Há 17 anos, os X-Men chegaram aos cinemas e ajudaram a solidificar os super-heróis dos quadrinhos como uma opção válida de material a ser adaptado para a telona. Uma das razões para seu sucesso foi, sem dúvidas, o Wolverine de Hugh Jackman, que agora, em Logan, se despede da audiência da melhor forma possível.

O ano é 2029, e Logan (Jackman) vive próximo à fronteira entre o México e os Estados Unidos com Charles Xavier (Patrick Stewart), agora já passando dos 90 anos, e com o recluso mutante Caliban (Stephen Merchant). O professor passa a maior parte do tempo dopado, solução encontrada pelo protagonista para evitar os ataques e convulsões que Xavier vem sofrendo e que causam efeitos devastadores em quem estiver por perto. Mas Wolverine não está muito melhor: trabalhando como motorista, seu peito apresenta cicatrizes e feridas que demoram a sarar, e ele caminha mancando e tosse com frequência. O problema não é apenas sua aparência visivelmente mais velha, mas o fato de que ele parece estar deteriorando de dentro para fora.

Enquanto isso, novos mutantes não surgem há 25 anos, fazendo com que a população trate-os com ainda mais desprezo (“Talvez nós tenhamos sido o erro de Deus”, declara Wolverine). Entretanto, logo surge em cena a pequena Laura (Dafne Keen), que possui a mesma capacidade de regeneração de Logan, assim como seu esqueleto e garras revestidos de adamantium. A garota está sendo perseguida por Pierce (Boyd Holbrook) e seus capangas, cujas motivações tornam-se claras ao longo da narrativa. Depois de muita relutância, Wolverine atende ao pedido de Gabriela (Elizabeth Rodriguez) e aceita levar Laura até a fronteira com o Canadá, onde a jovem vai encontrar amigos e, com eles, partir para o santuário para mutantes conhecido como Éden. Logan, entretanto, não acredita que o lugar seja real.

Diante desse cenário devastador estabelecido pelo roteiro de James Mangold (que retorna à direção depois de comandar Wolverine: Imortal), Scott Frank e Michael Green, o diretor e seu diretor de fotografia John Mathieson (que também trabalhou em X-Men: Primeira Classe) investem em uma estética pesada e destituída de vida, com cenas escuras e quase sem cor, banhadas em opressivos tons de amarelo e laranja. É um cenário pós-apocalíptico diferente de qualquer coisa que já vimos em um filme dos X-Men e, mais ainda, em qualquer outro filme de super-herói.

E essa distância entre Logan e seus companheiros de gênero ilustra perfeitamente o potencial que os super-heróis dos quadrinhos têm de constantemente se reinventarem, tanto nas páginas quanto nas telonas. Nada mais justo para um personagem que teve uma grande responsabilidade em estabelecê-los como figuras de interesse para a indústria cinematográfica. Afinal, esta é a despedida perfeita desse personagem que, com o misto de vulnerabilidade e selvageria perfeitamente capturado pelo trabalho impecável de Hugh Jackman, marcou uma geração inteira de fãs, tornando-o o único dos X-Men a, até agora, ganhar sua própria trilogia-solo. Mas, depois de um filme ruim (o único dentro da franquia inteira, diga-se de passagem) e de outro apenas moderadamente eficiente, apenas este Logan está à altura do mutante.

Para tanto, a presença da pequena Laura também é fundamental. Vivida com uma intensidade impressionante pela jovem Dafne Keen, Laura é uma figura que, em muitos aspectos, lembra o próprio protagonista, mas com a esperança e o potencial resultantes de sua juventude. Assim, Laura e Logan desenvolvem uma dinâmica fascinante, enchendo de força o momento em que ele diz a ela “Não seja o que fizeram de você”. A ferocidade de Laura é um frequente escudo contra sua insegurança e medo, mas a garota jamais deixa de demonstrar força e habilidade impressionantes em batalha.

Aliás, esse é outro aspecto marcante de Logan: proibido para menores de 18 anos em seu país de origem (no Brasil, a classificação indicativa é de 16 anos), Mangold aproveita ao máximo a possibilidade de ser tão violento quanto quiser — e a violência aqui é de tirar o fôlego. Sempre pesada e impactante, ela é utilizada pelo diretor com propósito, jamais parecendo gratuita ou exagerada. Uma violência que dá dimensão a seus personagens e a suas batalhas, pois é significativo, por exemplo, ver Logan lutando com exaustão, enquanto Laura ataca seus inimigos com o desespero de um animal enjaulado.

Logan Crítica

Mas não podemos falar de Logan sem falar de Charles Xavier. Se Jackman retorna a seu personagem com conforto, o mesmo acontece com Patrick Stewart que, aqui, apresenta uma docilidade tocante. Mais frágil do que jamais o tínhamos visto, Xavier surge condenado justamente por seu imenso poder, em conflito por ter que abrir mão de sua sanidade e consciência em troca de manter-se inofensivo. Logan e Xavier compartilham momentos belíssimos, imbuindo à obra uma sensibilidade fundamental.

Pois se Logan é um longa pesado e com cenas de ação marcantes por seu realismo, Mangold e Jackman jamais deixam de lado a humanidade de Wolverine, característica essencial para que o personagem tenha se tornado tão icônico tanto nos quadrinhos quanto no cinema. Logan sempre foi um herói relutante e, aqui, ele mergulha cada vez mais fundo naquilo pelo qual ele acredita valer a pena viver e lutar. Consequentemente, nós da plateia fazemos esse mergulho junto com ele.

Afinal, a franquia dos X-Men sempre se destacou em meio aos demais super-heróis por seu potencial dramático e pela maneira complexa e rica com que lida com suas temáticas, especialmente no que diz respeito à intolerância e à aceitação. Aqui, a complexidade se mantém, demonstrando também o potencial dos quadrinhos de render obras cinematográficas originais e verdadeiramente marcantes.

Filme digno de seu protagonista, Logan é uma maneira bela e inesquecível de encerrar uma história iniciada há 17 anos. E que venham os novos rumos que a franquia percorrerá daqui para frente.


“Logan” (EUA, 2017), escrito por James Mangold, Scott Frank e Michael Green, dirigido por James Mangold, com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant e Eriq La Salle.


Trailer – Logan

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