes e acaba com um dos mafiosos mais famosos dos Estados Unidos.

Para Scorsese não parece existir cena desperdiçada, tudo está lá, no exato lugar onde deveria, mostrando exatamente o que você precisa para entender a cena em sua maior completude. Você percebe o que o personagem está sentindo, entende o passo que a trama dá e, consequentemente, o que deixou para trás nesse jogo onde cada camada sobrepõe uma ideia e cria outra. Schoonmaker continua lá, no calcanhar desse gigantesco esforço para contar essa história épica e coloca tudo no lugar perfeito.

Tudo em O Irlandês está no “lugar perfeito”. Principalmente Sheeran, que, mesmo protagonista de sua história, nunca assume o protagonismo daquela história maior. Scorsese constrói esse personagem que mistura sensatez com a impressão violento de que estará sempre por lá para o que precisarem. Alguém que está em órbita dos verdadeiros protagonistas, e sempre respeitosamente diminuído pela grandeza dos outros personagens. Scorsese ainda “resolve esse problema” não criando um assassino maluco, mas sim alguém que apenas faz aquilo que deve ser feito.

Sheeran vive em um mundo onde quebras de confiança e vingança se misturavam com honra e Scorsese coloca o personagem bem no meio de uma trama que dura algumas décadas e não perde o foco. O reflexo de cada momento constrói os dois finais, o de Hoffa e o de Sheeran no asilo, tudo isso contado de modo bem construído, fluido, clássico e ágil.

Scorsese ainda acrescenta uma dose de realidade ao escorregar pela realidade e esbarrar em algumas dezenas de mafiosos reais enquanto aponta suas mortes futuras. Algo que parece simples, mas que posiciona O Irlandês ainda mais dentro desse mundo real e da ideia de estar contando uma versão verdadeira de um fato que até hoje permanece misterioso e sem solução.

Não para Scorsese, e talvez muito menos para quem ver O Irlandês, que com certeza acabarão o filme convencidos da veracidade dos fatos.

E falando no assassinato de Hoffa, Scorsese prepara todo seu filme para esse momento e constrói não só uma cena de ação, mas sim uma oportunidade de, enfim, o espectador conseguir soltar o ar, já que tensão montada pela sequência toda e tanto de cortar o coração, quanto de tirar o fôlego. Sheeran se livra do peso, fecha a porta à suas costas e mergulha nessa culpa que agora o move junto com a honra e a fidelidade de não aceitar entregar àqueles que estarão ao seu lado para sempre.

É lógico que isso tudo não funcionaria se Scorsese não tivesse montado o que talvez seja o elenco dos sonhos de qualquer cinéfilo. Em certo momento de O Irlandês, com alguns cortes simples pipocam na tela, além de De Niro e Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel, e isso é suficiente para O Irlandês ser para sempre lembrado.

Keitel aparece pouco, mas cada momento é único e mostra o quanto ele é um daqueles atores que fazem o cinema maior. Já Pesci e De Niro ainda ganham uma ajuda da tecnologia e rejuvenescem para participarem da história inteira. Os efeitos são incríveis e possibilitam que ambos atuem em todas fases do filme. E são atuações inesquecíveis. Mesmo O Irlandês sendo um filme comedido, sem grandes explosões ou arroubos, ambos entendem perfeitamente bem os tons de seus personagens e encaixam bem essa dinâmica. Na verdade, Sheeran é o ponto de referência para a personalidade de Hoffa e Russel Buffalino (Pacino e Pesci).

Sheeran é hesitante, sabe que está à sombra de ambos os personagens, De Niro cria alguém único, que não foge do “jeitão do ator”, mas embarca nessa fragilidade e insegurança em cada gesto que parece não querer sair. Sempre andando em uma corda bamba onde sabe que é o cara mais perigoso da sala, mas ao mesmo tempo o que tem menos poder.

O Russel Buffalino de Pesci não é um daqueles personagens histéricos do ator, essa nova personalidade é precisa e sabe que não precisa falar muito para falar o que é preciso. Pesci é a cara dessa “persona” econômica e sem extravagância de Scorsese, valorizando cada olhar e tomando de assalto qualquer cena. O perigo de sua presença não está ligado à selvageria de seu Tommy DeVito em Os Bons Companheiros, mas sim a uma aura de poder. Algo que transcende qualquer gesto e que, por exemplo, deixa claro a razão da filha de Sheeran se afastar dele a todo custo.

Entretanto, a mesma Peggy (Paquin) se sente atraída pelo outro lado dessa moeda: o Hoffa de Pacino. Enquanto Pesci e De Niro se escondem nesse submundo, Pacino é uma força da natureza e toma o filme de assalto. Scorsese permite que seu filme seja espalhafatoso e barulhento, justamente, quando Pacino entra em cena e esfrega na cara do espectador um personagem cheio de vida, expansivo, que fala alto, desafia e não acha que é dono do mundo, tem a mais absoluta certeza disso.

No final das contas Hoffa e Buffalino são dois lados de uma mesma moeda, talvez Sheeran seja essa moeda, e que de tanto que é jogada para o alto, termina maltratada e riscada como uma foto antiga. Com arrependimentos que deixaram marcas nessa moeda, mas que, irremediavelmente ela foi ficando esquecida e precisa explicar para a enfermeira o significado de cada memória, afinal o tempo passou.

O irlandês não conversa com Cassino ou Os Bons Companheiros a respeito de sobrevivência e o que deve ser feito para permanecer vivo, mas sim entende o quanto a fidelidade e a honra podem permanecer intocáveis mesmo diante dos anos que se amontoam nas contas de quem ainda permanece vivo para contar a história.


“The Irishman” (EUA, 2019), escrito por Steven Zailian, a partir do livro de Charles Brandt, dirigido por Martin Scorsese, com Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Anna Paquin, Jesse Plemons, Bobby Cannavale, Ray Romano e Harvey Keitel.


Trailer do Filme – O Irlandês

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