O Artista | Sonho de todo clichê


Para os fãs de cinema, O Artista é o sonho de todo clichê, principalmente daquela disputa infinita entre a crítica e o público. De um lado… bom, de um lado problema deles, aqui, contente-se com o lado da crítica que, vai sim, elogiar o filme de Michel Hazanavicious até não poder mais.

Não por ele ser mudo, preto e branco e francês (sim, se existe um cinema que os críticos “gostam mais” que o iraniano, como o público adora falar, é o da França), mas sim por ser um exercício tremendamente corajoso de ir em busca de um uma época, quase um mundo, tão distante, delicioso e que os espectadores de hoje, aparentemente, se esquecerem de celebrar.

O Artista é uma homenagem ao cinema, mas mais que isso, aos seus primórdios e ao choque da primeira revolução que ele sofreu e do quanto teve que ter coragem para sobreviver nesse novo mundo (assim como, a seu jeito, Cantando na Chuva o fez). É nesse cenário que O Artista apresenta o astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin), uma espécie de Douglas Fairbanks (além de seu nome recorrer ao “sex-symbol” Rodolfo Valentino), mas que acaba vendo todo seu estrelato em risco quando o cinema ganha voz e ele (assim como Charles Chaplin) prefere negar tal evolução, prevendo nisso o fim da arte.

Mesmo primando pela ausência de diálogos Chaplin ainda conseguiu sobreviver ao som (mesmo que isso tenha sido um prego em seu caixão), diferente de George Valentin que, aos poucos, vai se perdendo e sendo esquecido. Por outro lado, Peppy Miller (Bérénice Bejo), assim como um punhado de estrelas do recém-nascido cinema falado, não só conseguiu fazer a transição como acabou se tornando umas das vozes desse novo cinema, já que, de participações apagadas e pontas, seu nome passa a crescer nos créditos e cada vez chegar mais alto.

O irônico disso, e o que carrega a trama de O Artista é que foi o próprio Valentin quem apostou nela pela primeira vez, uma relação que então cresceu nesse amor entre os dois, mas que se esconde pela ascensão e queda desses dois lados do cinema. Como em um Assim Nasce uma Estrela (aqui muito mais leve e descompromissado), ela então passa a tentar ajudar Valentin que parece cada vez mais rumar para um fim trágico.

É lógico que a história de Michel Hazanavicious não prima pela profundidade, já que tem completa segurança de até onde pode ir com todas as referências, mas isso não quer dizer que O Artista seja menos pertinente. Ainda mais para os amantes de cinema.

O Artista Filme

Hazanavicious celebra aquele cinema que se emocionava a cada frame, que se permitia ser orquestrado ao vivo por um maestro e seus músicos, um cinema que sabia o perfeito significado da imagem (e não do instante), onde não existia pressa e seus astros e estrelas precisavam ser mais que bocas cuspindo diálogos. O Artista busca então o lirismo do próprio braço por dentro de um paletó fingindo ser a mão de seu amor, o mesmo lirismo dos olhares, dos gestos e da vontade de ultrapassar aquela enorme tela e chegar ao espectador.

É lógico que, mesmo com todas as referências, a grande arma de O Artista não é homenagear uma época e um estilo (como Los Angeles Confidencial fez com o noir), mas sim reproduzir e viver aquele momento mais uma vez. Desde as atuações exageradas (muito embora ambas sensacionais e completamente tomadas pelas possibilidades da linguagem, dos gestos, das sobrancelhas e do charme) à fotografia e direção (sem contar todos outros fatores) todos parecem ir juntos em busca desse filme mudo de 1929. Mais importante que isso, e o que mais faz O Artista funcionar dentro do cinema moderno, é, justamente, não refazer cegamente, mas sim reproduzir dentro de suas possibilidades.

A se modo, O Artista mostra então que é o melhor filme da década de 20 que Hollywood poderia produzir nos dias de hoje, e que, ironicamente isso só conseguiria ser feito com a sensibilidade dos franceses. Coisas do cinema.

Hazanavicious foge então do incômodo que uma montagem característica da época pudesse trazer ao ritmo do filme, e então preserva o andamento muito mais graças a precisão de sua câmera do que por seus corte. Com planos longos e fixos, que até se deixam levar por certa liberdade de movimento, mas sem esconder a admiração do diretor pela incrível fotografia em preto e branco, tampouco pela recriação de época, igualmente sensacional.

