Mate-me Por Favor | O incômodo de olhar nos olhos vazios da juventude

Mate-me Por Favor Filme

Talvez uma das coisas mais incomodas e perturbadoras do cinema seja encarar nos olhos os personagens dentro do filme. Como se a quarta parede estivesse sendo estilhaçada em busca de um significado que escorre por aqueles olhares. A diretora Anita Rocha Silveira faz isso um punhado de vezes em Mate-me Por Favor e o resultado é um retrato profundo e maduro sobre o vazio da adolescência.

O filme conta a história de uma série de mortes que começam a acontecer na Barra da Tijuca e um padrão que começa a se formar: moças, jovens, escondidas pela madrugada e espancadas até a morte. Os corpos vão se empilhando enquanto a notícia vai mudando a vida de um grupo de adolescentes.

Mais precisamente quatro amigas que, em uma das voltas da escola, acabam encontrando uma das vítimas ainda viva, o que muda completamente a vida delas e de todos ao seu redor. Um encontro que ainda vai fazer nascer em Bia uma necessidade de descobrir que ela mesma está viva e até onde se permite ir nessa lucidez.

Bia embarca então em uma viagem onde precisa testar os limites de sua existência enquanto ao seu redor todos parecem mergulhar mais e mais em uma ausência de sentido que cria uma espécie de estupidez coletiva. Mate-me Por Favor tenta então retratar isso sem fugir da dolorosa verdade que os cerca: todos estão ali perdidos.

Alguns movidos por uma fé artificial de uma pastora funkeira; outros ainda em busca de um amor que o abandonou, obcecado pelo momentos que não existe mais, pelo passado (até da música); outros só querem ser aceitos e se sentirem parte do grupo, nem que isso queira dizer a felicidade em ver que sua amiga está deformada pela herpes, ou simplesmente feliz; alguns só querem viver a luxúria dos hormônios. Mas no fundo todos gritam por socorro com o barulho de quem quer ser ouvido na fila da cantina, mas o fazem no silêncio. O fazem no olhar profundo que a diretora faz questão de buscar.

Um incomodo que a diretora não deixa sumir a cada plano dessa cidade fantasma, dessa madrugada fria e vazia. Procurando incomodar e perturbar o espectador com a veracidade daquilo tudo. Fazendo-os dentro do cinema mergulhar em uma experiencia sensorial que os coloca sentindo o mesmo que os personagens.

 

Não de graça colocando sua câmera no começo como em um daqueles produções clássicas de serial killer, subjetiva e vendo sua vítima correr até o final trágico. Justamente, pois no resto do filme o que ela faz é desconstruir essa impressão e criar uma situação onde todos são os assassinos e todos são as vítimas. Uma escolha tão aleatória como no jogos dos adolescentes em certo momento da trama.

Mate-me Por Favor Filme

Do que essa primeira vítima corre? De quem? Para onde? Será que tudo não é inevitável? Será que mesmo correndo ainda há a chance de conseguir sobreviver? Mate-me Por Favor mostra que não há com escapar, seja do assassino que pode estar sentado em seu sofá (ou até mais próximo de você), seja do mal maior que ele cria: esse sentimento de não ter escapatória.

E ainda com um jovem elenco incrível, Mate-me Por Favor pode até parecer ser sobre essa série de assassinatos, mas não é. O filme de Anita Rocha da Silveira, que ainda assina o roteiro, é sobre a adolescência. Um filme poético, poderoso, maduro e corajoso sobre a adolescência. Um filme que sabe que não existe outro jeito de sair dessa fase da vida se não por meio de uma explosão de violência, se não física (na maioria das vezes), no mínimo psicológica.

Um filme que ainda por cima parece em busca da beleza de cada plano, mesmo diante de uma geração que não para um segundo para apreciar o que está está a sua volta. Atolados e influenciados por um mundo que não os permite pensar ou agir. Um retrato de uma geração perdida em suas depressões silenciosas e que carregam o peso do futuro do mundo em suas costas. Uma geração que prefere morrer, prefere esperar o assassino fazer sua parte, quem sabe assim conseguem dar fim a essa dor e a essas incertezas.

E olhar em seus olhos e enxergar tudo isso incomoda mais do que qualquer serial killer.


“Mate-me Por Favor” (Bra, 2016), escrito e dirigido por Anita Rocha Silveira, com Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira, Júlia Roliz, Bernardo Marinho, Laryssa Ayres e Lorena Camparato


Trailer – Mate-me Por Favor

O crítico foi ao cinema a convite do Cine Roxy
roxy-banner

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *