Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres | O “filmaço” que todos esperavam


Diferente da maioria dos outro remakes, a versão hollywoodiana de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres tinha algumas razões para existir que não apenas tirar as legendas para o público americano pouco acostumado a elas. Primeiro em relação à versão sueca, mesmo país onde foi escrito o Best Seller de Stieg Larsson e que resultou fraca e despretensiosa diante do material que tinha em mãos, e segundo, pela presença de David Fincher na direção, o que poderia tornar tudo muito mais interessante.

O bom disso tudo é que ambas razões acabam se mostrando acertadas, mesmo que, de certa forma, Fincher não tente fugir muito do que o dinamarquês Niels Arden Oplev se esforçou em fazer na versão original. A diferença então acaba sendo nos detalhes, na plasticidade que o diretor americano empresta ao filme. Desde os créditos iniciais, o Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres de Fincher parece à procura de um incômodo visual. Um modo de chocar e sufocar o espectador com seu estilo.

Mas, talvez ambos não decolem pela mesma razão, esse impedimento de levar ao cinema o que mais sobressai no livro: sua trama bem amarrada, já que se isso fosse tentado o filme teria bem mais que suas duas horas e meia.

Nela, Mikael Blonkvist (Daniel Craig) é um repórter econômico, e um dos sócios da revista que dá nome ao filme (não a da parte das mulheres), que, diante de uma reportagem que denunciava um grande empresário sueco, acaba perdendo toda sua credibilidade, o que coloca sua carreira em risco. Os Homens que não Amavam as Mulheres tem início então com esse velho milionário (Christopher Plummer) que acaba contratando Blonkvist para solucionar o suposto assassinato de uma sobrinha sua, um crime que teria acontecido quarenta anos atrás e só poderia ter sido cometido por um de seus familiares.

Mas como o titulo em inglês prefere chamar, o filme acaba sendo muito mais sobre essa “Garota com a Tatuagem de Dragão”, no caso, uma investigadora de uma companhia de segurança, toda tatuada e cheia de piercings, que atende pelo nome de Lisbeth Salander (Rooney Mara) e que acaba se metendo nesse misterioso assassinato depois de escrever um dossiê sobre Blonkvist (para seu empregador) e mais tarde ao se tornar sua assistente.

Diante do mesmo “problema” do sueco, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres então cai nas graças de Lisbeth, já que não consegue, durante a primeira parte, desenvolver Blonkvist suficientemente bem, o que tornaria o filme um pouco arrastado demais antes de apresentar sua verdadeira história. Com isso, o repórter acaba só ganhando um pouco de profundidade quando vê sua personalidade se chocar de frente com a genialidade caótica de Lisbeth. Essa sim, praticamente íntima do espectador.

Durante todo começo de investigação, onde Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres apenas coloca as peças dos devidos lugares e vai apresentando toda trama à Blonkvist, acertadamente, Lisbeth ganha vida nesse sub-trama paralela que a desenvolve de modo, ai sim, extraordinário e visceral. Portanto, quando o espectador vê-la aceitando tal trabalho, não só vai entender perfeitamente suas motivações como vai torcer para que ela encontre o culpado e dê uma verdadeira surra nele.

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres still

Nesse momento Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres ganha uma enorme vitalidade narrativa e Fincher então têm a oportunidade de bagunçar aquela paisagem árida e gélida, onde Blonkvist já parecia perdido em sua investigação, levando um pouco de caos (no bom sentido) para toda ela.

Para segurar toda essa responsabilidade, Rooney Mara (aquela mocinha sensível que deu um pé na bunda de Mark Zuckerberg no começo de A Rede Social) percebe o quanto isso pode ser desafiador e cai de cabeça nessa personagem caótica, sexy e irresistível. Com uma composição corporal impressionante, Mara ainda dá um ritmo completamente único à personagem, visceral e verdadeiro (como um animal enjaulado), ao mesmo tempo em que impõe um andamento quase mecânico em seus diálogos, como se aquelas palavras saíssem de algum lugar que não aquela boca.

