Enquanto Batman e Superman dão as caras com relativa frequência nas telonas, a terceira figura da Trindade da DC, a Mulher Maravilha, demorou quase 75 anos para surgir nos cinemas em uma produção live-action. Um descaso que foi se tornando cada vez mais pronunciado diante do número crescente de adaptações de quadrinhos, sempre com personagens masculinos no centro da narrativa. Por outro lado, a boa notícia é que o primeiro longa-metragem solo da maior heroína de todos os tempos é uma obra à altura de sua protagonista.

Com uma breve introdução que remete à conclusão de Batman vs Superman: A Origem da Justiça , Mulher Maravilha logo nos transporta à infância de Diana em Themyscira, uma ilha paradisíaca escondida da humanidade. Ali, a garota cresceu ao redor das Amazonas, criadas pelos deuses para proteger os homens de Ares, o Deus da guerra. Como a Rainha Hippolyta (Connie Nielsen) conta para Diana, sua filha, Zeus conseguiu aprisionar Ares, livrando a humanidade de sua influência maligna. Entretanto, as Amazonas continuam treinando e se preparando para proteger os homens quando Ares recuperar suas as forças e retornar.

Diana foi esculpida em barro por Hippolyta e trazida à vida pelo próprio Zeus e, assim, possui habilidades além dos talentos exibidos pelas demais Amazonas. A princesa cresceu fascinada pela chance de aprender a lutar, a se defender e, mais do que tudo, batalhar em nome daqueles que não podem proteger a si mesmos. Contrariando a rainha, ela iniciou seu treinamento cedo, guiada pela General Antiope (Robin Wright). Assim, quando o piloto e espião Steve Trevor (Chris Pine) cai na ilha enquanto fugia do exército alemão, Diana (Gal Gadot) supera o estranhamento causado pela presença de uma figura masculina e, contrariando sua mãe, parte ao lado dele para ajudá-lo a acabar com o conflito que pode dizimar a humanidade: a 1ª Guerra Mundial.

O primeiro ato se dedica a Themyscira e às Amazonas, contextualizando a criação de Diana e os fundamentos que a transformaram em uma mulher repleta de coragem, força, bondade, compaixão e esperança. Antiope, vivida pela fantástica Robin Wright, transmite todo o poder e competência de seu povo mesmo com seu pouco tempo de tela. A ilha é habitada somente por mulheres e é fascinante testemunhar a presença de tantas personagens femininas fortes e competentes trabalhando lado a lado para manter e proteger seu lar.

Assim, quando Diana deixa a ilha e chega a Londres, ela naturalmente questiona o comportamento das demais mulheres: como elas conseguem lutar de vestido longo e espartilho? O quê? Elas não lutam? O clamor pela independência feminina de Mulher Maravilha surge sempre com naturalidade, como nos momentos em que Diana declara a Steve que ela vai tomar suas próprias decisões de acordo com seus princípios, quer ele concorde ou não. Mas, é claro, não são apenas as limitações impostas sob seu gênero que Diana estranha ao se aventurar por nosso mundo. O resultado são momentos divertidos como a primeira vez em que a heroína experimenta um sorvete, ou quando marcha para fora de uma loja vestida como uma perfeita dama londrina e… empunhando sua espada e seu escudo.

Comandando seu segundo filme após estrear como diretora com o excelente Monster: Desejo Assassino, Patty Jenkins confirma aqui o potencial apresentado na obra de 2003. Seguindo o roteiro assinado por Allan Heinberg (com história creditada também a Zack Snyder e Jason Fuchs), Jenkins entrega um longa-metragem coeso e seguro. As cenas de luta e de guerra são sempre envolventes, criadas a partir de uma mise-em-scène que não apenas permite que acompanhemos tudo com clareza, mas que ilustra toda a força da protagonista. Cada plano de Diana é construído para realçar seu poder, imediatamente colocando-a em um patamar (muito) acima de seus oponentes. Ao mesmo tempo, ela jamais deixa de ser bela e graciosa, e Jenkins consegue transmitir todas essas características de Diana ao mesmo tempo, ou seja, consegue estabelecê-la como a Mulher Maravilha. Enquanto seus inimigos atiram descontroladamente e atacam com agressividade, Diana dança e desliza pelo campo de batalha, movimentando-se com uma leveza que apenas exalta as origens divinas de seu poder.

Isso tudo sem jamais sexualizar Gal Gadot, mesmo incluindo comentários sobre sua beleza e considerando o traje revelador da personagem. Méritos de ter uma mulher no comando da história da maior heroína dos quadrinhos. E Gadot encarna Diana Prince com louvor, transmitindo toda a energia, carisma e poder da personagem. Seja em seus momentos de inocência, descoberta, bravura, medo ou leveza, a atriz faz um belo trabalho em capturar a essência da Mulher Maravilha e a maneira com que sua divindade e magia fazem dela um ser à parte das demais pessoas ao seu redor, mesmo enquanto ela descobre a própria humanidade.

