Praticamente todo mundo que trabalha de alguma forma com a arte em quaisquer de suas expressões, mais cedo ou mais tarde, se depara com obstáculos e decisões difíceis. Nesse sentido, Los Angeles, o reino da indústria cinematográfica norte-americana, atrai os sonhadores. Eles chegam à cidade impulsionados pela ambição e pela esperança de que, ali, poderão encontrar seu lugar e tornarem-se reconhecidos (e famosos) por suas paixões, mesmo que LA derrube sonhos com mais frequência do que os realize. La La Land: Cantando Estações ilustra com excelência o fascínio representado pelo cinema e, com isso, causa esse mesmo fascínio em sua própria plateia.

Mia (Emma Stone) chegou em Los Angeles há seis anos, onde atualmente divide seu tempo entre o trabalho como atendente em um café nos estúdios da Warner Bros. e os inúmeros testes de elenco que nunca dão em nada e nas quais os produtores mal lhe enxergam. O pianista Sebastian (Ryan Gosling), por sua vez, vira-se com alguns bicos ingratos, mas ainda está longe de seu sonho de abrir seu próprio clube de jazz.

Os caminhos dos dois se cruzam logo na primeira cena de La La Land, um fabuloso plano-sequência que consegue encher de energia e carisma uma ponte congestionada pelo tráfego. Enquanto uma série de artistas sonhadores canta e dança sobre suas expectativas em relação a Los Angeles com brilho nos sonhos e vestindo vibrantes cores primárias, Mia e Sebastian imediatamente se irritam um com o outro. É um anti-meet cute (os “primeiros encontros engraçadinhos” das comédias românticas), e a irritação dos protagonistas se repete pelos próximos meses, nos quais eles se esbarram algumas vezes pela cidade e, assim, chegam à conclusão de que realmente não gostam um do outro.

O que nos leva à divertida “A Lovely Night”, a antítese das grandiosas canções de amor, principalmente por percebermos o óbvio interesse crescente de Mia e Sebastian um pelo outro. Pois, é claro, eles se apaixonam. Mas, mesmo que La La Land seja esperançoso e positivo, o diretor e roteirista Damien Chazelle também apresenta uma visão realista, que reconhece as dificuldades do relacionamento central do filme, que aparecem de forma natural e bem construída, pois não são a base do filme. Os obstáculos principais dizem respeito à carreira de Mia e Sebastian, conforme eles navegam por (e tentam construir) suas carreiras e refletem sobre o que realmente querem da vida. Afinal, em LA, você pode despir sua alma em uma audição apenas para ser interrompida por uma ligação sobre o almoço do produtor, como acontece aqui com Mia.

Voltando à cena inicial, embalada pela envolvente “Another Day of Sun”, é fascinante perceber a forma com que Chazelle, ali, nos apresenta à atmosfera e à proposta do filme, imediatamente colocando o espectador dentro de seu universo. Este e os demais números musicais são filmados em planos longos, remetendo aos musicais clássicos e destacando os esforços do elenco para apresentar as canções e coreografias — que, tudo bem, não são das mais elaboradas mas, ainda assim, são divertidas e eficientes. LA é apresentada em toda a sua grandiosidade, enquanto o filme diverte-se em apresentar um número tão ensolarado seguido pelo letreiro indicando que a cidade encontra-se no inverno.

La La Land Crítica

Da mesma maneira, os tons primários que colorem os figurinos da primeira cena transbordam ao longo de todo o filme e, nesse sentido, merece destaque também o número “Someone in the Crowd”, que traz Mia dançando ao lado das três amigas com quem ela mora. As cores dos vestidos de cada uma criam um belo contraste, dando energia à sequência. Esses tons vibrantes são complementados pelo rosa, azul e amarelo de Los Angeles, dando personalidade ao longa e imprimindo-o com um ar de fantasia e magia da vida real que encaixa-se perfeitamente em sua proposta.

Afinal, mais do que tudo, La La Land: Cantando Estações é uma declaração de amor ao cinema. Dessa maneira, Chazelle acerta em cheio nas referências a musicais clássicos, que surgem de forma natural, como quando Sebastian pendura-se brevemente em um poste de luz, assim como Gene Kelly em “Cantando na Chuva”, ou no momento em que Mia posa para um ensaio fotográfico segurando balões da mesma maneira que Audrey Hepburn fez em “Uma Cinderela em Paris”. O filme chega até mesmo a utilizar o logotipo original da 20th Century Fox para filmes apresentados em Cinemascope. Entretanto, mesmo mergulhado na nostalgia, o roteiro acertadamente não faz quaisquer comentários denegrindo a arte realizada hoje em relação aos “velhos tempos”. Sim, Chazelle reverencia e respeita os antecedentes do cinema e do jazz, mas o filme em si é um exemplo de como tudo isso pode ser trazido para hoje e, então, atualizado. Agora, Mia pode descer do salto alto para dançar de igual para igual com Sebastian.

Após seu excelente primeiro longa-metragem, Whiplash, Chazelle continua mostrando-se, aqui, um cineasta seguro, ousado e original. Mas a magia exercida por La La Land também deve muito a Emma Stone e Ryan Gosling, dois atores absurdamente carismáticos e que elevam seus personagens até mesmo além do roteiro. Gosling acerta em cheio na criação da personalidade de Sebastian, misturando arrogância, babaquice e paixão na medida certa para fazer do pianista alguém interessante e complexo, mesmo capaz de declarar-se como “uma fênix ressurgindo das cinzas” sem um pingo de ironia. Dando tudo de si em cenas de alto teor emocional, Stone se sai ainda melhor. A atriz imprime energia, irreverência e força em meio à insegurança e à fragilidade de Mia, e merece destaque pelo número “Audition (The Fools Who Dream”), em que a câmera jamais abandona seu rosto.

Energético e apaixonante, La La Land: Cantando Estações é uma obra que transborda de amor ao cinema e à arte de maneira geral. Todos os tempos são difíceis para os sonhadores mas, mesmo assim, não paramos de sonhar; continuamos persistindo e enfrentando o que for preciso em nome da arte. La La Land nos lembra disso e, portanto, representa um banquete especialmente para quem for igualmente apaixonado por cinema.


“La La Land” (EUA, 2016), escrito e dirigido por Damien Chazelle, com Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock e Tom Everett Scott.


Trailer – La La Land

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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