“Leviatã é um monstro marinho bíblico mencionado em Jó, Capítulo 41, Versículo 1.”

Leviatã narra a história de Nikolay, um homem que vê Leviatã Postersua casa ser tomada pelo corrupto prefeito local e que, em uma última tentativa de salvá-la, recorre a um velho amigo do exército – que é agora um bem-sucedido advogado em Moscou. A vinda do colega, entretanto, traz à tona novas complicações para Nikolay.

O longa, dirigido por Andrey Zvyagintsev, nos envolve, desde sua abertura, com seus personagens fortes, crus e – mais do que tudo – extremamente reais. Muito além da trama de frente, Zvyagintsev cria um verdadeiro épico nos detalhes, no que é contado nas entrelinhas, nas histórias de fundo.

O filme aborda tantos aspectos da cultural russa em tão pouco tempo que isso, por si só, já faz valer uma (ou mais!) revisitações ao longa. Desde o lado machista e bélico da velha geração russa até o lado religioso do país, o trabalho de Zvyagintsev parece não deixar nada passar em branco.

Porém, é na forma como isso é feito dentro do filme que realmente eleva este projeto a outros patamares. Embora tenhamos – como normalmente é o caso – empatia com o protagonista. Até por que, ele de fato sofre injustamente nas mãos dos políticos locais, é extremamente interessante que, simultaneamente, o filme abertamente o critique pelo modo datado e atrasado como vê o mundo e, especialmente, sua atual mulher.

O cerne do longa, no entanto, está na dinâmica com a qual o poder rege aquele país europeu. Sabemos que a máfia russa ainda tem grande poder na Europa, mas aqui o foco é a política. Com poder – quase – sem limites, os políticos russos parecem ser capazes de fazer o que bem entendem. E o mais curioso, particularmente para nós brasileiros, é que lá eles fazem isso abertamente. Não que por aqui muitas falcatruas não sejam descaradas, mas, ao menos, o prefeito não vem à sua casa tirar um barato da sua cara no meio da noite pois ele vai te despejar (ilegalmente, preciso ressaltar) e acha tudo muito engraçado.

Leviatã Crítica

O uso de armas, tanto pelos “mocinhos” quanto pelos vilões da trama é algo que salienta ainda mais a sensação de “terra de ninguém” que parece ser evidente por lá. Ao reflitir sobre o que vemos aqui é inevitável não compararmos a Rússia conosco e ver como há tanto em comum entre essas duas terras tão distintas, mas que explica muito bem por que ambas continuam sendo – há anos – os “países do amanhã” e nunca conseguindo chegar efetivamente lá.

Por fim, a religião não poderia ficar de fora. E, assim como por aqui, a igreja parece estar intimimamente envolvida com os poderosos sem fazer o menor esforço para mudar ou melhorar a situação. Aqui temos uma figura de um padre que é quase um clérigo pessoal do prefeito da cidade. Excepcionalmente astuto, o homem de deus dá conselhos sérios e diretos para que o prefeito continue no poder. Diametralmente oposto é o encontro de Nikolay, em dado momento, com um outro padre, na rua, quando tudo parecia estar perdido. Em busca de respostas, Nikolay questiona o clérigo sobre o que fazer e, em retorno, recebe as “respostas prontas” de sempre. Uma clara, e inteligente, crítica a igreja ortodoxa russa que claramente só trabalha para os que têm poder.

No final, no entanto, fica a pergunta: quem é Leviatã? A interesseira igreja russa talvez? O sistema político corrupto quem sabe? Pode ser. Mas acredito que o culpado seja o poder em si. O poder que corrompe os políticos a serem desonestos, que corrompe a igreja a se vender, que corrompe os homens a abusarem de suas mulheres. O poder é o grande vilão. E esta obra é um dos melhores retratos já feitos deste grande inimigo da humanidade.


Leviafan (Rus, 2014), escrito por Andrey Zvyagintev e Oleg Negin, dirigido por Andrey Zvyagintev, com Aleksey Serebryakov, Dmitriy Seleznyov, Elena Lyadova e Roman Madyanov.


 

Trailer – Leviatã

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