Toda essa construção acaba fazendo ainda um mau terrível ao sempre mediano Daniel Craig, que acaba sumindo em uma certa apatia (talvez refletindo ainda a falta de uma apresentação mais imponente ao seu personagem), uma opção que Fincher parece fazer pelo bem do filme, assim como toda exposição de Lisbeth. Principalmente no cuidado com que deixa a personagem ao mesmo tempo ser frágil e carente enquanto a vida lhe esmaga. Que permite que, depois de uma noite de amor, Blonkvist dê de cara com um café da manhã bucólico na mesa para, no mesmo plano, acabar a cena com ela fumando com o pé “relaxando” dentro da pia. Dois extremos de uma personalidade que é, certamente, é o grande show do filme.

Mas Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, felizmente, acaba não sendo só Lisbeth Salander, já que David Fincher, mesmo não entregando a enormidade que toda expectativa criada pela combinação de seu nome com o Best Seller, ainda assim consegue criar um filme com um visual impecável. Que sabe a importância e a plasticidade de um belo plongeé (quando a câmera se coloca no alto da cena) enquanto consegue equilibrar todo esse estilo com a segurança de um filme que precisa de diálogos claros e planos detalhes (em provas e evidências) para funcionar e não deixar ninguém perdido no meio de toda história. Assim como em A rede Social Fincher parece mais ainda no auge de sua maturidade e sempre em busca do necessário para uma ou outra cena, mesmo que isso queira dizer manter certas opções dentro do convencional.

E toda essa opção visual ainda ganha mais personalidade com uma direção de arte precisa e focada (sem esquecer da trilha sonora genial de Trent Reznor e Atticus Ross), que não perde nenhuma oportunidade de criar seus personagens por meio de seus habitats, já que todos parecem sempre serem enfrentados em suas próprias casas em diversos momentos diferentes. Como se sempre um dos personagens tivesse que encarar aquela situação (seja uma discussão, seja o clímax ou até só uma descoberta) no papel de invasor, que é justamente o sentimento que a dupla de “investigadores” mais sente ao estar naquela situação, chafurdando em toda sujeira de árvore genealógica dessa família instalada em uma ilha no meio do nada.

still 2 Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Mas quem leu o livro, e deve ter se irritado com a falta de coragem do filme sueco, que preferiu seguir aquilo cegamente a adaptá-lo a uma nova mídia (levando consigo tanto seus defeitos quanto seus maneirismos característicos da linguagem), pelo menos aqui ganhará a chance de ser surpreendido em um ou outro momento, sem contar o final (talvez grande escorregão do livro), que aqui ganha uma resolução menos complicada e que acaba sendo muito mais coerente com o resto da trama enquanto respeita (muito mais!) a inteligência do espectador.

Já os marinheiros de primeira viagem, serão presenteados então com uma trama que provoca o espectador, que não consegue permanecer distante de toda natureza da história, já que, como o trailer fez questão de salientar, esse não seria o “Feel Good Movie of the Year”. Ao mesmo tempo em que cria essa identificação do espectador que vai descobrindo tudo junto com os dois protagonistas, coisa que ajuda a essa trama que acaba não tendo um final tão climático assim, mas que serve para costurar tudo e fazer todos saírem satisfeitos da sala de cinema.

Por tudo isso, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres talvez não seja o “filmaço” que todos esperavam e, talvez, a vontade de contar essa história para o público americano talvez acabe ultrapassando a necessidade de tentar fazer algo um pouco mais original que, com certeza, funcionaria mais ainda, até por que, se desse modo pouco surpreendente já funciona perfeitamente, é fácil imaginar onde ele poderia chegar com um pouco mais de liberdade narrativa.


The Girl With The Dragon Tatoo (EUA/Sue/RU/Ale, 2011) escrito por Steven Zaillian, a partir de uma obra de Stieg Larsson, dirigido por David Fincher, com Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visnjic e Geraldine James.


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