Mulher Maravilha Crítica

Para estabelecer a crescente conexão de Diana com o mundo dos homens e sua descoberta de toda a complexidade e fascínio que eles representam, Steve Trevor surge como um par romântico digno da heroína. Chris Pine faz do espião um homem charmoso, inteligente e corajoso, que divide com Diana o desejo de não se manter passivo diante do conflito. Dessa forma, a aproximação dos dois é natural e, mesmo sendo fundamental para a trama e para o arco dramático de Diana, o romance está longe de ser o ponto principal na história da heroína. Afinal, a Mulher Maravilha não depende de ninguém para comandar seu próprio longa. Ao lado dos dois, lutam também o índio Chief (Eugene Brave Rock), o marroquino Sameer (Saïd Taghmaoui) e o escocês Charlie (Ewen Bremner). Mesmo sem conhecer muito de suas trajetórias, os três se estabelecem como personagens interessantes e carismáticos, sendo vividos por atores talentosos.

O mais importante, entretanto, é notar como cada um deles tem a oportunidade de se estabelecer enquanto indivíduos de suas respectivas culturas: Chief fala sobre o genocídio sofrido por seu povo nas mãos dos homens brancos; Sameer desabafa sobre como sua etnia o impediu de seguir seus planos de vida; e Charlie representa sua cultura através da música e do kilt que veste. Sem que o roteiro precise escancarar isso, cada um deles representa diferentes facetas da protagonista: o afastamento de sua cultura e de seu lar, as novas limitações descobertas na sociedade humana, a fragilidade (e a resistência) diante do opressor. Nada mais adequado para uma personagem que, ao longo das décadas, se tornou um símbolo do feminismo e da representatividade, sempre lutando em nome da empatia e do respeito. Enquanto isso, em Londres, Etta Candy (Lucy Davis), secretária de Steve, diverte ao prontamente se identificar com as ideias “libertárias” de Diana sobre o comportamento das mulheres.

Por sua vez, os antagonistas — o General Ludendorff (Danny Huston) e a Dra. Veneno (Elena Anaya) — não recebem uma caracterização particularmente complexa, mas conseguem se estabelecer como inimigos perigosos e cumprir o papel de demonstrar o quanto, apesar de toda a bondade e amor de que os humanos são capazes, também pode haver algo maligno ali. Afinal, Mulher Maravilha trabalha justamente com a ideia de que a humanidade não é apenas boa ou ruim, mas desenhada em tons de cinza que, de acordo com nossas escolhas, podem pender para um lado ou para o outro. Os vilões, portanto, portam surgir de qualquer lugar — assim como os heróis.

Pois a Mulher Maravilha sempre representou a esperança, a compaixão e a coragem. Como Diana narra na introdução do longa, fazer o que ela acreditava ser o certo se mostrou “mais difícil do que você poderia pensar”, mas ela nunca deixou de fazê-lo. Foi assim que ela se destacou dentro da DC Comics e, agora, como vai se destacar dentro do universo dos super-heróis no cinema. E é fascinante perceber como descobrimos tudo de que Diana é capaz ao mesmo tempo em que ela se autodescobre e estabelece seu propósito, já que, antes de partir para Londres, a princesa vivia protegida e isolada no paraíso. Assim, depois de toda a graça e precisão demonstrada até então no campo de batalha, há um momento em que Diana finalmente libera sua raiva, seu medo, e parte para o ataque como um furacão. E isso é de arrepiar.

Embalado pela trilha sonora energética e forte de Rupert Gregson-Williams (a música-tema de Diana, que conhecemos em BvS, continua sensacional), Mulher Maravilha é construído com precisão pelo montador Martin Walsh, que mantém as 2h21 de duração do longa sempre envolventes e fluidas, com um ritmo que faz com que mal percebamos o tempo passar. A vontade é de permanecer ao lado de Diana em suas batalhas em nome da humanidade.

Felizmente, a Mulher Maravilha retornará ao lado de Batman, Superman, Flash & Cia. em novembro, como parte da Liga da Justiça. Enquanto isso, seu primeiro filme-solo se estabelece como sendo, de longe, o melhor filme do Universo Estendido da DC até agora (OK, não que isso seja difícil). Demorou para ela chegar até aqui, mas a espera valeu a pena.


“Wonder Woman” (EUA, 2017), escrito por Allan Heinberg, dirigido por Patty Jenkins, com Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, David Thewlis, Lucy Davis, Danny Huston, Elena Anaya, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Saïd Taghmaoui, Doutzen Kroes, Mayling Ng, Eleanor Matsuura e Samantha Jo.


Trailer – Mulher Maravilha

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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