por Wanderley Caloni
14 de dezembro de 2017

Mulheres nas ruas com placas de protesto dizendo “não somos animais de estimação”. Queima de sutiãs em praça pública. Amor livre sob o efeito de drogas. Calças boca de sino. Para quem não conhece muito bem os detalhes por trás do movimento feminista dos anos 70 pode achar tudo um grande exagero. E Mulheres Divinas vem aí atualizar a cartilha das pessoas e até das atuais feministas, demonstrando todo o mecanismo por trás do porque, afinal de contas, as mulheres reclamavam tanto da louça.

E esse mecanismo possui detalhes que ninguém sente, mas estão aí. Os homens mandam e desmandam na sociedade, mas isso parece o estado natural das coisas (pelo menos para eles). Eles nasceram para mandar e elas nasceram para cuidar. Está na Bíblia. Fim de papo.

O problema é quando uma pequena semente é plantada na cabeça de Nora (Marie Leuenberger), uma dona de casa em um vilarejo isolado da Suíça. Em plena revolução social nas grandes cidades, esse vilarejo é o microcosmos que irá explicar o que está acontecendo no mundo de maneira simples e didática. E como toda mudança, ela começa com uma ideia.

Nora se sente entediada com os afazeres do lar e sente o desejo de trabalhar fora para mudar um pouco de ares. Observamos também o mundo em que ela está inserida através de seus lindos olhos. Ela comenta com o marido sobre trabalhar fora no dia em que ele é promovido a gerente onde trabalha. Não há a necessidade de mais dinheiro para a família. Se trata apenas do desejo de uma mulher de mudar um pouco sua vida.

Da união entre as ideias que permeiam seu mundo e da sua insatisfação com tudo aquilo nasce o movimento feminista na minúscula região. Novas causas vão se juntando, como a liberdade de uma jovem em sair com quem quiser, ou a pauta política mais recente: o direito das mulheres de votar. Gerações se unem, alianças se formam. Cada mulher nesse filme representa uma necessidade de mudança ou reparação, e por serem até certo ponto estereotipadas, elas representam as diferentes esferas que iniciaram o movimento feminista daquela época.

Mulheres Divinas Crítica

A direção de Petra Volpe é feita da forma mais convencional possível. É um filme que não se interessa em chamar atenção para si mesmo, exceto em alguns momentos cômicos. Escolhido como o filme para representar a Suíça no Oscar, o roteiro, também de Volpe, é muito mais poderoso que a narrativa do filme, que é tedioso e burocrático. A história se torna muito mais fascinante de acompanhar, pois nela observamos os intrincados mecanismos de poder que revelam ao espectador que o movimento social que vai se desenvolvendo é muito mais político que ideológico.

Ou pelo menos era. Antes mulheres não podiam votar e precisavam da aprovação do homem para tomar qualquer decisão de suas vidas. Seu comportamento estava sendo monitorado todo tempo e era controlado pelo marido/pai. Não havia liberdade de pensamento, quem dirá de ação. E o longa de Petra Volpe nos explica tudo isso com uma produção decente, trilha sonora da época (e épica, como “You Don’t Own Me” de Lesley Gore) e uma direção de arte e figurino que se diverte menos do que devia com os estereótipos da época. A parte mais catártica do filme é uma reunião de lunáticas onde se venera o órgão sexual feminino como o terceiro olho.

E tudo isso serve de cartilha para o movimento feminista de hoje, que é seu exato oposto. Se preocupando mais com ideias do que ações (talvez porque as ações hoje em dia sejam inócuas; se luta pelo quê?). Então, de certa forma, enquanto Mulheres Divinas realiza um trabalho impressionante em destrinchar o passado do feminismo de maneira fácil e acessível ao espectador, que entende o movimento através das motivações das personagens (elas precisam aprovar o voto feminino para conseguir mudar leis machistas), ao mesmo tempo revela a futilidade dos movimentos nos dias de hoje (berrar quando homens abrem as pernas em transporte público), e cuja motivação pode ser medida pela mesma atitude dos homens daquela época. Quando uma mãe diz aos seus filhos que a partir de agora eles irão lavar a própria louça, um deles responde com um misógino “mas eu sou homem!”.

Agora imagine a mesma cena com os gêneros trocados hoje em dia e entenderá como o filme escancara o problema do mundo hoje: pessoas que estejam dispostas a lavar a louça sem reclamar. E se lavassem a louça ficariam menos dispostas a reclamar da vida como se ela devesse algo para elas, mas se houvesse algo de fato a reclamar, elas quebrariam a louça. Homens e mulheres.


“Die göttliche Ordnung” (Sui, 2017), escrito e dirigido por Petra Biondina Volpe, com Marie Leuenberger, Maximilian Simonischek, Rachel Braunschweig, Sibylle Brunner, Marta Zoffoli


Trailer – Mulheres Divinas

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