A Nona Vida de Louis Drax | Parece drama, mas é um suspense que pega um caminho bem pesado

A Nona Vida de Louis Drax Filme

Muito cuidado. A Nona Vida de Louis Drax, pela sua premissa, pode se disfarçar facilmente de algo mais bonitinho do que na verdade é. Conta a história de uma criança que vivia sofrendo acidentes trágicos durante toda a infância até ficar em coma no seu nono aniversário. Crianças em coma geralmente remetem a dramas onde os pais estão sempre presentes e a fé de todos colabora para o triunfo de sua recuperação. Aqui não há nada mais distante que isso.

Ou talvez ele contenha, em seu núcleo, alguma semelhança com histórias de superação. Porém, o clima de mistério é tão pesado, que esse thriller psicológico que flerta com o sobrenatural nos mantém mais envolvidos com o enigma por trás do último acidente do garoto do que com o destino do pequeno Louis Drax. Aliás, pequeno é um adjetivo que pode ser aplicado apenas à sua estatura e pouca idade. O personagem interpretado por Aiden Longworth é dotado de grandes observações sobre a vida para uma criança, seu uso de ironia e sarcasmo criam uma visão fria e pessimista de sua realidade que remete diretamente a seu psicólogo ser um sujeito de meia-idade, gordo e que está constantemente segurando sua caneca de café (o divertido e comedido Oliver Platt).

Alguém poderia dizer que um garoto de nove anos na vida real nunca teria ideias tão macabras quanto o “Direito de Descarte”, uma regra secreta que utiliza para eliminar (literalmente) os hamsters que ganha de presente, e nem diálogos tão afiados a respeito dos desastres que prenunciam toda presença masculina na vida de sua mãe. E esse alguém estaria certo. O roteiro do ator Max Minghella (que estreia na escrita) baseado no romance de Liz Jensen possui ótimos momentos quando cria uma atmosfera triste e amargurada da vida, mas peca por utilizar um garoto como ponto focal dessa atmosfera, revelando que suas ideias obviamente não podem ser realmente, ou pelo menos, inteiramente suas.

De qualquer forma, a história é conduzida por Alexandre Aja em uma mistura de caso policial com drama clínico de uma maneira claustrofóbica, alternando sonho com realidade e fazendo-nos crer que os sonhos fazem parte central na trama. Uma opção que remete a trabalhos oníricos mais ambiciosos, como Onde Vivem os Monstros e até O Labirinto do Fauno, mas que aqui sempre escapan no tom que deseja dar à narrativa. Se por muito tempo a história cozinhada em “banho maria” consegue engatar nesse universo, aqui e ali há tropeções de quem faz um thriller genérico e se esquece que este é acima de tudo um drama. A visão de um garoto olhando de maneira zumbificada por uma janela não é aterrorizante, mas deveria tal cena fazer parte deste filme que lida com emoções complexas e relações doentias de dependência?

Por outro lado, a curta participação de Aaron Paul (Breaking Bad) é por si só uma grata surpresa, pois apresenta um pai que vive em eterno conflito consigo mesmo, e que tenta desesperadamente dar um pouco de apoio emocional a uma criança enquanto sobrevive em um relacionamento aparentemente desgastante.

A Nona Vida de Louis Drax Crítica

O que nos leva à personagem de Sarah Gadon (O Homem Duplicado), Natalie. A criação de Gadon é efêmera e estática, pelo bem do mistério, mas até personagens secundários como Oliver Platt e Jamie Dornan (sim, ele vira um secundário) conseguem entregar o ar da dúvida sendo exageradamente reservados. Natalie não. Ela é a obviedade percorrendo os corredores de um hospital, e cujo comportamento desde sempre soa inadequado, embora seu papel de mãe amorosa possa estar anestesiado por ser a parte fraca da relação com o personagem de Aaron Paul. De qualquer forma, este não é um filme onde o elenco ajude muito.

E por isso mesmo é um trabalho curioso. Ele depende de personagens que se tornam insatisfatórios, mas possui uma narrativa coesa o suficiente para conseguir nos levar de cabo a rabo através de uma história não-linear que é coberta de sonhos e pesadelos e que mantém em seu núcleo um mistério mais ou menos simples de ser desvendado, mas que se torna poderoso ao percebermos como pessoas e relacionamentos podem ser doentios.

Sim, A Nona Vida de Louis Drax não é um filme bonitinho. Na verdade, próximo do final, você irá notar que ele é bem horrível, o que poderá lhe dar a impressão de ser um filme ruim. No entanto, quando um filme se torna detestável por apresentar personagens horríveis, é porque ele, de fato, conseguiu mexer com alguma coisa dentro de nós. Talvez apenas por isso essa não seja uma sessão jogada no lixo. Desgastante… mas curiosa.


“The 9th Life of Louis Drax” (UK/Can/EUA, 2016), escrito por Liz Jensen e Max Minghella, dirigido por Alexandre Aja, com Jamie Dornan, Aiden Longworth, Sarah Gadon, Michael Adamthwaite, Aaron Paul


Trailer – A Nona Vida de Louis Drax

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