Há um momento em Muito Romântico em que sua protagonista faz uma relação entre as memórias que carregamos na vida e uma colcha de retalhos. A colcha inteira, de acordo com ela, não tem sentido (assim como na vida). Porém, cada pequeno retalho mantém seu significado. Isso vale para as memórias que acumulamos durante a vida.

Nessa cena um dos retalhos pega fogo por debaixo da colcha, pois a pessoa que está debaixo dela coloca fogo. Isso cabe perfeitamente nessa analogia. O retalho queimado é o efeito de alucinógenos que queimam algumas de nossas memórias. Mas algumas vezes um pouco de drogas pode ser necessário na vida. Como para assistir esse filme, por exemplo. Talvez com isso, essa colcha de retalhos que é o filme, faça algum sentido.

O sentido do filme, diferente do que você pode imaginar, não está no seu título. “Muito Romântico” é uma falsa apresentação, já que este ele é um filme anti-romântico, anti-conhecimento, meio esotérico ou cientificista com esotérico. Ele pode ser outras coisas, também (depende do seu nível de drogas). Porém, o que ele não pode ser, de jeito nenhum, é romântico.

Ou o romantismo desse século parece ter sido rebatizado. Romantismo era sobre valores e ideais. Os românticos eram a representação de alguém que buscava ou era o ideal de algo. Aqui talvez apenas o ato de fazer o filme possa ser chamado de romântico, mas não seu resultado.

A história é sobre um casal que viaja em um navio cargueiro em direção à Alemanha para uma nova vida. Iniciando com uma sequência lenta que mostra como uma viagem pelos mares pode ser cansativa, também descobrimos que eles gostam de tirar fotos e filmar. São artistas contemporâneos, uma época gloriosa para qualquer um que queira chamar qualquer coisa de arte. Gloriosa menos para a Arte, talvez.

Então descobrimos que este é um pseudo-documentário, ou um documentário filmado, roteirizado e dirigido por eles mesmos. Qual o roteiro? A primeira cena, uma leitura de uma poesia, já nos dá uma dica. Se trata de uma lista interminável de palavras e expressões vazias. Vazias se lidas em conjunto, mas cada uma delas talvez tenha o seu significado. Ainda lembra da colcha de retalhos?

Muito Romântico Filme

Há um fiapo de premissa, isso é verdade. Depois que chegam na Alemanha, um amigo ajuda o casal na pequena reforma do quarto para onde se mudam e onde praticamente toda a ação irá acontecer a partir daí. Ele comenta que é hora de parar de perder tempo com festas, bebidas e drogas e passar a produzir algo. Para a posteridade, diz ele. O significado da vida parece ser, agora, ter feito algo que deixe sua marca no mundo. O rapaz, Gustavo, concorda. Mas logo em seguida ele e Melissa dão uma festa. Talvez apenas de boas-vindas, mas, sabe como é, com drogas e bebidas.

A partir daí o quarto vai mudando, e eles mudam junto. Seus rostos são maquiados e as paredes pintadas. Um círculo redondo e preto é pintado do lado de um criado-mudo, e é dentro dele que ambas essas Alices, marido e mulher, cada um ao seu jeito, chegam no País das Maravilhas.

A despeito de talvez tentar abrir horizontes com uma história não-convencional, a tela é quadrada e a fotografia não muito ajeitada (principalmente em alto-mar, que é sofrível), o que nos remete de volta para o gênero documentário. Alguns conceitos são interessantes, como a imaginação de cada um deles junto com a versão mais velha do parceiro. Mas documentários costumam funcionar melhor quando seus personagens fazem coisas interessantes. Aqui são duas pessoas desprovidas de algum talento marcante tentando “deixar sua marca no mundo”.

E quando a única marca é um buraco de nanquim pintado na parede de onde sai uma sequência caótica de fotos de suas vidas, soando como uma versão psicodélica da famigerada “hora de mostrar as fotos” que toda festa de casamento tem, fica até fácil recomendar: se for assistir Muito Romântico, que seja sob o efeito de drogas. Ou que você concorde com Melissa, e já tenha memórias de sua vida que não faça muito sentido vistas em conjunto. Assim como esse filme.


“Muito Romântico” (Ale/Bra, 2016), escrito e dirigido por Melissa Dullius, Gustavo Jahn, com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Gustavo Beck, Kana Chiaki, Aqico Coco


Trailer – Muito Romântico

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