por Wanderley Caloni
28 de março de 2018 |

Madame é uma comédia de costumes que analisa a elite decadente que janta em uma mansão em Paris como parte do jogo de ser rico. No meio deles está a governanta da anfitriã, disfarçada de realeza. Só que a história é menos sobre a plebeia e mais sobre como aquelas criaturas interagem com aquele brinquedo ocasional.

E é essa interação que revela a habilidade da diretora e roteirista Amanda Sthers em captar o quão fascinante é o tom burguês secular que aquelas pessoas adotam enquanto todos parecem alheios à própria existência, ou à existência de outras pessoas na sala. Eles se acham relevantes, mas têm menos o que dizer que a plebeia. Quando um deles critica, de maneira automática e acéfala, Hugh Grant e os finais melosos de seus filmes, ele recebe um “insight” maravilhoso de como todos adoram finais felizes, e como as pessoas não conseguem evitar a esperança.

“As pessoas…” é a ultima frase do filme e sobre o que este filme fala.

Para isso funcionar de maneira tão certeira como aqui funciona, dois elementos são vitais: os personagens e suas interpretações. E os dois estão afiados com a maneira que Sthers enxerga as pessoas. Basicamente como símbolos. Vamos à metáfora mais permanente.

O jantar em questão deveria ser de 12 pessoas, mas um “apóstolo” indesejado, o filho alcoólatra da família, chega sem avisar. Na Santa Ceia, constituída de 13 pessoas, o cabalístico número do azar, o décimo-terceiro convidado é Judas. Para evitar esse número a Madame coloca sua governanta como a de número 14, que se revela como sua maldição quando um influente amigo (Michael Smiley) se interessa por ela.

A simbologia não acaba por aí. Outro tema do filme é a falência do patriarca, que tenta vender uma Santa Ceia pintada por um artista famoso para sobreviver mais um tempo. O nível de decadência da burguesia é tamanha que até a religião teve que ser vendida. Onde chegamos na característica mais peculiar do longa: Judas possuía seu próprio evangelho. E, assim como Mateus, Marcos, Lucas e João, Judas também possui sua versão da história sendo escrita (o filho da família de anfitriões também é escritor, e encontrou sua próxima história quando encontrou a governanta da família no meio do jantar).

Madame Crítica

Toda essa simbologia vai sendo captada conforme o filme passa do interessantíssimo jantar para o que vai ocorrendo depois. Não se trata de uma narrativa amarrada, com final certinho, mas uma história que captura os momentos-chave sobre o que acontece quando uma serviçal participa do mundo dos ricaços. É interessante notar que a história abriga no jantar representantes dos impérios modernos, como Inglaterra, Estados Unidos, França.

Toni Collete é a “Madame” do título, e nos entrega uma mulher repulsiva sem sair dos saltos. Ela consegue, no mesmo segundo, fazer um comentário que soa bondoso (“me sinto bem em ajudar uma filha talentosa como a sua”) e após um sorriso convencional, realizar a chantagem mais odiosa, pois apela para os sentimentos (“odiaria ter que parar de fazer isso”). Enquanto isso, seu marido, interpretado por um Harvey Keitel inspiradíssimo, exibe todo seu talento em soar sarcástico enquanto caminha ladeira abaixo em sua posição financeira. É dele as melhores falas, mas são melhores apenas porque é Keitel que está dizendo.

Rossy de Palma, como Maria, soa autêntica. Ela em momento algum muda seus hábitos de governanta, e nos deixa perceber como os velhos costumes a atrapalham no novo ambiente quando se levanta para ajudar uma criança a cortar a carne da refeição. Ela se torna um alívio cômico sem exageros, o que serve também para o lado humano do longa, que é rodeado de criaturas grotescas que parece olhar a todo momento para seu próprio umbigo. Sua postura de nunca se entregar ao vitimismo é o que nos permite aproveitar o show.

Com momentos inspirados que extraem o verdadeiro significado do que é fazer parte de uma sufocante e decadente burguesia, Madame entretém do começo ao fim e no caminho nos entrega mais do que “foi pedido”: uma análise social ácida escondida no meio das risadas.


“Madame” (Fra, 2017), escrito e dirigido por Amanda Sthers, com Toni Collete, Harvey Keitel e Rossy de Palma.


Trailer – Madame

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