A ideia de uma pessoa vivendo repetidamente o mesmo dia não é algo novo, já tendo sido utilizada tanto em comédias, como Feitiço do Tempo, quanto em diversos ficções-científicas, como Contra o Tempo. Mesmo assim, é um conceito que, quando bem trabalhado, não deixa de fascinar – e No Limite do Amanhã consegue isso, mostrando-se interessante e divertido, mesmo escolhendo um caminho fácil em sua conclusão previsível.

Baseado no livro de Hiroshi Sakurazaka, o roteiro de Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth é ambientado em um mundo desolado pela invasão alienígena que está quase conseguindo acabar com a humanidade. Nesse contexto, Cage (Tom Cruise), assessor de imprensa do exército norte-americano, é enviado a Londres e, a contragosto e depois de tentar se livrar da situação de diversas formas, é enviado para o campo de batalha. Despreparado, ele morre rapidamente – e acorda no dia anterior. Misteriosamente, seu contato com os alienígenas deu a Cage a habilidade de reiniciar o dia sempre que ele morre. Ao lado de Rita Vrataski (Emily Blunt), veterana e heroína da guerra contra os aliens, eles buscam então usar essa habilidade para derrotar de vez os invasores.

A partir daí, Cage passa a treinar com Rita e a bolar planos para alcançar seu objetivo, voltando ao dia anterior à batalha em que ele morreu pela primeira vez sempre que perde a vida novamente. De início, ele continua não durando muito – aos poucos, porém, ele vai se tornando mais eficiente e mais seguro com a ação, resultado dos dias de experiência e do treinamento rigoroso da veterana. O diretor Doug Liman estabelece de forma eficaz o contraste entre o que é repetição e o que é ocasionado pelas mudanças no comportamento de Cage, chegando mesmo a deixar o protagonista à frente do espectador (ao contrário do usual, quando descobrimos novas informações junto com ele). Assim, ao acompanharmos uma sequência pela primeira vez, logo percebemos, pela postura e casualidade de Cage (algo retratado muito bem por Cruise), que ele já passou por aquilo diversas vezes.

Outro ponto bem desenvolvido é o relacionamento entre os protagonistas. Enquanto Cage passa o equivalente a vários dias com Rita, ela o conhece pela primeira vez a cada vez que ele morre, mas sabendo que já passaram por diversas situações juntos. Assim, a hesitação dela em se aproximar demais dele, a tristeza de Cage sabendo pelo que a parceira vai passar e a sutil diferença nos olhares de ambos a cada primeiro encontro dão profundidade aos personagens, fazendo deles pessoas pelas quais realmente nos importamos e que passamos a conhecer – algo também alcançado pela eficiência dos atores. Enquanto Cruise tem a oportunidade de surgir, de início, vulnerável e inseguro como seus personagens raramente são, Blunt rapidamente permite que Rita seja estabelecida como uma personagem complexa – algo, vale destacar, muito bem vindo em um filme de ação estreando no verão norte-americano. Rita preenche, afinal, a típica posição do “herói de guerra” (normalmente preenchida por um homem), vista pela humanidade como essencial na luta contra os alienígenas, sem ser definida apenas por seu lado guerreira.

no-limite-do-amanha-still

A montagem de James Herbert e o design de produção são essenciais para estabelecer a ação de forma compreensível, desde os ambientes desolados que vemos nas reportagens que iniciam a narrativa – e, assim, nos apresentam à trama e ao protagonista – até para deixar perceptíveis as mudanças, graduais ou não, que a repetição dos dias modifica ou repete. Os momentos cômicos do longa também são eficientes e orgânicos, sem distrair da ação – quando a imagem de Cage discursando é cortada para ele amordaçado em um avião, o riso (do espectador e dos outro passageiros) logo é substituído pela tensão. Por fim, a biologia e a aparência dos alienígenas são fascinantes, o que, unido ao pouco que sabemos deles, contribui para a sensação de urgência sobre o destino da humanidade.

No Limite do Amanhã trabalha muito bem o conceito central da narrativa, transformando um recurso não exatamente original em algo que não parece reciclado ou cansativo. Mesmo assim, os acontecimentos do terceiro ato são previsíveis e mesmo esperados – afinal, desde o início somos alertados daquela possibilidade, o que já é um anúncio do que irá acontecer. Se encaixa na proposta do longa, mas uma conclusão mais corajosa, menos otimista, funcionaria ainda melhor.

Isso não diminui a qualidade desta eficiente obra. No Limite do Amanhã não é um filme ambicioso, mas é seguro de si – se leva a sério o suficiente para mostrar-se inteligente e interessante, mas investe em um senso de humor eficaz e na dupla de protagonistas para envolver a plateia. O filme, assim, consegue manter o espectador entretetido durante duas horas sem ser completamente esquecido assim que a sessão termina.


“Edge of Tomorrow” (EUA, 2014), escrito por Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, dirigido por Doug Liman, com Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton, Charlotte Riley e Jonas Armstrong.


Trailer – No Limite do Amanhã

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.