E se, por um lado Hazanavicious imprimi essa montagem paralela nos momentos finais para enganar seu público com um “bang” em um momento deliciosamente mudo que serve para criar todo suspense de um final climático – e aqui um adendo lembrando que, para muitos, depois do som, a única provável revolução que tenha mudado a linguagem do cinema tenha sido a relacionada a sua montagem – por outro não economiza simplicidade em colocar os dois personagens conversando nas escadarias do estúdio (cortadas para que o público os veja através da parede, aspecto que o cinema também esqueceu através dos tempos e de planos muito mais próximos), ele descendo derrotado em seu próprio mundo e ela subindo, sorridente e agora, provavelmente, indo ocupar o lugar dele na folha de pagamento. Tudo com o objetivo de recriar (e talvez por que não discutir) o cinema como organismo vivo, que evolui. Cresce.

O Artista Filme

O Artista então é esse exercício onde tudo vale para provar o quanto ele conseguiria se manter dentro desse filme dos anos 20, e para isso Hazanavicious tem a humildade de perceber que está cercado de acertos, e não perde nenhuma oportunidade de explorar isso. É fácil perceber isso em momentos como da criação dos dois ambientes do personagem principal, durante o sucesso e em sua derrocada, em que o diretor deixa o visual falar por si só, com essa enorme leveza para diferenciar esses dois momentos e perder um pouco do brilho (e da finura de seu bigode) nesse momento em que sua carreira ruma para baixo. Juntando então esse capricho visual com uma trilha sonoro que capta perfeitamente o clima clássico, O Artista é então um exemplo de união entre forma e conteúdo. Um exemplo daqueles que impressionam.

Entretanto, seu conteúdo não vem de sua história, que, por si só, não procura negar sua simplicidade, já que concorda que muita profundidade narrativa talvez esbarrasse nas barreiras da linguagem e impedissem muita gente de sair do cinema entendendo o que estava acontecendo (e isso não é um exagero). O próprio filme discute isso na presença cachorro do protagonista (que, como o próprio astro lembra, “só não é mais fofo por que não fala!”), principalmente no momento em que o policial demora a entender o que o cachorro quer, bem diferente do que aconteceria enquanto o cinema se calava diante das imagens. Que Darwin nos desculpe, mas nesse caso, o desuso de Lamarck fez com que platéias inteiras deixassem de entender o que não estava sendo falado.

E não, O Artista não parece ter nascido para passar a mão na cabeça de ninguém, muito menos do cinema falado. Mostra sem o mínimo pudor o quanto uma gag boba envolvendo uma troca de nomes (no caso a expressão “eu e ele” dentro de uma frase) não tem a mínima graça sem o som, sem uma trilha sonora para chamar de sua, e, por outro lado, até discute um certo exagero das atuações do cinema mudo, mas de modo a tais palavras parecerem muito mais um momento de fraqueza e ignorância da estrela do que uma opinião. Sobre qualquer coisa, O Artista então é sobre o cinema mudo e toda sua beleza e poesia.

O Artista lembra então que o som revolucionou o cinema, mas sobreviveu pouco enquanto só esses diálogos eram suas estrelas e logo necessitou da imagem para que o show continuasse, já que os musicais se tornaram a evolução natural desse espetáculo que O Artista tenta trazer de volta aos dias de hoje, apaixonante, inesquecível e que representa muito mais que mil palavras.


The Artist (Fra/Bel, 2011) escrito por Michel Hazanavicious Michel Hazanavicious , com Jean Duhardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller e Uggie.


 

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5 Comments

  1. Muito obrigado Matheus… espero que comente mais vezes…
    Abraços…

  2. muito bom conteúdo, se não , uma das melhores criticas que já li. virei fã do site. parabens

  3. Excelente!! Confesso que sou muito fã do talentoso ator John Goodman e da série Treme na qual ele atua muito bem, como sempre. A trama não poderia ser mais comovente, iremos descubrir os novos desafios que enfrentam os cidadãos de Nova Orleans após o furacão Katrina. Mal posso esperar pela nova temporada!!

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